Primavera Revolucionária. A Luta por um Novo Mundo 1848-1849, de Christopher Clark [1], é uma história monumental das revoluções de 1848. Com um grande estilo narrativo e uma sugestiva abordagem analítica dos acontecimentos, este historiador conseguiu reunir, em quase mil páginas, conhecimentos e nomes ao alcance de muito poucas pessoas. É um escrito tão deslumbrante quanto avassalador que gera a sensação de ter muito pouco a acrescentar ao que se leu e muito a aprender e reler vezes sem conta os relatos pormenorizados. Deliberadamente, o livro apoia-se também em numerosas figuras e testemunhos, como o futuro chanceler Otto von Bismarck, que terão o seu verdadeiro protagonismo mais tarde, embora a narração da sua experiência nesses anos nos dê já uma visão das suas trajetórias futuras e confira a este escrito uma certa dimensão prospetiva. Não creio que seja demasiado arriscado profetizar que esta obra já se tornou um clássico recente sobre este período.
Além do mais, para compreender a complexidade e o mérito do livro, há que ter em conta que a vaga revolucionária de 1848 é extremamente difícil de narrar, devido ao elevado número de territórios envolvidos e às múltiplas ligações e influências entre eles, nem sempre sincronizadas ou unívocas. O próprio Clark salienta que as revoluções de 1848 “foram sempre caracterizadas pela sua multiplicidade de vozes, pela sua falta de coordenação e pela sobreposição de muitos vetores transversais de intenção e conflito ”. [2]
Assim se explica a advertência feita nas páginas iniciais de que “devido à sua combinação de intensidade e extensão geográfica, as revoluções de 1848 foram únicas”, embora também se sugira que foi “a única revolução verdadeiramente europeia que alguma vez existiu”. De facto, embora a certa altura o seu impacto seja relatado à escala global, poder-se-ia arriscar que o verdadeiro sujeito oculto desta portentosa narrativa é a própria Europa, aqui abordada de ângulos diversos mas interligados. O livro afasta-se assim de uma história – e sobretudo de uma memória – em geral excessivamente galocêntrica na narração destas revoluções e dá grande destaque a geografias frequentemente esquecidas ou negligenciadas, como a Valáquia ou as ilhas Jónicas, onde o britânico Sir Henry Ward promoveu uma repressão brutal.
Afinal, um dos principais objetivos perseguidos é a tentativa (bem sucedida) de refletir a complexidade destes episódios e de evitar reducionismos ou simplificações, como a de rotular estas revoluções simplesmente como liberais ou nacionalistas. Para isso, a explicação histórica presta também atenção a movimentos como os radicais socialistas da época, os sacerdotes partidários da revolução, como na Valáquia ou no Reino das Duas Sicílias, ou os lutadores pela emancipação dos judeus num contexto marcado pelo antissemitismo. O abolicionismo também é abordado, sem se limitar a uma França que proibiu oficialmente a escravatura em 1848 (embora não a tenha erradicado completamente em territórios como a África Ocidental Francesa até 1905), uma vez que também recorda as tentativas, sem sucesso, de emancipação dos numerosos escravos ciganos na Moldávia e na Valáquia. É claro que o livro não esquece as lutas pelos direitos das mulheres, sistematicamente negados nas revoluções de 1848, apesar da sua participação política ativa e do seu envolvimento, incluindo nas ruas e nas barricadas.
Deste modo, é proporcionado um escorço heterogéneo e vivo, reforçado pela inclusão de outros elementos, como imagens, canções ou anedotas da época. Algumas destas últimas são muito curiosas e não desinteressantes, como a eclosão da revolução em Palermo no início de 1848, anunciada alguns dias antes em notas impressas apenas por Francesco Bagnasco, embora este as assinasse pomposamente em nome de um Comité Revolucionário inexistente. Apenas agradeceríamos se houvesse uma boa cronologia para guiar o leitor que facilmente se perde no imenso aluvião de nomes e acontecimentos inter-relacionados de diferentes países, explicados e separados por um curto espaço de tempo. De facto, um dos aspetos mais bem conseguidos do livro é a explicação de como, perante as crises políticas, as decisões dos diferentes Estados ficavam condicionadas pelos acontecimentos súbitos que tiveram lugar noutros países.
É preciso ter em conta que a vaga revolucionária afetou toda a Europa e que, como recorda Clark, muitas palavras comuns ressoaram por todo o lado (palavras como constituição, liberdade, liberdade de imprensa, de associação e de reunião, guarda civil ou nacional ou reforma eleitoral), embora também se deva dizer que nem em todos os países acontecia com a mesma força, nem adquiria uma dimensão verdadeiramente revolucionária. O livro tem também o cuidado de destacar os casos diferentes e menos espetaculares, mas nem por isso menos importantes. Por exemplo, o rei Guilherme II reagiu rapidamente nos Países Baixos e evitou a tempestade revolucionária, promulgando uma constituição liberal. Este paí não evitou a crise revolucionária, mas, como se explica, conseguiram “absorver e interpretar com êxito a crise revolucionária que grassava na Europa”. Algo semelhante, embora com menos concessões legislativas e um maior papel preventivo da vigilância e da repressão, aconteceu na Bélgica, que 18 anos antes já tinha tido a sua própria revolução. Numa perspetiva semelhante, Clark estuda o caso da Grã-Bretanha para acabar com o mito de que não houve um “1848 britânico”. Algo semelhante se pode dizer de uma Espanha não esquecida no livro, onde, logo a 13 de março, Ramón María Narváez promoveu uma Lei de Poderes Extraordinários que não impediu a eclosão de revoltas que foram posteriormente reprimidas. Agradece-se a Clark que não tenha caído em interpretações excecionalistas da história espanhola e se posicione contra o “caso ibérico supostamente especial que por vezes é sugerido nos livros, uma Espanha isolada pelos Pirinéus e presa num ciclo de conflitos civis que a mantinha à margem da vida política do resto do continente”.
Assim, o livro não só se demarca, por assim dizer, de leituras meramente difusionistas, como também sublinha que a própria história local influenciou as suas erupções revolucionárias. Como Clark tem o cuidado de especificar:
“as revoluções não foram a causa umas das outras, como os dominós de uma fila derrubam os dominós que se seguem. Mas também não foram mutuamente independentes, pois estavam relacionadas, enraizadas no mesmo espaço económico interligado, e desenrolavam-se em ordens culturais e políticas relacionadas, impulsionadas por processos de mudança sociopolítica e ideológica que sempre estiveram interligados a uma escala transnacional. Quando as revoluções eclodiram em 1848, os efeitos de transbordamento sincrónicos interagiram com situações de instabilidade”.
Por outras palavras, a sincronia não pode ser compreendida sem a diacronia de cada um dos territórios em questão. Cada uma das revoluções teve elementos em comum e suscitou também ondas mútuas de simpatia e solidariedade, até mesmo de apoio. No entanto, isso não impediu a existência de diferenças significativas, que vão desde o ritmo ou intensidade dos acontecimentos até ao tipo de exigências ou reações dos governos no poder. Por exemplo, a via republicana seguida em França não foi a maioritária na Europa. Já para não falar da grande diferença entre as cidades e os campos, muitas vezes negligenciada ou mal compreendida pelos revolucionários. Ou da difícil ou impossível harmonização dos movimentos nacionalistas que, para usar as palavras de Clark, estimularam certamente novas solidariedades e cooperaram de forma notável em muitas ocasiões, mas também desencadearam não poucas reticências ou confrontos, muitas vezes em nome de um passado mítico ou diretamente imaginado. Um conflito interessante foi o de Schleswig-Holstein, que opôs dinamarqueses a alemães, teve repercussões europeias e acabou por provocar tensões entre a Prússia de Frederico Guilherme IV e a Assembleia Nacional Alemã em Frankfurt.
Também ocorreram conflitos entre os próprios revolucionários, palavra que, na verdade, englobava um vasto leque de posições ideológicas. Um fator bem conhecido foram os resultados das eleições que eles próprios convocaram e que favoreceram maioritariamente os liberais e os conservadores moderados. Isto levou à deslocação da agenda social e a crises bem conhecidas como as Jornadas de junho em Paris, que podemos ver como uma revolução contra a própria revolução. Este levantamento, violentamente reprimido, eclodiu na sequência do encerramento das efémeras oficinas nacionais que deviam responder ao “direito ao trabalho” então em vigor, reconhecido pelo primeiro projeto da Constituição francesa de 1848 e finalmente revogado na sua versão final. Como é sabido, alguns meses mais tarde, novas eleições deram o poder a Luís Napoleão Bonaparte, que, aliás, esmagou a revolução romana em 1849 e, mais tarde, criou o Segundo Império Francês.
Um caso complexo foi o austríaco, não se limitando apenas à insurreição vienense, mas sendo também diretamente afetado pelos acontecimentos na Hungria, na República Checa, na Croácia e em várias partes de Itália. Duas constituições, a de Kremsier e a de março, foram redigidas num curto espaço de tempo, para voltarem à situação anterior no final de 1851, através da Patente de Ano Novo.
Por tudo isto, deve dizer-se que, embora a eclosão de outras revoluções tenha, sem dúvida, influenciado a forma dos desencadeamentos, as causas mais profundas devem ser procuradas na história de cada uma das geografias em questão. Isto explica a sua aparente espontaneidade e também o facto de uma grande parte do livro ser consagrada ao período anterior às revoluções de 1848, dando assim uma melhor conta do que aconteceu a partir de uma pluralidade de precedentes, sejam eles religiosos, económicos ou políticos, como as revoltas de Lyon, a partir de 1831, em França, a revolta dos tecelões da Silésia, em 1844, a revolta da Galiza, em 1846, a guerra do Sonderbund suíço, em 1847, e, claro, a vaga revolucionária de 1830, que, embora menos poderosa e menos difundida, antecipou, de certa forma, a de 1848. Para isso, Clark faz também algumas incursões pela história intelectual e examina alguns pensadores influentes da época, como Félicité Robert de Lamennais e Vincenzo Gioberti, bem como historiadores que, sobretudo a partir de quadros nacionalistas, ajudaram a fornecer relatos utilizados ao longo de 1848, como o italiano Michele Amari, o checo František Palacký e o alemão Friedrich Christoph Dahlmann. Em contrapartida, e para além do extremamente influente Alphonse de Lamartine, o resto da importantíssima história revolucionária recebe pouca atenção. Se esta história já tinha sido cultivada com sucesso nas décadas anteriores em França por figuras de relevo como Adolphe Thiers ou François-Auguste Mignet, ou em Inglaterra por Thomas Carlyle, não se deve esquecer que só em 1847 tanto Louis Blanc como Jules Michelet publicaram o primeiro volume das suas respetivas obras História da Revolução Francesa. No mesmo ano, foi também publicada a Histoire des montagnards de Alphonse Esquiros, no final da qual ele escreveu que a memória da Revolução Francesa é “a coluna de fogo que guia as gerações errantes e indecisas em busca de uma nova terra prometida” [3].
No entanto, também no que diz respeito às causas, Clark tenta distanciar-se de interpretações simples e problematiza a ligação direta entre economia e política, ou entre pobreza e insurreição revolucionária. A este respeito, sublinha as diferenças entre “a geografia da fome em 1845-1847 e a geografia da revolução de 1848-1849”. Explica ainda que foram precisamente as zonas de maior fome da época que menos se mobilizaram e conclui que “as revoluções são acontecimentos políticos, processos em que a política goza de uma certa autonomia. Não são simplesmente uma consequência necessária da pressão acumulada de mágoas e ressentimentos dentro de um sistema social”.
Isto explica seguramente porque é que esta história tem um carácter fundamentalmente político e porque funciona de forma particularmente brilhante no complexo relato “evenemencial” do que aconteceu em 1848. Em contrapartida, outros aspetos, como a memória, não merecem grande atenção. Isso não impede que a generosa utilização da informação por Clark esteja repetidamente presente ao longo da narrativa, ou que se afirme que “as revoluções de 1848 eclodiram num mundo que recorda uma era anterior de transformação” e que “dos barretes frígios e das cotas às árvores da liberdade e às bandeiras tricolores, os revolucionários de toda a Europa adornaram a sua empresa com os símbolos e os costumes da grande predecessora”. No entanto, estas relações com o passado são mais frequentemente apontadas ou ditas de passagem do que propriamente analisadas ou problematizadas, o que talvez explique ausências na bibliografia como o interessantíssimo livro Le procès de la liberté [O processo da liberdade] de Michèle Riot-Sarcey [4].
Neste contexto, pode recordar-se que, num outro grande livro sobre as revoluções de 1848, Jonathan Sperber foi mais longe e sublinhou que:
“O fator mais importante, se não o único, que moldou a doutrina política na Europa de meados do século XIX foi o legado da Revolução Francesa de 1789. A revolução tinha criado a ideia agora familiar do espetro político, ou seja, de colocar as posições políticas numa escala da esquerda para a direita. Além disso, as doutrinas políticas específicas da década de 1840 baseavam-se em questões levantadas pela Revolução: por vezes, as respostas propostas baseavam-se nas que tinham sido dadas pela primeira vez na década seguinte a 1789; outras vezes, surgiam de um desejo de ir além das soluções então ensaiadas. Em todo o caso, testemunham a enorme influência da Revolução na evolução do século XIX” [5].
Por outras palavras, a memória da Revolução Francesa, sentida por muitos protagonistas como mais próxima do que a proximidade estritamente cronológica de 1830, exprimiu-se numa pluralidade de aspetos que mostraram a sua influência, tanto direta como indireta. Assim, é de notar que a primavera revolucionária de 1848 não foi apenas uma primavera de factos, mas também de memórias revolucionárias, que se ligaram à grande agitação emocional da época. As memórias ligadas à memória da Revolução Francesa foram esteticamente exibidas (através da bandeira tricolor, das árvores da liberdade, dos barretes frígios e dos vários slogans e canções revolucionárias) e caracterizaram-se pela sua ampla transversalidade ideológica e geográfica. No fundo, esta memória era marcadamente plural, de tal forma que a própria monarquia de Orleães, através de figuras centrais como François Guizot e Adolphe Thiers, tinha anteriormente procurado estabelecer uma relação produtiva com ela (e também com a de Napoleão, cujas cinzas, a mando do próprio Thiers, foram devolvidas a França em 1840). O governo de Luís Filipe, filho de um conhecido protagonista e vítima da Revolução Francesa, a chamada Igualdade de Filipe, tinha mesmo aceite a tricolor como bandeira nacional de França (enquanto, em contrapartida, a Constituição da sua monarquia não passava de uma versão revista da Carta outorgada por Luís XVIII). Em 1848, a mesma bandeira foi objeto de contestação, com muitos revolucionários a reivindicarem uma bandeira vermelha que simbolizasse as lutas das décadas anteriores, mas que Lamartine rejeitou de forma célebre. Segundo Louis Ménard, no seu Prologue d'une révolution (1849), foi inicialmente prometido que a ordem das cores seria alterada como contrapartida, mas tal nunca se concretizou e, pouco depois, os barretes frígios (jacobinos) e a memória de 1793 [6] foram proscritos. Com isto se evidenciava que não só a Revolução Francesa era admirada, como também algumas das suas memórias e legados eram temidos. Por seu lado, a própria Marselhesa deu origem a várias disputas e, apesar de ter sido repetidamente cantada por muitos revolucionários em todo o continente, não foi aceite como hino oficial francês devido ao seu carácter sedicioso, tendo sido escolhido o agora esquecido “Le chant des girondins” [O canto dos girondinos].
Assim, a relação que se estabeleceu com esse passado não foi isenta de complexidade, tendo sido marcada tanto por continuidades como por descontinuidades, por admiração e não poucos receios, e também por não poucas divergências sobre qual deveria ser o seu legado para o presente. Por isso, não houve uma única memória da Revolução Francesa, mas várias, cada uma com as suas próprias narrativas e interpretações do passado, que podiam vir de perspetivas como a jacobina, a liberal ou a monárquica. Ou, de igual modo, de um cristianismo que nos anos anteriores a 1848 defendia interpretações de um Jesus proletário e até se misturava com a memória jacobina [7]. Poderiam também ser cultivados a partir de um ponto de vista feminista, representado por figuras de proa como Jeanne Deroin [8]. Um aspeto paradoxal é que, cada um à sua maneira e com os seus próprios limites, tanto a monarquia de Orleães como a Segunda República Francesa e, mais tarde, o Segundo Império de Napoleão III, partilharam a sua reivindicação da Revolução Francesa, neste último caso, tal como explicitado na Constituição de 1852, subordinada ao legado de Napoleão I. Por outras palavras, três regimes políticos muito diferentes que apelavam, cada um à sua maneira, à “mesma” memória de forma simbólica para se legitimarem (embora, como se diz, o diabo estivesse nos pormenores). Por outro lado, e passando do diacrónico ao sincrónico, a mesma memória da Revolução Francesa esteve muito presente no resto da Europa ao longo de 1848, ainda que de forma complexa e problemática, não raras vezes meramente estética, e podendo ser amalgamada com as tradições ou memórias próprias dos respetivos territórios. Sem ir mais longe, o famoso slogan “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” ressoou para além das fronteiras de França. Até o segundo princípio inscrito no início da Constituição de 1849 da efémera República Romana afirmava, num claro aceno a esta memória, que “o regime democrático tem por regra a igualdade, a liberdade e a fraternidade”. Para além disso, esta memória podia também gerar as suas variantes, e a associação dos trabalhadores de Colónia, por exemplo, para além de recorrer à bandeira vermelha, utilizava como lema a tríade “liberdade, fraternidade, trabalho ”. [9] Variações como “Liberdade, ordem, reforma”, “Liberdade, igualdade, fraternidade, unidade” ou “Liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade ”[10] também circularam entre os cartazes, proclamações ou folhetos parisienses.
Exemplos práticos muito interessantes, mencionados ao longo do livro, foram a instituição de Comités de Segurança Pública e de Guardas Nacionais (ou Civis) em diferentes partes da Europa. Além disso, em muitos locais, o que se verificou foi uma espécie de miscigenação. Como recorda Clark, na Croácia, as divisas e as bandeiras tricolores misturavam-se com bonés vermelhos e surkas azuis (casacos tradicionais).
Por fim, esta memória não era apenas recordada pelos seus actores ou apoiantes, mas também pelos seus detratores ou inimigos, que assim se alimentavam mutuamente. No contexto transnacional de 1848, isto podia ser utilizado para tentar repudiar as ideias revolucionárias fora de França, apresentando-as como francesas ou estrangeiras. Por exemplo, o então influente teólogo Ernst Wilhelm Hengstenberg denunciava, em abril de 1848, que “os radicais de Paris remodelaram a Alemanha. Em tudo, grande e pequeno, desde o ateísmo às eleições primárias, desde as barricadas ao tricolor, estamos a copiar exatamente o modelo francês”. [11] O próprio Friedrich Wilhelm IV, da Prússia, tinha fomentado o mito de que a revolução alemã de março de 1848 tinha sido um acontecimento promovido e liderado por estrangeiros, sobretudo franceses. Estas poucas questões, aqui apenas esboçadas ou anotadas com grande brevidade, servem para lembrar que a história também é feita de memória e que as duas se cruzam de múltiplas formas. Afinal, os acontecimentos de 1848 foram notáveis não só pela sua grande complexidade histórica, magistralmente explicada por Clark, mas também pela sua grande complexidade memorial.
Curiosamente, a própria questão da memória, ainda que numa perspetiva mais prospetiva do que retrospetiva, está, à sua maneira, muito presente no livro, uma vez que este não é apenas uma história de 1848, mas também uma espécie de reivindicação do que aconteceu nesse ano. Por um lado, Clark estabelece muitas analogias ou paralelos entre esse passado e o presente. Por outro, porque, seguindo a linha de outros autores, como Jonathan Sperber, o livro desafia a retórica do “suposto fracasso de 1848”. Em contraste com o carácter fugaz dos acontecimentos históricos revolucionários, Clark destaca a durabilidade de algumas das suas conquistas. Para começar, o triunfo da contrarrevolução não significou um regresso ao status quo pré-revolucionário. De facto, argumenta Clark, a ordem pós-revolucionária teria sido tão eficaz “no controlo do meio-termo político que conseguiu marginalizar tanto a esquerda democrática como a velha direita”. Como resultado, sublinha, mesmo os conservadores tiveram de se adaptar, em muitos casos, a um novo cenário constitucional ou parlamentar que trouxe muitas mudanças e tornou outras possíveis no futuro. Tudo isto resultou numa profunda transformação das práticas políticas e administrativas em todo o continente, conduzindo àquilo a que o livro chama uma “revolução governamental europeia”. Além disso, Clark destaca a importância da redação de muitas novas constituições durante esses anos. Algumas delas foram efémeras e infecundas, mas outras nem tanto, como o Statuto Albertino piemontês, que mais tarde serviria de base ao futuro Estado italiano. Por outro lado, outras menos conhecidos, como a Proclamação do Islaz da Valónia, de 1848, e a Constituição da República Romana, de 1849, destacaram-se se por serem as primeiras a abolir a pena de morte. Um caso notável foi o da Dinamarca, que, em 1849, tinha feito uma “revolução constitucional” que transformou a anterior monarquia absolutista numa das “culturas políticas mais democráticas do mundo” e cuja influência, através de reformas constitucionais intermédias, se mantém até aos dias de hoje. Ainda hoje, o dia 5 de junho é feriado na Dinamarca, comemorando o dia da Constituição de 1849.
Um pormenor interessante é que esta afirmação de Clark, que poderíamos qualificar como mais histórica que política, se baseia numa visão reformista. Parece concluir-se do livro que as revoluções mais bem sucedidas foram aquelas que conseguiram canalizar o impulso revolucionário para vias reformistas e constitucionais. Os melhores exemplos seriam certamente os citados na Dinamarca e mesmo nos Países Baixos, onde, na verdade, a reação do governo pareceu ser mais preventiva. Em contrapartida, as revoluções mais ousadas foram sufocadas e as novas repúblicas, como a francesa ou a romana, foram rapidamente derrubadas.
Seria, pois, interessante aprofundar a perspetiva de Clark, e também complementá-la com uma leitura mais da memória do que da história, o lugar em que o livro se move predominantemente. Para começar, é preciso não esquecer que a importância das revoluções de 1848 já tinha sido recordada e reivindicada por numerosos historiadores, como se viu durante a celebração do seu sesquicentenário. Maurice Agulhon tinha começado o seu livro sobre Les quarante-huitards (1975) salientando que “1848 parece-nos ser uma revolução esquecida, ou menosprezada, pela grande maioria dos nossos contemporâneos, e parece-nos que havia aí uma injustiça, uma ladeira a subir, ou uma reputação a reconstruir ” [12]. Esta tese foi repetida em várias ocasiões e deu origem a estudos como 1848, la révolution oubliée [1848, a revolução esquecida] (2009) de Michèle Riot-Sarcey e Maurizio Gribaudi, ou está presente noutros como Quand la republique était révolutionnaire. Citoyenneté et répresentation en 1848 [Quando a República foi revolucionária. Cidadania e representação em 1848] (2014) de Samuel Hayat, obra cuja cronologia se centra sintomaticamente nos acontecimentos até junho de 1848.
É, pois, de notar que, apesar dos repetidos esforços historiográficos, 1848 na esfera pública continua a caraterizar-se por uma certa “desherança” à escala internacional (enquanto a sua memória permanece bastante viva à escala nacional em países como a Dinamarca ou a Hungria, cujo dia nacional, celebrado a 15 de março, remete para a eclosão da revolução de 1848 em Budapeste).
Paradoxalmente, poder-se-ia dizer que a Revolução Francesa foi uma história preponderantemente nacional que conseguiu gerar uma grande memória de alcance internacional, enquanto as revoluções transnacionais de meio século depois não conseguiram ir além das memórias nacionais, no plural, cada uma com as suas próprias narrativas, trajetos e conflitos, à sua maneira ligados, por exemplo, ao Sonderweg alemão ou ao Risorgimento italiano [13] . Uma derivação curiosa foi o facto de, em italiano, a expressão “fare un quarantotto” se ter tornado sinónimo de causar grande desordem ou confusão.
Além disso, devido ao galicocentrismo da memória revolucionária ao longo do século XIX, a experiência de 1848 foi desde cedo associada à desilusão sofrida em França. Daí que esse ano não possua nenhum símbolo equivalente ao da Bastilha, da Marselhesa, da Tricolor ou da famosa tríade revolucionária “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. De facto, a maior parte dos que utilizou foram direta ou indiretamente emprestados e não conseguiu criar nenhum com um impacto semelhante à escala internacional. Isto explica porque é que, embora a memória de 1848 tenha tido os seus adeptos, a da primeira Revolução Francesa continuou a ser a mais importante em França e foi a principal durante a Comuna de Paris de 1871 e a Terceira República Francesa. Como é sabido, os principais símbolos nacionais franceses estão ainda hoje ligados aos acontecimentos de 1789. Por vezes, o passado distante pode ser o mais próximo em termos emocionais.
No que diz respeito à tese do fracasso, convém também ter em conta que as opiniões negativas sobre as revoluções de 1848, que em muitos casos convinha englobar sob o rótulo da desilusão, provêm de personalidades que, com o tempo, se afirmaram como figuras de proa da história política e, em particular, da história revolucionária. Foi o caso de Karl Marx, Friedrich Engels, Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin e até Louis Auguste Blanqui. Um problema decisivo foi o facto de 1848 ter aberto horizontes de rutura tão grandes e esperançosos que o seu desfecho posterior, com episódios tão decisivos e significativos para a memória revolucionária como as Jornadas de junho, conduziu a uma terrível desilusão, que chegou a tomar a forma de um descontentamento com a própria crença na revolução, até que a eclosão da Comuna de Paris, em 1871, levou ao seu posterior renascimento. Apesar de se tratar de um acontecimento muito mais local e de ter sido rapidamente esmagado e, portanto, em muitos aspetos um fracasso, a experiência comunard tornou-se um símbolo de referência e de esperança à escala internacional que contrastou fortemente com os processos de 1848.
Por isso mesmo, enquanto o primeiro veio a ser amplamente reivindicado por referências revolucionárias como Marx, Engels ou Bakunin, o segundo foi, pelo contrário, reduzido ao estatuto de farsa, ou traição segundo o anarquista russo, com o qual foi exageradamente associado devido às famosas linhas iniciais da obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. A posteridade de 1848, pelo menos em termos de memória, foi muito menos fecunda do que a de 1789 ou 1871. É por isso que a revolução de 1848, especialmente analisada do ponto de vista francês, foi apresentada de várias formas como uma grande lição para os revolucionários; devia servir para compreender que a revolução não podia ser apenas política, mas devia também ousar ser social; devia ousar ser ambiciosa e audaciosa e escapar à imagem de impotência; devia compreender que a burguesia já não fazia parte dos movimentos revolucionários e que, como mostraram as Jornadas de junho, podia reprimir a classe operária em função dos seus próprios interesses; e, finalmente, não devia cair em ficções políticas como a fraternidade, pomposamente celebrada como feriado em França a 20 de abril de 1848 e que reuniu três dias antes das eleições quase um milhão de pessoas, mas, para o dizer com Marx, devia compreender a luta revolucionária a partir de outros quadros, sobretudo a partir da luta de classes.
Tudo isto não impediu que alguns revolucionários de 1848 fossem reivindicados, como no caso de Marx, como os sublevados das Jornadas de Junho, mas a sua memória foi ofuscada pelos seus vencedores. De facto, o próprio pensador alemão interpretou em parte as outras revoluções contemporâneas do ponto de vista da francesa e, por exemplo, definiu a revolução de Berlim como uma “paródia de 1789” [14].
Sem dúvida que a leitura de Clark serve para problematizar com profundidade e brilhantismo toda esta visão do ponto de vista da história, embora o estudo destas questões ajude também a compreender o (reduzido) papel que, salvo algumas exceções como as que foram discutidas, as revoluções de 1848 têm na memória contemporânea. Assim, esta obra pode também servir para aprofundar o eterno debate entre história e memória, particularmente interessante nestes episódios convulsivos do passado. No fim de contas, o seu livro é um magnífico exemplo de como fazer uma boa história, bem como uma referência incontornável para compreender a complexidade desta vaga revolucionária numa perspetiva transnacional.
Notas
1. Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2024.
2. C. Clark: ob. Cit.
3. A. Esquiros: Histoire des montagnards 2, Victor Lecou, París, 1847, p. 475.
4. La Découverte, París, 2016.
5. J. Sperber: The European Revolutions, 1848-1851, Cambridge UP, Cambridge, 2005, p. 65.
6. L. Ménard: Prologue d’une révolution, Bureau du Peuple, París, 1849, pp. 59-60
7. V. Franck Paul Bowman: Le Christ des barricades, 1789-1848, Les Editions du Cerf, París, 1987.
8. Sara Sánchez: Jeanne Deroin: una voz para las oprimidas. Vida, revolución y exilio, Comares,
Granada, 2023.
9. Jonathan Sperberg: Rhineland Radicals: The Democratic Movement and the Revolution of 1848-1849, Princeton UP, Princeton, 1993, p. 290.
10. Charles Boutin: Les murailles révolutionnaires de 1848 1, Picard, París, 1868, pp. 19, 38 y 237.
11. Cit. en Rüdiger Hachtmann: 1848: Revolution in Berlin, Edition Q, Berlín, 2022.
12. M. Agulhon: Les quarante-huitards, Gallimard, París, 1975, p. 10.
13. Ver Axel Körner (ed.): 1848: A European Revolution? International Ideas and National Memories of 1848, Palgrave Macmillan, Houndmills, 2000.
14. K. Marx: «El proyecto de ley sobre la abolición de las cargas feudales» en K. Marx y F. Engels: Las revoluciones de 1848, FCE, Ciudad de México, 2006, pp. 201-202
Edgar Straehle é professor na Universidade de Barcelona e autor de vários livros entre os quais Claude Lefort. La inquietud de la política (Gedisa, Barcelona, 2017) e Memoria de la revolución (Documenta Universitaria, Girona, 2020).
Publicado originalmente na NUSO.