Índia: a rebelião das pedras

17 de setembro 2010 - 11:44

Manifestantes pacíficos assassinados pela polícia na Caxemira já ultrapassam os 70. Em causa está a luta de uma população oprimida contra o estado indiano. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net

PARTILHAR
Protesto na Caxemira. Foto de kashmiridibber, FlickR

p { margin-bottom: 0.21cm; }

p { margin-bottom: 0.21cm; }

Desde que o governo da Índia iniciou a actual onda do que podemos, indiscutivelmente, chamar de assassinatos conscientes, as mortes de manifestantes já chegaram à casa das setenta na Caxemira. A actual fase de um conflito que é antigo começou em Junho deste ano, quando a policia paramilitar do primeiro ministro Manmohan Singh matou um jovem estudante de 17 anos. Para repudiar essa morte, a população local organizou uma manifestação que foi reprimida à bala e causou mais mortes. Desde então, a situação tornou-se uma bola de neve, onde os assassinatos da polícia do estado indiano provocaram novas manifestações e as manifestações novos assassinatos pela polícia

Por que são assassinatos conscientes?

A resposta não é tão complicada. Um governo pode alegar que um dos seus soldados, numa situação de tensão critica, possa perder o controlo e disparar sobre a população. Isso realmente pode acontecer, mas, nem por isso e justificável. Matar pessoas indefesas ou manifestantes era e continua a ser um crime, um assassinato.

Nas sucessivas manifestações onde a policia de Singh participou, os soldados foram expressamente orientados a atirar caso as manifestações se tornassem tensas. Uma decisão tomada na cúpula governamental e passada para baixo nos diversos níveis hierárquicos das instituições do estado, como a policia paramilitar, que é responsável pela maioria desses assassinatos conscientes. Diversas vezes, em diversas localidades, a policia ameaçou a população, através de altifalantes, comunicando que iria disparar caso fosse necessário. Bem, isso é uma demonstração clara que a actuação da polícia é uma acção consciente para manter a opressão sobre a população da Caxemira.

Um conflito antigo

O actual conflito na Caxemira é um conflito antigo e já levou a quatro guerras. Voltando ao relógio do tempo, não só o conflito da Caxemira como inúmeros conflitos que ocorrem na Ásia e noutras partes do mundo têm origem numa histórica opressão de minorias étnicas. São faladas cerca de 10 mil línguas no planeta. Essas línguas representam a complexa formação social do que chamamos sociedade humana. Não seria uma aberração histórica se houvesse hoje uma federação social com cerca de 10 mil nações. Mas a história concretamente não seguiu essa evolução e a actual estrutura mundial foi moldada com o custo de duas sangrentas guerras mundiais. Após a Segunda Guerra Mundial, vivemos numa sociedade dividida em mais de 190 estados nacionais. Uma parte desses estados desenvolveu-se com minorias étnicas tendo uma convivência possível e mesmo incorporando-se numa massa gelatinosa a que podemos chamar de nação, composta por uma população de varias etnias, sem grandes problemas.

Mas uma parte dos actuais estados nacionais foi formada no pós-guerra incorporando, pela opressão, as minorias nacionais. Em particular na Ásia, onde se estendeu o império colonial britânico, a luta anti-colonial levou à formação de novos estados que, no calor dos acontecimentos, acabou incorporando varias etnias, como é o caso da Índia. A libertação colonial que, à primeira vista, traria um futuro melhor, transformou-se na opressão de várias etnias ao longo das décadas posteriores. Em vários estados da Ásia e noutras partes do mundo essas etnias oprimidas rebelam-se e travam uma luta pelo seu direito de livre auto-determinação. O estado, como dizia o velho Marx, é “um órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe por outra, e a criação da “ordem”que legaliza e consolida esta opressão, moderando os conflitos de classes.” O novo estado indiano, que surgiu da luta anti-colonial, foi formado dessa maneira, baseado também na opressão de uma complexa gama de etnias e castas. A actual luta no vale da Caxemira é a luta da população contra a opressão do estado indiano. A Índia, que possui a segunda maior população do planeta e um estado nacional, dada a complexidade de sua estrutura social, que poderia ser desmembrada em diversos estados nacionais, de acordo com os anseios democráticos das diversas minorias componentes. Só para mostrar uma única diferença, basta lembrar que a maioria da população da Caxemira é composta por muçulmanos, mas isso é apenas a expressão religiosa de um problema social. Em 1815, a área que hoje é chamada de Caxemira & Jammu era composta por 22 pequenos estados independentes.

Desde 1947, pouco após a formação do estado do Paquistão e da Índia, a Caxemira foi palco da primeira guerra entre os dois novos estados pela disputa da região. O último conflito entre os dois países foi em 1999, com a Guerra de Kargil.

A rebelião das pedras

Quando vemos o problema da Caxemira sob retrospectiva, fica claro que o actual conflito, onde as tropas do primeiro ministro Manmohan Singh, disparam, conscientemente, sobre a população desarmada, é a luta de uma população oprimida contra o estado indiano. Para manter a opressão e o controlo do estado, Singh desenvolve uma impiedosa politica de reprimir as manifestações democráticas, assassinando conscientemente os manifestantes. A população da Caxemira, que vive uma longa historia de opressão, tem-se defendido com a única arma que tem à disposição, a rebelião das pedras.