Numa entrevista em que não fala uma vez no Banco Central Europeu e transforma a tese punitiva numa questão de solidariedade europeia, a chanceler faz depender o crescimento e o emprego da aplicação das leis laborais em vigor no seu país e no Leste da Europa e das reformas estruturais com base nas privatizações. A entrevista foi publicada em vésperas da reunião do Conselho Europeu sobre o tratado de governação económica.
A entrevista programática da chanceler alemã, apresentada com a solenidade de uma oportunidade concedida por uma espécie de primeiro ministro europeu, foi publicada nos jornais Le Monde, Suddenstsche Zeitung, Guardian, La Stampa, El País e Gazeta Wyborcza. Nela, Angela Merkel fala das origens da crise, do diagnóstico que, em seu entender, já está feito, na passagem ao crescimento e ao emprego com o reforço da união monetária e política e da solidariedade e expõe a sua visão da Europa num futuro que não definiu e ao fim de umas quantas etapas que não enumerou.
A chanceler alemã lamenta que no início da crise o debate tenha sido consumido sobre o modo com a Europa teria sido vítima dos “especuladores”, palavra grafada oficialmente entre aspas.
O diagnóstico que faz é diferente e, em seu entender, poderia ter sido concluído rapidamente: durante muito tempo na Europa “atirou-se poeira para os olhos”, os “mercados estiveram sem reagir”, inclusivamente em relação à questão grega, e “desrespeitou-se o pacto de estabilidade”.
Hoje, a solução é “encontrar o bom equilíbrio entre a solidariedade europeia e a responsabilidade nacional”.
Nesse caminho é necessário ainda “acalmar a situação na Grécia e reconquistar desse modo a confiança dos mercados”. Entretanto já se conseguiu “uma coisa boa” que foi a de “desenhar uma posição comum quanto às questões da disciplina orçamental e redução das dívidas”. Mas como “isso não chega, “é preciso crescimento e emprego reencontrando a competitividade a nível mundial pela capacidade de inovação dos seus produtos”.
Angela Merkel resumiu a questão da “solidariedade” aos Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e respetivo sucessor, o MES, Mecanismo de Estabilidade Financeira, que definiu como ideias da Alemanha, e ao tratado de governação económica em elaboração, através do qual “nenhum país poderá tomar a seu cargo dívidas de outro”. As euro-obrigações ou eurobonds “não são solução”, reafirmou, o Tribunal Europeu de Justiça é que “controlará o cumprimento dos orçamentos nacionais”.
“Os mercados testam a nossa vontade de solidariedade”, advertiu a chanceler. “Devemos procurar os equilíbrios entre todos e, onde for possível, com o Reino Unido”, acrescentou na sua quase exclusiva referência à posição de Londres na fase atual.
Quanto ao crescimento e ao emprego, a chanceler alemã introduziu o assunto com um exemplo: os 40 por cento de jovens espanhóis desempregados resultam de leis não adequadas à economia. O caminho para resolver problemas como esse já estão definidos e testados, explicou. “A Alemanha e a Europa de Leste fizeram dolorosas reformas nos seus mercados de trabalho” e os resultados são, para Angela Merkel, razão para que toda a União Europeia as assumam.
Quanto ao crescimento económico, a chefe do governo alemão recomendou apoios às pequenas e médias empresas e à criação de empresas, desenvolvimento de programas de empregos para jovens e sobretudo, profundas reformas estruturais através “da terciarização a privatizações”.
Para Angela Merkel “já é um enorme progresso que possamos hoje comparar a União Europeia a uma orquestra”. Porém, acrescentou na zona final da entrevista, “não devemos falar da beleza da música nem da importância global da orquestra; devemos antes de mais tocar no concerto dos mercados mundiais – eles ouvir qualquer coisa conveniente”.
Quanto a uma visão de futuro de uma “Europa política”, sem prazos estabelecidos nem etapas definidas, a chanceler alemã defende a transferência de competências para a Comissão, que “será um governo europeu para competências europeias”, um “Parlamento forte” e um Conselho Europeu – de chefes de Estado e de governo – “que funcionará como uma espécie de segunda câmara parlamentar”. O Tribunal Europeu de Justiça será “o Supremo Tribunal”.
Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu