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Sem multidões nas ruas, a Diada catalã lembrou vítimas da repressão

Com ações simbólicas e também alguns cortes de estradas e linhas ferroviárias, as comemorações do dia nacional da Catalunha foram muito diferentes dos anos anteriores, numa altura em que se aproxima uma nova crise política.
Diada em Barcelona
Diada em Barcelona assinalou vítimas da repressão pós-referendo. Foto Òmnium Cultural/Twitter

Afetada pela pandemia, a celebração do dia nacional da Catalunha não trouxe este ano imagens de ruas repletas de gente com bandeiras e pancartas. Em vez disso, contou sobretudo com atos simbólicos e pequenas concentrações com inscrição prévia e distanciamento físico.

No Passeig Lluis Companys, junto ao Arco do Triunfo de Barcelona, foram colocadas 2.850 cadeiras vazias, uma por cada vítima de repressão do Estado espanhol desde o referendo de 2017, numa iniciativa da Ómnium Cultural.

Ao mesmo tempo, numa praça em Montblanc, perto de Tarragona, a Assembleia Nacional Catalã (ANC) espalhava 1.500 pares de sapatos para simbolizar tanto a caminhada rumo à independência como a participação esperada caso não houvesse a crise sanitária.

Mas nem só de simbolismo viveu a Diada de 2020. Algumas ações de sabotagem e de desobediência civil provocaram cortes de circulação quer em estradas quer em linhas ferroviárias durante várias horas. A partir da prisão, o líder da ANC renovou os apelos à mobilização massiva e não violenta. Jordi Sánchez lamentou que as organizações soberanistas não tivessem dado sequência às manifestações que se seguiram à sentença do processo do referendo. “Não soubemos ler o momento ou então abdicou-se de liderar uma mobilização permanente nas ruas. Um erro grave que se pagou caro”, conclui Sánchez.   

Apesar das recomendações e alertas do governo catalão e das principais autarquias para se evitarem aglomerações de gente, o jornal El Periódico contabilizou 107 concentrações em 82 municípios, com uma participação total limitada a 48 mil pessoas com inscrição prévia, controlo de distanciamento físico e, claro, uso de máscara.

O vice-presidente da Ómnium Cultural, Marcel Mauri, voltou a responsabilizar o Estado espanhol pela injustiça e repressão que mantém na prisão os dirigentes políticos independentistas. “Ou amnistia ou amnistia”, defendeu Mauri, prometendo que “enquanto houver perseguidos não haverá normalidade”. O líder da Generalitat, Quim Torra, também participou nesta iniciativa das cadeiras vazias em Barcelona junto ao Arco do Triunfo, escrevendo em duas das cadeiras os nomes do seu antecessor no exílio, Carles Puigdemont, e do líder do Ómnium Cultural, o preso político Jordi Cuixart.

Na véspera, Torra fez a habitual mensagem institucional da Diada, em que desta vez exigiu ao rei e ao primeiro-ministro espanhol um pedido de desculpas oficial pelo assassinato de Lluis Companys - líder do governo republicano da Catalunha a partir de 1934 e fuzilado pelas tropas franquistas em 1940 - e pela perseguição dos catalães mortos no exílio, nos campos de concentração nazis ou nas prisões catalãs.

Por entre conselhos à população de distanciamento, uso de máscara e higiene frequente numa altura em que se instala a segunda vaga da pandemia, Quim Torra deixou também apelos a persistir com a luta pela independência. O líder do governo criticou a “perseguição política própria de um estado autoritário e vingativo” que se abate sobre os presos e os exilados do “procés” catalão.

Crise política instalada à espera de novas eleições

Esta deverá ter sido a última mensagem institucional do governante catalão, que vai conhecer nas próximas semanas a decisão dos tribunais espanhóis sobre a retirarada do seu mandato.

Apesar de ter prometido em janeiro a convocatória de eleições antecipadas, Torra nunca concretizou essa intenção. As relações com o parceiro de governo, a Esquerda Republicana Catalã, degradaram-se nos últimos meses, à semelhança das intenções de voto no partido de Torra e Puigdemont.

Essa diferença crescente para a ERC nas sondagens pode ter justificado o adiar da convocatória de eleições, que no contexto de destituição de Quim Torra servirá ao JuntsxCat para tentar capitalizar a vitimização do seu presidente. Para já, Torra veio defender que não se escolha outro presidente do governo caso seja destituído, colocando a ERC numa posição difícil, já que o natural seria a substituição pelo vice-presidente Pere Aragonés.

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