A criminalização da Greve Geral

História de uma tese e de uma operação que não vingou.

30 de novembro 2011 - 18:42
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A Greve Geral de quinta-feira passada foi um momento ímpar de mobilização popular e de solidariedade dos trabalhadores contra o mais duro e injusto Orçamento de Estado da história da Democracia. A manifestação, que pela primeira vez se realizou em Portugal e a que milhares de pessoas aderiram, deu visibilidade ao conflito social e ao descontentamento.

O apoio popular à Greve Geral, mesmo daqueles e daquelas que não a puderam fazer, foi inequívoco, principalmente porque o Governo já não consegue sustentar que este caminho é inevitável. As pessoas já sabem que este caminho levará ao aumento da pobreza, das desigualdades e da exploração e que não sairemos da crise por esta via.

Os argumentos do Governo escasseavam e, por isso, PSD e CDS arregaçaram as mangas e elaboraram um plano de 3 passos para atacar a Greve: 1) desvalorizar; 2) descredibilizar; e 3) criminalizar.

Nos dias anteriores à Greve Geral e nas primeiras horas da noite de quinta-feira, o Governo manteve a sua propaganda de que a Greve era apenas “um direito” tal como o trabalho e o comparecer ao trabalho também o era. A ideia era naturalizar a ideia de Greve Geral como um pormenor a que nem prestariam muita atenção e que serviria principalmente para que as pessoas exteriorizassem o natural sentimento de desagrado que as medidas de austeridade causavam. A desvalorização da Greve não resultou, porque muitas pessoas se juntaram aos activistas sindicais e sociais e ajudaram a fazer crescer o conflito.

Já na manhã de quinta-feira, o Governo começou a lançar dados sobre a adesão à Greve. Primeiro arriscou os 3,6% e, mais tarde, foi obrigado a dizer 10%. Mas todas as pessoas perceberam que a adesão à Greve Geral foi massificada. Aliás, às 7h da manhã os jornalistas da rádio confessavam-se surpreendidos com a fluidez do trânsito nas vias de acesso a Lisboa. Esse facto foi a prova de que milhares de pessoas não foram trabalhar, visto que os transportes públicos, como os comboios, autocarros e barcos, estavam em Greve e o carro seria o único meio de chegar ao trabalho.

Mas cheguemos à parte do plano do Governo para o dia da Greve Geral que foi elaborado com maior minúcia e empenho e que foi executado pelo Ministro da Administração Interna: a criminalização. Durante toda a noite da Greve, centenas de polícias do corpo de intervenção, altamente equipados, foram mobilizados para fazer cumprir os ilegais serviços mínimos em locais estratégicos como a Carris, os CTT ou os serviços de recolha do lixo. Uma a uma, retiraram as pessoas que estavam nos piquetes de Greve. Fizeram-no, quase sempre, de um modo “cordial”, mas o aparato que convocaram servia bem de aviso a todos.

Repetiram-se ações semelhantes das forças policiais por todo o país para que não houvesse a mínima dúvida de que o Governo queria impor o medo sobre quem aderia à Greve Geral.

No entanto, faltava a Miguel Macedo um ato que permitisse ao Governo justificar a sua acção durante toda a madrugada de quinta-feira. Mas o ministro tinha algo na manga.

No final da tarde milhares de pessoas que se haviam juntado à manifestação que oferecia visibilidade à Greve Geral estavam em São Bento, frente ao Parlamento, para protestar, de novo, com mais força e pacificamente, contra as medidas de Passos Coelho e Paulo Portas tiveram oportunidade de verificar que a polícia tinha montado uma operação para provocar os manifestantes, criar tumultos e encenar uma peça que lhes permitisse abafar a importância da Greve Geral e criminalizar todas e todos a que a ela tinham aderido.

Saiu-lhes o tiro pela culatra, pois ficaram gravadas com particular nitidez as operações policiais de agentes infiltrados à paisana que incitaram ao confronto, agrediram pessoas e realizaram detenções ilegais.

A deputada do Bloco de Esquerda Ana Drago viu como 4 agentes à paisana agrediram violentamente um rapaz e o manto de mentiras só ficou levantado quando chegaram polícias fardados que, ao invés de prenderem os agressores do rapaz, os protegeram. Felizmente, alguém filmou toda esta intervenção para que hoje todos saibam o que aconteceu nesse dia.

Mas falo também na primeira pessoa: conheço bem o primeiro dos “perigosos agitadores” detidos naquele dia. Ele contou-me e mais tarde pude confirmá-lo num vídeo que estava frente à escadaria do Parlamento e três agentes à civil saíram das linhas da polícia de choque e escolheram-no de um modo aparentemente aleatório para ser detido. Passaram nas suas costas e empurram-no para a linha policial. Por causa dessa acção houve uma pequena agitação entre os manifestantes e a polícia, porque ninguém compreendia aquela detenção. Mas o motivo hoje é mais claro: era uma operação policial para inflamar os ânimos de quem protestava e justificar a desproporção dos meios e para criminalizar a Greve.

Momentos depois, o porta-voz da PSP dizia não confundir a manifestação legítima dos sindicatos com o que se passou depois. De facto, não havia nenhuma confusão possível, visto que os desacatos foram planeados e executados pela polícia e não pelos manifestantes, sindicalizados ou não.

No day-after Miguel Macedo reunia com os chefes da polícia para agradecer a sua dedicação. Mas já não havia nada a fazer. A operação policial do Governo tinha falhado porque tinha sido revelada.

Assim, a Greve Geral e a mobilização popular venceram uma primeira batalha contra a “inevitabilidade” e o mesmo Governo “inflexível” que dizia não existirem “almofadas”, foi hoje obrigado a alterar parte do seu Orçamento de Estado à pressa, dando mais umas migalhas para tentar abafar o conflito social.

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