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Zeca Afonso: Instantes de vida

Com o Zeca, companheiro-intérprete de uma geração, aprendíamos as canções pilares de resistência, de esperança. Nas palavras certas para dizer revoltas e sonhos cabiam revolucionários, pacifistas… e todos os homens de boa vontade. Por Maria Antonieta Garcia.

Compositor genial foi o criador do hino da revolução de abril, fez-se a voz da utopia. E se há dias em que os astros se conjugam para encantarem o mundo, em 25 de abril o país converteu-se em arquiteto da liberdade, igualdade e fraternidade. Ouviu-se a Grândola em todos os tons e até as armas ostentaram cravos pregoeiros de que era possível emocionar mulheres e homens do meu país.

Conheci o Zeca Afonso, em Setúbal. Quem bem se entende, sempre se encontra e os opositores ao Estado Novo sabiam os trilhos que abriam portas ao convívio e à amizade.

Lecionávamos na mesma escola. Comentávamos aulas, alunos, educação, o país, o mundo…

Em nossas casas, na praia, nos cafés, no Círculo Cultural de Setúbal, no Moinho do monte do Cabrito, na Serra da Arrábida, vivíamos momentos pontuados por cumplicidades, ironias, impaciências… rendidos à sedução de uma utopia de essência ética. Assim, apurávamos a militância e cantávamos. Solto o sonho do pão, da paz lutávamos por construir um país de “amigos maiores que o pensamento”.

Do outro lado, “senhores à força, mandadores sem lei” contrariavam anseios, como podiam (e podiam muito!), proibindo, perseguindo, prendendo… O medo peregrinava no país. Agentes da PIDE esquadrinhavam vidas, traçando o momento adequado para enterrar no pânico os frouxos, deter os mais audazes e dissuadir muitos de intervir na res publica. Respondíamos mantendo e reforçando a amizade, arriscando apoios, repetindo poemas / canções em busca de mais coragem, de energia, de arrojo.

À beira da prisão de Caxias, onde eu ia visitar o António, propunha-lhe:

- Não vá! É mais uma acusação!

Ia, esperava até ao fim da visita, era visto.

- O que posso fazer? – Perguntava.

Pertencíamos a uma geração portadora de um projeto que cultivava a paixão de modelar o mundo, caldeando, o “corrido com o lido”, sofrendo com notícias de soldadinhos que não voltavam, com meninas de olhos tristes, com exílios, prisões, fomes… dores que se desprendiam, inquietando, alvoroçando quem ouvia…

O Zeca era o criador que nos inventara “filhos da madrugada”, o trovador de baladas, e o vate de Maria Faia, Janeiras, Entrudo chocalheiro, O meu menino é de oiro, Senhor Poeta… de cantares líricos intemporais. Explicava:

- Os Vampiros e outras… são datadas!

Na Beira, estas trovas reanimavam, faziam erguer a taça fraternal! E, depois de abril, o Zeca veio, andou, partilhou alegria, amizades, inquietudes. Em Belmonte, nem faltaram memórias de ventura:

- Oh Senhor Dr … O Zeca desaprovava o tratamento, sorria a senhora.

Os abraços sucediam-se; para pessoas mais idosas, era ainda o menino, para outros o registo era diferente: Lembras-te…?

Um companheiro de escola até desafiou: E quando me atiraste com uma pedra…?

- O pá, desculpa lá! - Respondeu desajeitado o Zeca.

Entretanto, confidenciava que o seu primeiro amor, na infância, fora uma judia belmontense, a quem nunca confessara a paixão…

Bom, sensível, amigo, quando lhe elogiavam a voz, a interpretação, os poemas, desassossegava:.. Com um sorriso breve, calava ou desmerecia, mesmo com os amigos:

- Olhe aqui os versos de um amor serôdio!

Li: “Fragância morena / Portal de marfim / Ondina açucena / Chamando por mim // (…) Mal rompe a manhã / Na luz e nas trevas / Foi-se a louçã // (…) Na aurora lunar / Num jardim suspenso / Do seu folgar //”.

Espectador do mundo e de si mesmo, o canto chão da Beira fascinava-o; uma réstia de sol, um grupo de amigos, a montanha, a simplicidade franciscana, a cultura animi, abria visões de um futuro a haver.

Tinha com o mundo material, vulgar e “sebentarizado”, uma relação distante:

- O Zeca tem os discos de platina e de ouro atrás da porta! Ninguém os vê! – Surpreenderam-se os meus filhos, ainda pequenos, quando o visitámos, já doente…

A vaidade, o dinheiro eram notas marginais da vida; não comprava nada, mesmo para si. Não sabia! E todavia, entusiasmou-o a aquisição de uma casa, em Monsanto. Foi antes de 1974. Queria-a para abrigar clandestinos, gente que fugia à prisão política, à guerra colonial… Quem os descobriria em Monsanto? E se houvesse qualquer suspeita…pertinho de Espanha depressa se poriam a salvo…

- Esta é a casa do Senhor Dr. José Afonso… Informam monsantinos orgulhosos.

Em abril, vamos celebrar de novo o criador do hino: “Terra da Fraternidade/ Em cada esquina, um amigo/ Em cada rosto igualdade”.

O Zeca conjura todos para a construção de um país de bem-querer. Com a fraternidade de luz e de lucidez disse-nos, na última visita:

- Já não volto à Beira!

(“Rios que vão dar ao mar / Deixem meus olhos secar / Águas / Das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto / A cantar”.)

Estremeceu-nos este anúncio do humanista em demanda da Manhã clara… Que é do Verbo solidário que o Zeca sabia conjugar em todos os modos e tempos?

Em Portugal, há meninos com fome, velhos sós, aldeias despovoadas. A pobreza criou metástases inclusive em classes sociais que se julgavam ao abrigo de tamanhas angústias.

Olá Zeca, principezinho exuperyano, de caracóis revoltos! Recorde-nos as papoilas, os cravos revolucionários, idealistas, únicos no mundo… Será que ainda sabemos cantar?


*Maria Antonieta Garcia nasceu em 1945 no Fundão. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Professora Associada na Universidade da Beira Interior (aposentada) tem desenvolvido as suas investigações no âmbito do Judaísmo e das Identidades.

Testemunho enviado ao Esquerda.net a 20 de fevereiro de 2017.

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Resto dossier

Zeca Afonso: Sem muros nem ameias

Um homem comprometido com a luta pela Liberdade. Um homem bom e humilde, solidário, com um enorme sentido de humor. Um criador nato, um génio. É assim que o descrevem músicos, ex-alunos, jornalistas... os Amigos do Zeca Afonso com quem o Esquerda.net falou. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Zeca Afonso: A incessante tentativa de transformar o mundo

As letras das músicas de Zeca Afonso, os seus poemas, as declarações prestadas nas inúmeras entrevistas que concedeu ao longo da sua vida, todos os seus testemunhos, não só nos dão a conhecer um pouco mais o seu percurso, a sua forma de estar na vida, a sua incessante tentativa de transformar o mundo, como também retratam a intemporalidade do seu contributo.

José Afonso: O Homem, o Professor, o Companheiro, o Amigo

No dia da sua partida, ia apanhar o comboio, de regresso, mas, quando chegou à estação, tinha uma quantidade de gente – população e alunos – a querer despedir-se do professor e do homem. Por Francisco Naia.

Com o Zeca Afonso aprendi a estar no palco e na música de modo diferente

O palco como espaço de partilha, não só entre músicos mas com o público; máximo rigor na prestação musical, inovação constante rejeitando «importações» alienantes preservando a nossa identidade, sempre valorizando a palavra. Por Janita Salomé.

Zeca Afonso em vídeo

Neste artigo, poderá aceder, entre outros, ao vídeo do concerto do Zeca Afonso no coliseu, em Lisboa, em 1983, a entrevistas concedidas pelo próprio à RTP e a uma televisão espanhola, assim como a um testemunho de Mário Viegas sobre o Zeca e a alguns tributos que lhe foram prestados após a sua morte.

Zeca Afonso, a força das palavras

O Esquerda.net relembra o grande artista e ativista e reproduz uma entrevista na qual Zeca fala sobre a necessidade de os jovens se oporem a um modelo de sociedade que é “teleguiado de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro”.

“Quando eu cantava o fado na rua não nos livrávamos da polícia”

O esquerda.net republica a entrevista de Maria Eduarda a Zeca Afonso publicada na edição nº145 de 9 de dezembro de 1981 do jornal “em marcha”.

Zeca Afonso era de uma grande coragem física e intelectual

Questionado pelo Esquerda.net sobre qual é a grande herança do Zeca Afonso, Carlos Guerreiro responde: “Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! Era um homem bom e humilde”.

O que aprendi de mais importante com o Zeca tem a ver com uma postura em relação ao mundo

No testemunho recolhido pelo Esquerda.net, o cantor Manuel Freire recorda a primeira vez que cantou com o Zeca e lembra o amigo como “um fulano normal que era um grande intérprete e um grande criador”.

Zeca Afonso foi estruturalmente um homem de cultura

Em conversa com o Esquerda.net, o arquiteto José Veloso fala sobre o seu convívio com Zeca Afonso aquando da participação de ambos no documentário do realizador de cinema Cunha Telles “Os Índios da Meia Praia”.

Zeca Afonso: Grande admiração pela juventude

Júlio Pereira recorda o seu melhor amigo, e como era fundamental para a sua criatividade estar rodeado de jovens e de coisas novas. O músico assinala ainda a forma como Zeca Afonso sente de uma maneira catastrófica a falência do 25 de Abril.

O Zeca era um inovador nato

Em conversa com o Esquerda.net, Sérgio Godinho afirma que a importância de Zeca Afonso "passa também por ele ser tão inovador, tão inventivo na maneira como compunha e tão surpreendente”. O músico deixa um conselho: “Ouçam o Zeca, vale a pena!”

Que viva o Zeca

De tanto se falar em José Afonso, o artista, por vezes corremos o risco de esquecer o Zeca, o ser inteiro. Por Viriato Teles.

Zeca Afonso: Um homem comprometido que fez da sua arte uma luta

Em entrevista ao Esquerda.net, Rui Pato fala sobre o seu companheiro de música e de estrada: “é um símbolo da liberdade e da luta pela liberdade. Sobre o ponto de vista musical, ele é que atirou a pedrada ao charco. Há música portuguesa antes do Zeca Afonso e depois do Zeca Afonso”.

Zeca Afonso: Instantes de vida

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Zeca Afonso: Um grande amigo e um homem extraordinário

Luís Cília refere a grande amizade que o une a Zeca Afonso. A enorme qualidade do seu trabalho “deixa grandes marcas na cultura portuguesa”, assinala o compositor e intérprete no testemunho que deu ao Esquerda.net.

Ação ou Acção ou há são

Sempre gostei de agir atuar e falar tal cumo Zeca escrevia cantava tocava atuava agia na clandestinidade depois no sucesso daí nossa amizade simples”. Por José Duarte.

Encontrei no Zeca Afonso um dos melhores seres humanos que alguma vez conheci

Num testemunho enviado ao Esquerda.net, Jorge Palma afirma que “quanto ao seu trabalho enquanto criador, a sua voz clara e sincera, o seu constante combate pela Liberdade, só temos de lhe ficar eternamente gratos e seguir o seu exemplo”.

Vejo sobretudo o Zeca como um músico e um poeta extraordinário

Em declarações ao Esquerda.net, Joaquim Vieira sinalizou que, enquanto músico, Zeca Afonso “reunia três qualidades: a poesia, a música e a voz”. “Nessa medida foi insuperável, ninguém chegou ao nível dele”, destaca o jornalista.

Zeca Afonso: As suas aulas eram absolutamente revolucionárias

Hélida Carvalho foi aluna de Zeca Afonso no Liceu Nacional de Setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de Organização Política ser preso pela PIDE. Ao Esquerda.net descreve o primeiro contacto com a “ave rara”.

O Zeca passou a vida a dar-me conselhos

O encenador e diretor artístico Hélder Costa conheceu Zeca Afonso em Coimbra, na República do Prá-Kis-Tão. Já o último encontro teve lugar em Azeitão: foi “num dia absolutamente tétrico”, aquando da eleição de Cavaco Silva com maioria absoluta.

José Afonso, um cantor de valores

A maior herança que nos deixa é a sua obra, em musicalidade e conteúdo, que se revaloriza e se renova dia a dia pelos diferentes grupos e cantoras/es que continuam a beber da sua fonte, que parece inesgotável. Tem grande impacto e influência na Galiza. Por Francisco Peña (Xico de Carinho).

Fazemos da saudade e da memória do Zeca Afonso uma arma

Francisco Fanhais fala-nos da sua cumplicidade com o Zeca Afonso, dos vários momentos em que partilharam o palco, da gravação do álbum “Cantigas do Maio”, dos tempos do PREC, da participação nas campanhas de dinamização cultural do MFA.

Zeca Afonso: Ode à alegria

No caso do Zeca Afonso nunca resultaram os guetos de silêncio a que tentaram condená-lo, desde antes de Abril, quando a censura cortava o seu nome, impondo-lhe a morte do silêncio, tão pouco com os silêncios de matriz "democrático" por via da incomodidade do seu canto insurrecto. Por Fernando Paulouro Neves.

Para o Zeca

Digo-to, também por ti, para que saibas que a tua força não se acabou quando te foste, e enquanto houver memória, haverá força para ir longe, bem longe, mesmo além de Taprobana. Por Camilo Mortágua.

Sobre o Zeca Afonso

O que nos unia? Sei que nunca por nunca tentámos “converter-nos” um ao outro a opções religiosas ou ideológicas; tínhamos em comum o ideal que Mário Sacramento sintetizou naquela recomendação lapidar: “Por favor, façam que o mundo seja bom”. Por António Correia.

AJA celebra 30 anos a evocar a Obra e o exemplo de cidadão de José Afonso

Em declarações ao Esquerda.net, o presidente da direção da Associação José Afonso (AJA), Francisco Fanhais, afirma que a AJA tem como objetivo “dar continuidade ao legado do Zeca, preservar a sua memória e pôr a sua arte ao serviço da cidadania”.