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Um ensino que já estava doente

Como estudantes, estamos disponíveis para debater o modelo pedagógico do ensino superior e colaborar com quem o organiza. A questão é se as instituições vão querer trabalhar connosco... Texto de Rodrigo Silva
O que mais nos escandaliza é a quantidade de vezes que nos repetem “apenas depende de ti” - Cartaz "Somos estudantes não somos clientes"
O que mais nos escandaliza é a quantidade de vezes que nos repetem “apenas depende de ti” - Cartaz "Somos estudantes não somos clientes"

Há umas semanas, os estudantes de Lisboa começaram a perguntar-se como conseguiriam acabar a licenciatura neste semestre. A sua faculdade respondeu-lhes, com a tranquilidade de quem não faz mais do que cobrar propinas: “Apenas depende de ti”. Os estudantes souberam contestar esta resposta mas o que é certo é que esta explicação institucional revela problemas que não são pandémicos. São sistémicos.

A crise de saúde que vivemos é algo que ninguém poderia ter previsto. Como tal, era algo para o qual ninguém estava realmente preparado. Não seria justo exigir respostas imediatas num país mergulhado em incerteza. No entanto, as respostas que foram sendo dadas revelam o que já sabíamos antes: as nossas instituições de ensino não atendem às necessidades reais dos estudantes, nem parecem querer fazê-lo.

As fragilidades, no entanto, são as mesmas de sempre mas agora aparecem acentuadas por uma situação de precariedade muito mais generalizada. As desigualdades sociais tornaram-se gritantes quando se encerraram faculdades e bibliotecas: quem não sabe trabalhar com um computador, ou não tem um, quem não tem boa internet, ou não a tem de todo, pode cancelar a matrícula e esperar um ano pois a educação deixou de ser para elas. A propina revela o que, na verdade, sempre foi: uma ferramenta de discriminação de classe que contribui para a elitização do Ensino Superior. Quem já vivia na precariedade ou quem viu as suas condições se deteriorarem nesta situação, quem tem que pagar renda e contas quando acabar o estado de emergência, mas especialmente tantas e tantos jovens que vivem de salário em salário e viram-se agora sem emprego e sem condições para continuar a estudar.

O que mais nos escandaliza é a quantidade de vezes que nos repetem “apenas depende de ti”. Mesmo em normalidade isto não dependia apenas de nós. Numa noite como as outras, em que nos preparávamos para mais uma semana de trabalho, chega sem aviso a informação que de que a nossa vida seria interrompida indeterminadamente. Isto foi uma quebra brutal no ritmo e rendimento de toda a gente. Trabalhar para um futuro incerto torna-se mais difícil quando ao stress típico do ensino superior se junta a ansiedade de viver o maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial. A maioria de nós conhece gente infectada e vive com medo da iminente crise.

Esta crise serve para mostrar a relevância de temas como a saúde mental e a importância do bem-estar psicológico, como as instituições de ensino adoptam posturas de desinteresse crónico perante estes temas. Afogam-nos em trabalhos sem consideração pelo facto de estamos fechados em casa, com a nossa família, todo o dia. No entanto, é a forma que lhes parece mais fácil para resolver os problemas que agora surgem em relação às avaliações. Pior ainda, desvalorizam a nossa formação e o trabalho dos próprios professores: aulas práticas podem ser dadas por vídeo? O YouTube consegue dar-me tantas habilitações como a experiência real das minhas aulas? PDFs de excertos do manual substituem aulas que não são dadas? Se basta a leitura de livros recomendados porque vou a aulas numa faculdade a uma hora de distância de casa, tendo uma biblioteca a cinco minutos a pé? É para isto que pago propinas?

Estas situações contribuem para um aumento do fosso emocional entre estudantes e docentes. Sentimos mais do que nunca que não temos poder real sobre uma parte tão grande da nossa vida. É um momento em que estudantes se devem unir e enaltecer o espírito de entreajuda. Estamos no mesmo barco de incertezas e temos uma pressão brutal em cima. Só em unidade conseguiremos fazer a diferença e exigir um ensino mais democrático, que cuide de quem não se pode dar ao luxo de o pagar.

Esta não é uma altura para o “salve-se quem puder” e para divisões entre “nós” e “eles”. Vivemos uma crise ímpar que agitou a nossa sociedade até às fundações e, por isso mesmo, é o melhor momento para corrigir décadas de erros no nosso Ensino. É a altura ideal para rever tudo o que já antes da quarentena sabíamos que não funcionava, e, com os e as estudantes, criar e desenvolver novos métodos, baseados em trabalho, cooperação e solidariedade, que sirvam, não só para ultrapassar esta crise da melhor forma, mas para ter a certeza de que a educação depois da quarentena será melhor do que era antes dela. Como estudantes, estamos disponíveis para debater o modelo pedagógico do ensino superior e colaborar com quem o organiza. A questão é se as instituições vão querer trabalhar connosco e curar de vez um ensino que já estava doente antes da pandemia. Apenas depende delas.

Texto de Rodrigo Silva

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