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A transformação de Bob Dylan

Este artigo assinala a transformação do cantor e músico Bob Dylan nos EUA, que passou de voz crítica do establishment norte americano e do seu chauvinismo a um dos seus porta-vozes.
Bob Dylan e Joan Baez. Foto Wikipedia.

Ao longo da minha vida tenho visto em múltiplas ocasiões a evolução de muitas personagens que, sendo na sua juventude criticas com as estruturas de poder nos países em que vivem, acomodam-se mais tarde a estas estruturas, convertendo-se nos seus porta-vozes. Na realidade, esta evolução é muito comum. É tão comum que um ditado que se repete com grande frequência (sobretudo por vozes conservadoras) é que “quem não foi um radical contestatário na sua juventude não tem coração. Mas quem continua a sê-lo mais tarde, é porque não tem cabeça”. Isto ocorre em todas as áreas de atividade humana, inclusive entre os músicos. Um exemplo disto é Bob Dylan.

Bob Dylan, na sua juventude, foi um dos cantores mais críticos com o establishment norte americano. Foi, juntamente com Joan Baez, a voz do movimento estudantil anti Guerra do Vietname. Representava a cultura pacifista e anti sistema, muito generalizada nos campus universitários dos anos sessenta. Era um movimento iniciado pelos estudantes das universidades, que, na sua grande maioria, procediam das famílias com mais recursos nos EUA. Era, como a definiu Bruce Springsteen, uma cultura de privilégio, que se opunha e rebelava face ao establishment que dominava os seus pais.

Springsteen, pelo contrário, representava um movimento anti sistema com origem na classe trabalhadora, que questionava e criticava o narcisismo e hedonismo presentes entre os “flower children” de Berkeley e outros centros académicos. O conflito entre as duas culturas era uma espécie de luta de classes dentro do movimento anti establishment, tal como detalhei noutro artigo “O que não se disse em Espanha sobre Springsteen”, Público (28 de junho 2013). Os Estados Unidos, ao contrário do que se diz e escreve em Espanha, é um país onde a categoria de classe social é determinante para entender aquele país. E isso é válido na grande maioria dos componentes daquela sociedade, que vão desde a música até o desporto. Assim, os dois grandes desportos nos EUA são o basebol (com origem predominantemente na classe trabalhadora) e o “futebol americano”, que não é o futebol europeu, e sim uma espécie de rugby (com origem na classe média alta, que se iniciou nos campus universitários).

O final da liga de futebol americano foi no passado 2 de fevereiro, na Super Bowl, quando milhões de norte americanos passam quase todo o dia em frente à televisão. É um dos dias em que custa mais dinheiro pôr um anúncio na televisão, devido ao elevado número de telespectadores. Pois bem, o anúncio que criou mais surpresa e mais nojo entre as forças progressistas dos EUA foi um anúncio da empresa produtora de carros Chrysler no qual, com um chauvinismo ofensivo para muitos outros países, se indicava que, no que respeita a certos produtos de consumo, importantes mas não essenciais, os americanos podem depender de produtos estrangeiros (a cerveja feita na Alemanha, os relógios feitos na Suíça, ou os móveis que se produzem na Ásia). Mas já no que concerne a produtos essenciais como os automóveis, os melhores produtos são os americanos, aparecendo então a última versão dos carros Chrysler. E quem fazia o anúncio era nem mais nem menos do que o próprio Bob Dylan.

O anúncio criou grande rebuliço e interesse (que era o que a Chrysler desejava), mas enojou muitíssimos norte americanos que estão cada vez mais fartos do chauvinismo americano. Assinalaram - entre outros factos - que 1) a Chrysler não é uma empresa americana, senão italiana. É propriedade da FIAT (antes tinha-o sido da Mercedes-Benz); 2) que os alemães fazem muito mais do que cerveja, inclusive automóveis mais eficientes e de maior qualidade que empresas norte americanas; 3) que os povos asiáticos estão hoje entre os mais avançados em áreas tecnológicas, e assim um longo etecetera. E, por certo, que o termo americano que se utiliza constantemente na linguagem quotidiana inclui a maioria dos americanos (que vivem no sul e centro, em vez do norte das Américas).

Bob Dylan, que tinha sido uma das vozes dos anos sessenta que denunciava o chauvinismo do establishment americano, converteu-se, anos mais tarde, no seu promotor e porta-voz. E esta evolução é definida pelos conservadores como “maturidade e utilizar a cabeça”, quando o que querem dizer é “abandonar os princípios para poder ganhar dinheiro sem nenhum tipo de escrúpulos”. A isto chamam maturidade. Entretanto, o nível de popularidade e respeito por Bob Dylan tem diminuído notavelmente nos Estados Unidos.

 

Artigo publicado por Vicenç Navarro no diário digital O PLURAL, 3 de março de 2014.

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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