Está aqui

Zeca Afonso era de uma grande coragem física e intelectual

Questionado pelo Esquerda.net sobre qual é a grande herança do Zeca Afonso, Carlos Guerreiro responde: “Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! Era um homem bom e humilde”.

“Os Vampiros” passavam por baixo de tudo e por cima de todos

Conheci o Zeca por volta de 1971, em Setúbal, onde residia, no café Central - não sei se ainda tem o mesmo nome -, no âmbito das atividades do círculo cultural de Setúbal. O Zeca já era, no entanto, conhecido do meu irmão, que era amigo íntimo e colega dos seus dois filhos mais velhos, do primeiro casamento, - a Lena e o Zé Manel. Como estudei num colégio interno de regime militar, até àquela data, da música dele só conhecia “Os Vampiros” , porque “Os Vampiros” passavam por baixo de tudo e por cima de todos.

Em mim, o impacto que teve foi o de romper a campânula onde vivia metido

Como músico e como poeta, encontrarás seguramente gente habilitada a falar-te disso com mais propriedade. Em mim, o impacto que teve foi o de romper a campânula onde vivia metido. Possibilitou-me o contacto com novo vocabulário, novos livros, novos discos, novas palavras, uma nova visão de uma série de coisas, falar de problemas que eram importantes na sociedade portuguesa e que estavam completamente congelados... Abriu um mundo novo.

Tinha a rara capacidade de se relacionar com as pessoas pelos mais variados motivos

O convívio com o Zeca foi de várias índoles, porque ele tinha a rara capacidade de se relacionar com as pessoas pelos mais variados motivos. O primeiro espectáculo que se fez num quartel depois do 25 de Abril fui eu que o organizei com o Zeca na Escola Prática de Serviço de Material em Sacavém. O Zeca foi próximo da LUAR, da qual eu também era mais ou menos próximo. Em Setúbal existia um grupo muito forte que tinha muita influência do Zeca, gente muito jovem que tinha feito também toda uma aprendizagem em torno dele. Entretanto, fui eu que trouxe o Zeca para morar em Azeitão, com a minha mulher. Fomos nós que tratámos da vinda deles e, assim, passámos a ter uma relação de vizinhança e de proximidade muito grande. Além disso, de vez em quando tomava conta dos putos dele, filhos do segundo casamento. O Zeca não conduzia, e era a Zélia que normalmente se deslocava com ele para todo o lado. A Lena, a filha mais velha do primeiro casamento, e um grupo de amigos, costumavam tomar conta do Pedro e da Joana. Tinha com o Zeca relações da mais variada índole, que iam da simples vizinhança até ao companheirismo e militância, política e cultural.

De uma grande coragem física e intelectual

Tive muitas experiências marcantes com o Zeca, mas o que me parece mais relevante é dar nota de que ele era um indivíduo que, para além de extremamente inteligente, era extremamente humilde e de uma grande coragem física e intelectual. E, às vezes, a coragem intelectual é bem mais difícil de sustentar do que a física. O Zeca era um gajo de uma dádiva total, solidário como ninguém, humilde, capaz de encontrar nas pessoas mais humildes coragem e capacidade de luta que o galvanizavam também a ele. Tenho muitas histórias conjuntas, mas não me parece que sejam relevantes. Vou-te dar um exemplo apenas.. Quando o Zeca fez o “Como se fora seu filho”, gravou uma canção chamada “Papuça”. Meses antes da saída do disco, telefonou-me para me pedir para estar com ele. Morávamos perto um do outro. Mostrou-me o poema “Papuça”, o que me deixou muito admirado, porque o Zeca nunca tinha feito isso. Li o poema e quando cheguei ao fim olhei para ele um bocado interrogativamente, perguntando-lhe porque é que me tinha chamado para ler aquilo. Respondeu-me da seguinte forma: “é que eu falo na cantiga de quatro amigos nossos, comuns, e queria saber se achas que os outros amigos ficam de algum modo chateados por só falar desses e não de outros”. Ora uma pessoa, um génio musical como o Zeca, que se permite fazer isto e pedir a opinião a um pé de chumbo... só me levou a responder que era um assunto de autor e que não tinha de dar satisfação a ninguém. Que, seguramente, os amigos não iam ficar chateados e se ficassem tínhamos pena… É para te dar o exemplo de como o Zeca, que era um indivíduo que tinha qualidades tão arreigadas, se permitia depois junto dos amigos ter o tratamento igualitário que tinha em relação às questões sociais.

O Zeca era um homem comprometidíssimo com a luta pela liberdade, ia a todas. Havia, ainda assim, tendo para a descontração. O Zeca tinha um bom humor e um sentido de humor apuradíssimo, e também gostava de copos, mas quando o conheci já o estômago não lhe permitia fazer grandes farras. Da maneira como se dava na totalidade, participava em tudo e não cuidava de si. Cantava em condições precárias, não tinha tempo para comer, não comia decentemente... Ele gostava de jogar futebol, ainda joguei futebol com o Zeca, e adorava judo. Era um jogador de futebol razoável. Tinha sido extremo direito na Académica e nós dizíamos-lhe, em tom de piada, que quem joga pela direita, mesmo que seja futebol, tem sempre alguma quebra. O Zeca era também um ouvinte eclético de música e era de uma generosidade incrível. Era incapaz de passar na estrada e ver alguém a pedir boleia e não quase que obrigar a Zélia a parar para dar boleia. Fosse quem fosse, tivesse o aspeto que tivesse. Esquecia-se de si em prol de ativar as pessoas, de as pôr a pensar, de as pôr a combater, sempre numa perspetiva unitária, quer antes do 25 de Abril, quer depois, pese embora algumas incompreensões que por aí tenham surgido pelo caminho.

O Zeca era um gajo muito bom

A grande herança do Zeca? Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! Era um homem bom e humilde.


 

(...)

Resto dossier

Zeca Afonso: Sem muros nem ameias

Um homem comprometido com a luta pela Liberdade. Um homem bom e humilde, solidário, com um enorme sentido de humor. Um criador nato, um génio. É assim que o descrevem músicos, ex-alunos, jornalistas... os Amigos do Zeca Afonso com quem o Esquerda.net falou. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Zeca Afonso: A incessante tentativa de transformar o mundo

As letras das músicas de Zeca Afonso, os seus poemas, as declarações prestadas nas inúmeras entrevistas que concedeu ao longo da sua vida, todos os seus testemunhos, não só nos dão a conhecer um pouco mais o seu percurso, a sua forma de estar na vida, a sua incessante tentativa de transformar o mundo, como também retratam a intemporalidade do seu contributo.

José Afonso: O Homem, o Professor, o Companheiro, o Amigo

No dia da sua partida, ia apanhar o comboio, de regresso, mas, quando chegou à estação, tinha uma quantidade de gente – população e alunos – a querer despedir-se do professor e do homem. Por Francisco Naia.

Com o Zeca Afonso aprendi a estar no palco e na música de modo diferente

O palco como espaço de partilha, não só entre músicos mas com o público; máximo rigor na prestação musical, inovação constante rejeitando «importações» alienantes preservando a nossa identidade, sempre valorizando a palavra. Por Janita Salomé.

Zeca Afonso em vídeo

Neste artigo, poderá aceder, entre outros, ao vídeo do concerto do Zeca Afonso no coliseu, em Lisboa, em 1983, a entrevistas concedidas pelo próprio à RTP e a uma televisão espanhola, assim como a um testemunho de Mário Viegas sobre o Zeca e a alguns tributos que lhe foram prestados após a sua morte.

Zeca Afonso, a força das palavras

O Esquerda.net relembra o grande artista e ativista e reproduz uma entrevista na qual Zeca fala sobre a necessidade de os jovens se oporem a um modelo de sociedade que é “teleguiado de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro”.

“Quando eu cantava o fado na rua não nos livrávamos da polícia”

O esquerda.net republica a entrevista de Maria Eduarda a Zeca Afonso publicada na edição nº145 de 9 de dezembro de 1981 do jornal “em marcha”.

Zeca Afonso era de uma grande coragem física e intelectual

Questionado pelo Esquerda.net sobre qual é a grande herança do Zeca Afonso, Carlos Guerreiro responde: “Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! Era um homem bom e humilde”.

O que aprendi de mais importante com o Zeca tem a ver com uma postura em relação ao mundo

No testemunho recolhido pelo Esquerda.net, o cantor Manuel Freire recorda a primeira vez que cantou com o Zeca e lembra o amigo como “um fulano normal que era um grande intérprete e um grande criador”.

Zeca Afonso foi estruturalmente um homem de cultura

Em conversa com o Esquerda.net, o arquiteto José Veloso fala sobre o seu convívio com Zeca Afonso aquando da participação de ambos no documentário do realizador de cinema Cunha Telles “Os Índios da Meia Praia”.

Zeca Afonso: Grande admiração pela juventude

Júlio Pereira recorda o seu melhor amigo, e como era fundamental para a sua criatividade estar rodeado de jovens e de coisas novas. O músico assinala ainda a forma como Zeca Afonso sente de uma maneira catastrófica a falência do 25 de Abril.

O Zeca era um inovador nato

Em conversa com o Esquerda.net, Sérgio Godinho afirma que a importância de Zeca Afonso "passa também por ele ser tão inovador, tão inventivo na maneira como compunha e tão surpreendente”. O músico deixa um conselho: “Ouçam o Zeca, vale a pena!”

Que viva o Zeca

De tanto se falar em José Afonso, o artista, por vezes corremos o risco de esquecer o Zeca, o ser inteiro. Por Viriato Teles.

Zeca Afonso: Um homem comprometido que fez da sua arte uma luta

Em entrevista ao Esquerda.net, Rui Pato fala sobre o seu companheiro de música e de estrada: “é um símbolo da liberdade e da luta pela liberdade. Sobre o ponto de vista musical, ele é que atirou a pedrada ao charco. Há música portuguesa antes do Zeca Afonso e depois do Zeca Afonso”.

Zeca Afonso: Instantes de vida

Com o Zeca, companheiro-intérprete de uma geração, aprendíamos as canções pilares de resistência, de esperança. Nas palavras certas para dizer revoltas e sonhos cabiam revolucionários, pacifistas… e todos os homens de boa vontade. Por Maria Antonieta Garcia.

Zeca Afonso: Um grande amigo e um homem extraordinário

Luís Cília refere a grande amizade que o une a Zeca Afonso. A enorme qualidade do seu trabalho “deixa grandes marcas na cultura portuguesa”, assinala o compositor e intérprete no testemunho que deu ao Esquerda.net.

Ação ou Acção ou há são

Sempre gostei de agir atuar e falar tal cumo Zeca escrevia cantava tocava atuava agia na clandestinidade depois no sucesso daí nossa amizade simples”. Por José Duarte.

Encontrei no Zeca Afonso um dos melhores seres humanos que alguma vez conheci

Num testemunho enviado ao Esquerda.net, Jorge Palma afirma que “quanto ao seu trabalho enquanto criador, a sua voz clara e sincera, o seu constante combate pela Liberdade, só temos de lhe ficar eternamente gratos e seguir o seu exemplo”.

Vejo sobretudo o Zeca como um músico e um poeta extraordinário

Em declarações ao Esquerda.net, Joaquim Vieira sinalizou que, enquanto músico, Zeca Afonso “reunia três qualidades: a poesia, a música e a voz”. “Nessa medida foi insuperável, ninguém chegou ao nível dele”, destaca o jornalista.

Zeca Afonso: As suas aulas eram absolutamente revolucionárias

Hélida Carvalho foi aluna de Zeca Afonso no Liceu Nacional de Setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de Organização Política ser preso pela PIDE. Ao Esquerda.net descreve o primeiro contacto com a “ave rara”.

O Zeca passou a vida a dar-me conselhos

O encenador e diretor artístico Hélder Costa conheceu Zeca Afonso em Coimbra, na República do Prá-Kis-Tão. Já o último encontro teve lugar em Azeitão: foi “num dia absolutamente tétrico”, aquando da eleição de Cavaco Silva com maioria absoluta.

José Afonso, um cantor de valores

A maior herança que nos deixa é a sua obra, em musicalidade e conteúdo, que se revaloriza e se renova dia a dia pelos diferentes grupos e cantoras/es que continuam a beber da sua fonte, que parece inesgotável. Tem grande impacto e influência na Galiza. Por Francisco Peña (Xico de Carinho).

Fazemos da saudade e da memória do Zeca Afonso uma arma

Francisco Fanhais fala-nos da sua cumplicidade com o Zeca Afonso, dos vários momentos em que partilharam o palco, da gravação do álbum “Cantigas do Maio”, dos tempos do PREC, da participação nas campanhas de dinamização cultural do MFA.

Zeca Afonso: Ode à alegria

No caso do Zeca Afonso nunca resultaram os guetos de silêncio a que tentaram condená-lo, desde antes de Abril, quando a censura cortava o seu nome, impondo-lhe a morte do silêncio, tão pouco com os silêncios de matriz "democrático" por via da incomodidade do seu canto insurrecto. Por Fernando Paulouro Neves.

Para o Zeca

Digo-to, também por ti, para que saibas que a tua força não se acabou quando te foste, e enquanto houver memória, haverá força para ir longe, bem longe, mesmo além de Taprobana. Por Camilo Mortágua.

Sobre o Zeca Afonso

O que nos unia? Sei que nunca por nunca tentámos “converter-nos” um ao outro a opções religiosas ou ideológicas; tínhamos em comum o ideal que Mário Sacramento sintetizou naquela recomendação lapidar: “Por favor, façam que o mundo seja bom”. Por António Correia.

AJA celebra 30 anos a evocar a Obra e o exemplo de cidadão de José Afonso

Em declarações ao Esquerda.net, o presidente da direção da Associação José Afonso (AJA), Francisco Fanhais, afirma que a AJA tem como objetivo “dar continuidade ao legado do Zeca, preservar a sua memória e pôr a sua arte ao serviço da cidadania”.