Está aqui

110 anos depois, o jornal “O Negro” em versão online gratuita

A 9 de março de 1911 era lançado em Lisboa o jornal “O Negro: Órgão dos Estudantes Negros”. Os três números desta publicação foram reeditados em papel e estão disponíveis uma versão online gratuita.
O Negro, 1911, n.º1, Imagem da página de Facebook Jornal O Negro: 110 anos.

A iniciativa surgiu de Cristina Roldão, José Duarte, Pedro Varela e do projeto Falas Afrikanas e tem um objetivo claro: “Reeditar O Negro 110 anos depois não se resume à comemoração de uma efeméride, mas é o exercício do direito à memória, que é, acima de tudo, um instrumento de combate antirracista na atualidade”.

“Num momento como o atual, em que a sociedade portuguesa e outras entram numa intensa disputa sobre os legados coloniais e racismo, e em que os jovens negros são protagonistas de importantes movimentos sociais, a reedição d’O Jornal ‘O Negro: Órgão dos Estudantes Africanos’, dificilmente poderia ser mais oportuna. Trazer para o presente este jornal e revelar a importância do movimento de que ele fez parte é ferramenta imprescindível para questionar o silenciamento constante a que a história dos afrodescendentes e africanos é votada na sociedade portuguesa”, lê-se na página de Facebook Jornal O Negro: 110 anos.

A iniciativa visa também “homenagear e dar continuidade ao trabalho de Mário Pinto de Andrade, que deixou pistas preciosas para que as gerações seguintes pudessem conhecer a sua presença multissecular em solo português e a resistência histórica de que são herdeiros”.

O Negro, 1911, n.º1, p.1.:

“A nossa escravidão é secular e em virtude dela temos sofrido todos os vexames e tiranias; e em virtude dela temos sido o alvo onde a inveja, o crime e o insulto têm crivado impunemente as suas setas venenosas. Como o resignado mártir do calvário, que rezou pelos seus verdugos e perdoou os seus carrascos, os nossos avôs e os nossos pais têm bendito e pago aos seus magistrados, aos seus exploradores, aos seus parasitas e tiranos. Têm pago governos, justiça, rendas, contribuições e soldados. Têm pago por tudo: para comprar e vender, para beber e comer, para respirar ar e gozar a luz do sol, e até, para nascer e morrer. Cremos ter chegada para todos nós - velhos ou crianças, adultos ou novos - o momento exacto para refletirmos: não queremos continuar a ser enganados, porque estamos fartos de pagar, estamos fartos de tutores, de salvadores e senhores; e tudo o que aspiramos é aprender a orientar as nossas ideias, e a libertar-nos de todas as formas de tirania e exploração com que nos têm escravizado, esmagando em nós todas as energias de inteligência e todas as manifestações de vida social."

O jornal O Negro é apresentado como “o primeiro periódico de uma geração de ativistas que, durante 22 anos [de 1911 a 1933], se organizou em torno do pan-africanismo, da luta contra o racismo e da reivindicação de direitos para os territórios colonizados”. A publicação era dirigida por estudantes universitários negros em Portugal, e pretendia combater as “iniquidades, opressões e tiranias”. Apelava à construção de um partido africano e exigia da República o fim da desigualdade racial. Em causa estava também a reivindicação de “uma África que fosse ‘propriedade social dos africanos’ e não retalhada pelas nações e pessoas que a conquistaram, roubaram e escravizaram”.

Por ocasião da reedição do jornal O Negro, a página "O Lado Negro da Força" vai realizar um direto especial esta terça feira, a partir das 21h. Nele participam José Pereira, Pedro Varela e Cristina Roldão.

Podem aceder ao jornal:
- na versão gratuita online: https://archive.org/details/jornal-o-negro-110anos
- na versão em papel (por encomenda): Letra Livre https://www.letralivre.com/catalogo/detalhes_produto.php... + Bazofo & Dentu Zona
https://www.facebook.com/bazofo
+ Tchatuvelah
https://www.facebook.com/Tchatuvelah

Termos relacionados Esquerda com Memória, Sociedade
(...)