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A história de Abimael Guzmán, líder do Sendero Luminoso

O fundador do grupo guerrilheiro morreu este sábado. Neste artigo, Marcello Musto diz que Guzmán "será recordado por ter dado vida à experiência política mais abominável, na América Latina, em nome do socialismo".
Abimael Guzmán.
Abimael Guzmán.

O caminho que leva a Ayacucho é duro e, ao percorrê-lo, respira-se um ar misterioso.

A cidade fica situada no centro da Serra peruana e ficou marcada, durante muitos anos, pela miséria extrema. Espacialmente e culturalmente distante de Lima e dos centros mais modernos do país, está mergulhada numa terra cuja produção, até há algumas décadas, consistia num sistema agrícola ainda organizado em bases semi-feudais. Um tesouro que nunca deixou de suscitar o interesse de antropólogos e de estudiosos das tradições populares. Contudo, foi precisamente neste lugar remoto, que até meados dos anos 1970 não tinha estrada asfaltada que comunicasse com a costa, sem uma verdadeira rede elétrica e sem televisão, onde se passaram os acontecimentos que mudaram, irreversivelmente, a história do Peru e que voltaram a colocar esta nação nas bocas do mundo.

Em 1962, um jovem professor universitário de 28 anos chegou a Ayacucho para ensinar Filosofia. Introvertido e esquivo, vinha da esplêndida cidade de Arequipa, onde tinha estudado esta área no instituto católico, tendo-se distinguido pela sua disciplina e ascetismo. Pouco depois da sua chegada, Abimael Guzmán aprendeu quechua, a língua mais difundida entre as populações indígenas da América Latina e iniciou uma intensa militância política. Anos depois, tornar-se-ia famoso em todo o mundo: líder do Sendero Luminoso, a guerrilha maoista que empreendeu um conflito sanguinário contra o estado peruano partir de 1980, cobrando quase 70.000 vidas durante vinte anos.

Nos anos 1960, com o estalar da crise sino-soviética, o mundo comunista dividiu-se em dois blocos. O Partido Comunista Peruano não ficou à margem desta divisão e, quando se formalizou a rutura em 1964, Guzmán aderiu à fação filo-chinesa, o PC Bandera Roja. Nos anos seguintes sucederam-se as cisões, até que em 1970 deixou a organização e fundou o Partido Comunista de Perú – Sendero Luminoso (SL), grupo que se definiu como herdeiro da Revolução Cultural: “o acontecimento principal da história humana”, que tinha descoberto “como mudar as almas”. Apesar das proclamações, a organização surgiu sem nenhuma relação com o campesinato. Em todo o país teve apenas 51 partidários e, durante muito tempo, a sua presença política limitou-se apenas à Universidade de Ayacucho, onde se formavam os professores e o pessoal técnico de toda a região interior e meridional do Peru.

Neste período, Guzmán assistiu a numerosos cursos sobre José Carlos Mariátegui, um penetrante e apreciado marxista peruano (considerado por muitos como o Gramsci da América Latina), desaparecido em 1930 e transformado, apesar do seu afastamento de toda a ortodoxia e dogmatismo, num precursor do maoismo e no pai espiritual do SL. Baseando-se em manuais esquemáticos marxistas, Guzmán começou a difundir entre a juventude andina da região uma visão do mundo extremadamente determinista. O objetivo era criar um grupo monolítico, caracterizado por uma relação opressiva entre partido político e sociedade, que não reconhecia nenhum espaço para a autonomia das lutas. De facto, o SL opôs-se sistematicamente às greves e ocupações de terras, manifestando em muitas ocasiões intolerância para com a cultura indígena.

Contudo, na América Latina, foi precisamente este partido, exíguo mas regido por disciplina férrea, fortemente centralizado (o seu órgão diretivo principal era composto por Guzmán, a sua mulher e a sua futura companheira) e protegido pelo segredo absoluto dos seus militantes, o que mais próximo esteve da conquista do poder político através das armas, empreendimento logrado apenas por Fidel Castro em Cuba e pelos sandinistas na Nicarágua.

A Guerra Popular

Entre 1968 e 1980, o Peru, como o resto dos países da América Latina, teve o seu período de ditadura militar. No final dos anos 1970, Guzmán deixou a universidade para passar à clandestinidade e, tendo ficado da leitura de Mao Zedong com a convicção de que a guerra era uma etapa indispensável também para a realidade peruana, promoveu a criação do Exército Guerrilheiro Popular (EGP) como estrutura paralela ao SL. Nos enunciados de Guzmán, a violência transmutou-se em categoria científica e a morte, por conseguinte, no preço que a humanidade deveria pagar para alcançar o socialismo: “o triunfo da revolução custará um milhão de mortos.”

O confito nasceu num clima surreal. Em maio de 1980, no decorrer das primeiras eleições políticas desde 1980, na praça central de Chuschi, cidade perto de Ayacucho, os militantes do SL queimaram todos os boletins eleitorais. O episódio foi totalmente ignorado, tal como o foi o macabro episódio a que tiveram de assistir os habitantes de Lima alguns meses depois quando, ao acordarem, encontraram dezenas de cães mortos, enforcados em semáforos e postes da luz com cartazes, incompreensíveis para a maioria: “Deng Xiaoping filho de uma cadela”.

Nos primeiros dois anos e meio de guerra, o Estado subestimou totalmente a determinação do SL. Em meados dos anos 1970, pelo menos 74 diferentes organizações marxistas-leninistas operavam no Peru e quando o governo de Fernando Belaúnde decidiu intervir, fê-lo sem nenhum conhecimento da estratégia política e militar da formação que combatia, erroneamente considerada similar a outras guerrilhas latino-americanas (por exemplo as de matriz guevarista) das quais, porém, estava totalmente distante. Apesar do ainda escasso número dos seus militantes, que entretanto tinha ascendido a 520, e do caráter rudimentar do seu arsenal, a maior parte espingardas velhas, a guerra popular do SL fez avanços notórios neste período. Belaunde decidiu então utilizar as forças armadas e Ayacucho converteu-se na área de um comando político-militar da região inteira.

Esta segunda fase do conflito distinguiu-se pela repressão violenta contra as populações locais. O racismo dos soldados chegados da cidade, que identificavam cada camponês como um potencial perigo e, portanto, um objetivo a eliminar, contribuiu para aumentar o número de mortos.

As liberdades políticas foram suprimidas e as autoridades civis substituídas por mandatários do exército que dirigiam, arbitrariamente e com abusos, os Comités de Defesa Civis, a meio caminho entre acampamentos militares e centros de tortura. Face a esta estrategia, o SL respondeu tentando criar áreas de “contrapoder”: os Comités Populares. Ou seja, “zonas libertadas”, governadas rigidamente por comissários nomeados pelo partido, que serviam de base de apoio à guerrilha. Para além disso, no triénio seguinte, Guzmán decidiu alargar o conflito à escala nacional, partindo da capital. Por conseguinte, no final da década (em 1984 tinha surgido também a guerrilha Movimento Revolucionário Tupac Amaru), 50% do território estava sob controlo militar.

Nesta fase, a atuação de Guzmán degenerou no mais extremo dos maniqueísmos, em virtude do qual foram identificados como inimigos absolutos todos os que não pertenciam ao partido, toda a realidade política não controlada pelo SL se tornou num objetivo militar, incluindo representantes dos camponeses, sindicalistas e líderes de organizações femininas. A estratégia seguida consistiu no aniquilamento seletivo, com o objetivo de criar vazios de poder para depois ocupá-los com dirigentes e militantes da organização. Com efeito, as autoridades locais (forças da ordem incluídas) e dirigentes sociais representaram, a seguir aos camponeses que se opunham às suas diretrizes, o segundo alvo do SL. No total, mais de 1.500 mortos, 23% dos quais foram assassinados deliberadamente pelos seus militantes, ou seja não em atentados de grande escala.

A Quarta Espada do Marxismo

Se em Moscovo Gorbachov iniciava a Perestrojka e em Pequim Deng Xiaoping dirigia a China para o capitalismo, em Lima, Guzmán decidiu aumentar o número de ataques. Atacado na sua fortaleza rural, o seu ascendente aumentou, pelo contrário, na capital (um “monstro” de sete milhões de habitantes com mais de 100.000 refugiados provenientes das zonas em conflito). Isso tornou-se possível devido ao espírito de revolta das classes populares atingidas pelos desastres sociais, fruto do estalar de uma grave crise económica (em 1989 a hiper-inflação chegou a 2.775%) e devido às políticas neoliberais impostas pelos tecnocratas próximos de Alberto Fujimori, o ditador que chegou ao poder nas eleições de 1990 e autor, em 1992, de um auto-golpe que levou ao fecho do parlamento e à supressão de todas as liberdades democráticas.

Entretanto, à volta de Guzmán sobrevoavam o terror ou a reverência. Se o primeiro sentimento atingia quem se tinha posicionados contra o SL, por medo de represálias mortais, o segundo aumentou entre os membros desta organização depois do primeiro congresso do partido, celebrado em 1988. O culto da sua personalidade chegou a níveis de psicopatia. Desaparecida qualquer referência ao socialismo de Mariáetegui, Guzmán, que tinha adotado o nome de Presidente Gonzalo, “chefe do partido e da revolução”, transformou-se numa figura semi-divina pela qual todos os militantes (o SL chegou a ter 3.000 militantes, enquanto que o EGP 5.000) se comprometiam, mesmo por escrito, a sacrificar a vida. Nos materiais de propaganda difundidos na época, começou-se a falar dele como a “quarta espada (depois de Marx, Lenine e Mao) do marxismo”, do “maior marxista vivo na terra” ou na “encarnação do pensamento mais elevado da história da humanidade”.

Na realidade durante grande parte do conflicto, Guzmán nunca deixou Lima e manteve alheado dos riscos e privações da guerra. Pouco depois da sua captura, em setembro de 1992, propôs o acordo de paz que tinha sempre recusado categoricamente antes e, a troco de privilégios penais, chegou até a elogiar o regime de Fujimori. Seguiram-se mais oito anos de guerrilha de baixa intensidade entre o Estado peruano, profundamente corrupto e autoritário, e o setor do SL (Proseguir) que não tinha aceitado a viragem do "Presidente Gonzalo", o líder que será recordado por ter dado vida à experiência política mais abominável, na América Latina, em nome do socialismo.


Marcello Musto é doutorado em Filosofia pela Universidade de Nápoles e pela Universidade de Nice e professor no Departamento de Sociologia da Universidade de York. Especialista no pensamento de Karl Marx, organizou e escreveu vários livros sobre este autor e também sobre a Iª Internacional. Em português tem publicados Os últimos anos de Marx – uma biografia intelectual e Trabalhadores, uni-vos! – Antologia política da 1ª Internacional.

Artigo publicado no site de Marcello Musto. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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