Índia: 27 polícias mortos

03 de julho 2010 - 12:15

Confronto armado é mais um episódio de uma guerra civil pouco conhecida e negada pelo governo. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net

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Guerrilha comunista indiana voltou a atacar paramilitares em Chhatisgarh. Foto Par Fifty/Flickr

A guerra civil na Índia provocou profundos golpes nos dois lados beligerantes esta semana. Na terça-feira, o Exército Guerrilheiro de Libertação do Povo, braço armado do Partido Comunista da Índia, maoísta, matou 27 membros da CRPF (Central Reserve Police Force) na cidade de Bastar, no estado de Chhattisgarh. No momento em que se realizava uma festa de inauguração de uma nova estrada, no distrito de Narayanpur, os maoístas abriram fogo do alto de uma montanha, deixando 27 paramilitares mortos e outros feridos.

Em Maio, no mesmo distrito, os guerrilheiros já tinham liquidado oito polícias,  explodindo o carro em que viajavam. Noutro episódio, no mesmo mês, os maoístas cortaram a garganta de seis pessoas, uma delas chefe de uma aldeia no distrito de Rajnandgaon, Chhatisgarh. Essas pessoas eram delatores da guerrilha para as forças policiais.

Três meses atrás, os maoístas desferiram um pesado golpe, matando 76 membros da CRPF, numa emboscada em Dantewada, também no estado de Chhatisgarh.  No último dia 16, a policia matou oito guerrilheiros, entre os quais três mulheres, num confronto que durou 6 horas, na selva de Ranjya, a 150km de Kolkata (antiga Calcutá), no estado de West Bengal.

O CRPF é uma organização paramilitar sob o controle do ministério do Interior, cujo objectivo é proteger os estados da insurgência revolucionaria. Os combates entre as tropas do CRPF e os guerrilheiros são frequentes nas áreas em que o Exército Guerrilheiro de Libertação do Povo tem forte presença, como os estados de Jharkhand, Andrha Pradesh, Bihar, Chhatisgarh, West Bengal, Maharastra e Orissa. Os comunistas dirigem o estado de West Bengal através da Frente de Esquerda (frente popular local) há 30 anos.

O exército da Índia, preocupado com a crescente presença da guerrilha, iniciou um treinamento envolvendo 50 mil soldados, de 5 divisões do exercito, desenvolvendo um novo enfoque, tentando isolar a população da guerrilha. Apesar dessa conflituosa realidade, o governo da Índia nega que exista uma guerra civil no país. O primeiro-ministro, o velho politico Manmohan Singh, ligado à dinastia politica dos Gandhi,  há muito tempo usa óculos, mas parece estar a precisar de uma visita urgente ao seu oculista.

 

Policia mata Azad, o número 2 da hierarquia maoísta

Na quinta-feira, a polícia matou a tiros Cherukuri Rajkumar, o camarada Azad, do comité central do Partido Comunista da Índia, maoísta, considerado o número 2 da hierarquia partidária. Azad possuía fortes laços políticos com o secretário-geral, Muppala Lakshmana Rao, o camarada Ganapathi. A emboscada foi realizada quando  Azad participava de uma reunião, provavelmente, para discutir as eleições em Telengana. Telengana foi palco da Rebeliao de Telengana, protagonizada pelos camponeses entre 1946 e 1951, sob liderança do Partido Comunista da Índia.

A polícia cercou o local da reunião, da qual participavam 25 militantes, e houve trocas de tiros. Foram mortos dois maoístas, um deles Azad, mas a polícia não tinha conhecimento de que ele estava presente na reunião. Azad, formado em engenharia, iniciou suas actividades enquanto estudante e estava há 30 anos na clandestinidade. Era procurado pela polícia e tinha uma recompensa pela sua cabeça.

Somente no sábado, a polícia permitiu a mãe e a um irmão ver o corpo de Azad num hospital do governo. Mas o cantor revolucionário Gaddar, e o escritor Varavara Rao, junto com outros activistas de grupos que lutam pelas liberdades civis, foram impedidos de entrar. O escritor Varavara Rao desmentiu as notícias publicadas na imprensa e afirmou: “Azad esteve em Nagpur ontem (quinta-feira) às 11h30 para encontrar-se com um quadro local. A polícia prendeu-os lá e trouxeram-nos para o distrito de Adilabad forjando um falso encontro após torturá-los e matá-los.”

Um porta-voz do CRPF afirmou temer represálias por parte da guerrilha maoísta e que possam ocorrer ataques iguais ao que vitimou 76 membros meses atrás.

O Partido Comunista da Índia (maoísta) foi fundado em 21 de Setembro de 1994, com a fusão do Partido Comunista da Índia ( Marxista-Leninista) Guerra Popular e o Centro Comunista Maoísta da Índia O governo hindu baniu o partido em Junho de 2009, acusando-o de ser uma organização terrorista. Estima-se que o partido tenha presença em 20 dos 28 estados do país e possua de 10 a 20 mil militantes armadas, principalmente no chamado “corredor vermelho”,  que se estende de norte a sul nos estados próximos ao golfo de Bengala.

Os maoístas são conhecidos como os “Naxalites” na Índia Essa alcunha é derivada da revolta camponesa de Naxalbari, West Bengal, em Maio de 1967. Durante algumas semanas, os camponeses dirigiram o levante na cidade contra os grandes proprietários de terra, mas foram massacrados. Seguiu-se à derrota uma forte repressão, mas mesmo assim os maoístas conseguiram reestruturar-se. E transformaram-se numa força guerrilheira consistente que conduz uma guerra civil prolongada contra o governo.

A Índia também foi cenário de uma revolta popular na Caxemira durante estes dias, após a polícia ter matado 13 jovens nas últimas semanas.