Falar com o Hamas

27 de fevereiro 2010 - 10:52
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Courage to RefuseComo soldados israelitas, baixamos as cabeças com vergonha pelo ataque sobre a população civil de Gaza. Diálogo, não guerra, é preciso. Por Arik Diamant e David Zonsheine, do Courage to Refuse

 

Os média israelitas assinalam o primeiro aniversário da Operação Chumbo Fundido, a guerra de Gaza, quase como uma celebração. Em Israel, a operação é reconhecida quase unanimemente como um triunfo militar, uma batalha vitoriosa contra um dos mais mortíferos inimigos de Israel: o Hamas.

Como soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) temos sérias dúvidas sobre esta conclusão principalmente porque quase não houve nenhum combate directo contra o Hamas durante a operação. Assim que esta começou, o Hamas escondeu-se.

A maioria das baixas palestinianas foram causadas através de ataques aéreos, fogo de artilharia e de atiradores à distância. Batalha vitoriosa? Parece mais disparar contra peixes num barril. A Operação Chumbo Fundido consistiu essencialmente em bombardear um dos locais mais povoados do planeta, atingindo alvos civis como casas, escolas e mesquitas, deixando um rasto de 1.300 mortes, sendo a maioria civis, dos quais mais de 300 eram crianças. Como soldados das reservas das FDI, baixamos as cabeças com vergonha deste ataque odioso sobre uma população civil.

Em relação aos objectivos da Operação, podemos dizer que são bastante questionáveis. Alegadamente, a Operação Chumbo Fundido destinava-se a impedir os mísseis do Hamas. Todavia, o problema dos mísseis Qassam tinha sido resolvido antes de a operação começar. O cessar-fogo foi acordado entre o Hamas e Israel em 19 de Junho de 2008 e tinha resultado numa redução drástica do disparo de mísseis a partir de Gaza, de algumas centenas por mês para cerca de um dúzia num período de cinco meses. Foi Israel, que nunca cumpriu a sua parte do acordo - acabar com o cerco a Gaza - quem quebrou o cessar-fogo em Novembro de 2008 ao atacar alvos na Faixa, ignorando a proposta do Hamas para renovar o acordo e, finalmente, a Operação Chumbo Fundido começou semanas mais tarde.

O verdadeiro objectivo desta operação é diferente daquele anunciado pelos oficiais israelitas. A verdadeira meta era, não parar os Qassam, mas sim derrubar o governo do Hamas. Como tal, a operação falhou. O Hama está mais forte do que nunca em Gaza.

Um ano depois desta guerra brutal, é preciso uma mudança de estratégia. Israel deveria inicia conversações imediatas com o Hamas, negociando não apenas um cessar-fogo, mas também "assuntos nucleares" que fariam parte do acordo para pôr fim ao conflito. Um diálogo aberto com o Hamas é claramente do interesse de Israel.

Primeiro, o Hamas foi eleito democraticamente em Gaza e ganhou a confiança e o respeito de uma parte significativa do povo palestiniano, todos os que esperam resolver este conflito terão eventualmente que negociar com o grupo.

Segundo, o Hamas provou ser capaz de manter a paz e a estabilidade para os cidadãos do Sul de Israel. Como já tinha demonstrado antes, o Hamas detém uma influência fortíssima nas organizações que actuam em Gaza e pode pressionar para um trégua.

Terceiro, a troca de prisioneiros é a nossa única hipótese de trazer o soldado das FDI que foi raptado, Gilad Shalit. Em troca, Israel libertaria centenas de prisioneiros do Hamas, dos 8.000 prisioneiros palestinianos que estão nas prisões israelitas. Um acordo desta natureza poderá ter uma influência apaziguadora sob a opinião pública, tanto em Israel como na Palestina, e poderá ser um passo importante em direcção à reconciliação dos dois povos.

O Hamas é actualmente um inimigo de Israel, mas a paz é feita com inimigos e não com amigos. O Hamas é também um movimento poderoso, pragmático e bem organizado, um possível parceiro com quem Israel pode elaborar um acordo. A relutância em reconhecer o Hamas como o partido em funções em Gaza é uma estratégia que falhou e precisa ser substituída. Uma nação que está verdadeiramente à procura da paz não pode dar-se ao luxo de ignorar os seus parceiros.

 

  • Arik Diamant e David Zonsheine são os fundadores de Courage to Refuse (Coragem para Recusar), um movimento de soldados israelitas na reserva que se recusam a servir nos territórios ocupados. Em Novembro de 2009, lançaram um iniciativa para que Israel abra o diálogo com o Hamas.

http://www.informationclearinghouse.info/article24713.htm

17 de Fevereiro de 2010, publicado no The Guardian