1- Como é eleito o presidente da Alemanha
A renúncia ao cargo do presidente Horst Köhler tornou necessária a eleição de um novo presidente, que terá lugar no próximo dia 30 de Junho.
A eleição do presidente da Alemanha não é feita através de sufrágio directo universal, mas sim em assembleia específica, reunida para o efeito, e só para esse efeito. A assembleia que elege o presidente designa-se por Bundesversammlung, a assembleia federal. É convocada pelo presidente do parlamento federal, Bundestag, e dela fazem parte todos os deputados do Bundestag, actualmente 622, e um número igual de eleitores, designados pelos parlamentos dos Estados federados, os Landestag, que tanto podem ser deputados dos respectivos parlamentos como quaisquer outras pessoas, que as fracções políticas aí representadas resolvam convidar. Cada Landestag nomeia um determinado número de eleitores, proporcional ao número de habitantes com cidadania alemã de cada estado federado. No final, atinge-se um número total de eleitores do presidente nomeados por esta via igual ao número dos deputados do Bundestag. Portanto, a Bundesversammlung será, nesta eleição, composta por 1244 participantes.
A assembleia reunirá no dia 30 de Junho, em Berlim. Qualquer candidato proposto precisa, para ser eleito, na primeira volta, de maioria absoluta. Se não a obtiver, há uma segunda volta em que precisa também de maioria absoluta e, se ainda não a tiver obtido, haverá uma terceira volta, na qual é suficiente para a eleição a maioria simples.
2- Quem são os candidatos
Neste momento, há três candidatos. Christian Wulff, proposto pela coligação de direita no governo CDU-FDP. Joachim Gauck, proposto pelo partido social-democrata SPD e pelos Verdes, Grüne. Lukrezia (Luc) Jochimsen, que é proposta pelo Die Linke.
Christian Wulff vai fazer agora 51 anos, é militante da CDU e actual ministro-presidente do estado da Baixa-Saxónia, com capital em Hannover.
Joachim Gauck tem 70 anos, é um pastor luterano reformado, cidadão da antiga DDR e que foi responsável pela gestão dos ficheiros da STASI, depois da Queda do Muro. Não tem filiação partidária.

Luc Jochimsen é uma socióloga, jornalista, tem 74 anos, deputada e representante do Die Linke para questões de política cultural.
3- Quem se prevê que venha a vencer
Em princípio as melhores hipótese são de Christian Wulff, porque beneficia do apoio da coligação CDU-FDP. No entanto, tem havido alguma expectativa à roda de Joachim Gauck, admitindo-se que, na assembleia, possa vir a beneficiar de alguns votos da CDU ou do FDP. Mas tudo são ainda especulações. A candidatura da Sra. Jochimsen é uma candidatura que o Die Linke formaliza porque não se identifica com nenhum dos outros dois candidatos. Luc Jochimsen terá, como Gregor Gysi já afirmou, os votos do Die Linke na primeira e na segunda volta - isto no caso de Christian Wulff não obter logo a maioria absoluta. E, numa terceira volta, se chegar a haver uma terceira volta, o Die Linke verá qual a atitude a tomar.
4- O que há a esperar dos candidatos com melhores perspectivas de eleição
Há muito pouco a esperar dos dois candidatos, aos quais se atribuem hipóteses de vencer. Christian Wulff é um político de carreira da CDU, designado para que não ocorra novamente aquilo que se passou com Horst Köhler. A CDU pretende, desta vez, um presidente estritamente vinculado, pessoal e profissionalmente, ao partido no poder e ao programa do governo. Joachim Gauck é proposto pelo SPD, mais como forma de luta política contra Angela Merkel do que propriamente como alternativa ao modelo social que Wulff representa. A diferença política entre ambos acaba por não ser grande, independentemente do facto de terem experiências de vida e personalidades bastante diferentes. Se Wulff representa a coligação no poder, também na discussão pública que se vem travando sobre a participação da Alemanha na guerra do Afeganistão, sobre o estatuto dos trabalhadores pobres alemães, sobre o crescimento do sector de salários baixos, sobre as gerações de crianças que, devido ao desemprego e à posição social fraca dos pais, já crescem sem perspectivas de futuro, sobre a desmontagem do sistema social de saúde, sobre o montante das contribuições do Estado para os desempregados de longa duração, sobre a recente transferência para os mais pobres dos custos da crise financeira, não se ouviu uma voz indignada e firme de Joachim Gauck ao lado daqueles que de uma voz solidária e com autoridade mais precisariam. Mas também, como o próprio Joachim Gauck afirma (1), seria para ele terrível que a sua candidatura fosse compreendida como um ataque contra a chanceler e que uma eventual eleição sua não significaria, de maneira nenhuma e de forma automática, o fim da “era Merkel”.
Ou seja, as diferenças entre Wulff e Gauck são de superfície e não de conteúdo, como, actualmente, de superfície, e não de conteúdo, são as diferenças na prática política de CDU e SPD: recorde-se que, até Setembro do ano passado, CDU e SPD formaram a “grande coligação” no governo da Alemanha, sob a direcção de Angela Merkel. A candidatura de Joachim Gauck é apenas uma forma através da qual o SPD, especulando com a possibilidade de transferência de alguns votos do candidato CDU Christian Wulff para o candidato SPD Joachim Gauck, e aproveitando a impopularidade das recentes medidas de austeridade impostas pelo governo, procura pôr em causa e desestabilizar a autoridade de Angela Merkel, dentro da coligação no poder e perante a população. É uma iniciativa que faz parte da estratégia do SPD, visando a progressiva criação das condições para a reconquista da parcela de poder perdido nas últimas eleições. De resto, com um presidente Wulff ou com um presidente Gauck, com a CDU ou com o SPD, o discurso poderá ser diferente, mas a política será a mesma. Os factos políticos criados ao redor desta pretensa oposição entre Wulff e Gauck acabam por não ir além de um grande espectáculo mediático. Mas, no essencial, são simples intrigas palacianas, das quais a enorme maioria da população nada tem a esperar.
João Alexandrino Fernandes
(1) Afirmações proferidas numa entrevista ao jornal Tagesspiegel. Podem ser consultadas em http://www.heute.de/ZDFheute/inhalt/16/0,3672,8078640,00.html .
Nota:sobre os candidatos, pode ser consultada a respectiva presença na Internet, nos endereços http://christian-wulff.de, www.joachim-gauck.de e http://lukrezia-jochimsen.de .