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Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Esta vitória é também a derrota de uma estratégia. A Argentina – como toda a região – precisa de uma nova esquerda que tenha como inimigos o neoliberalismo e a extrema-direita, mas que também seja portadora de uma nova rebeldia. Por Juliano Medeiros.
Comício de Milei. Foto de Franco Trovato Fuocoo/EPA/Lusa.
Comício de Milei. Foto de Franco Trovato Fuocoo/EPA/Lusa.

No bairro de Palermo, região nobre de Buenos Aires, visitei há alguns meses atrás um restaurante curioso. O lugar, uma espécie de igreja peronista, tem um altar dedicado a Perón e Evita, além de outros líderes do movimento. A cada 20 minutos todos entoam a famosa Marcha Peronista, hino composto em 1948. São vários intervalos ao longo da noite. Desconhecidos abraçam-se, taças são erguidas. O restaurante quase vem abaixo.

O peronismo é, sem dúvida, o principal movimento político do último século na Argentina. Só isso explica que, 75 anos depois, pessoas de todas as idades continuem a entoar o hino a Perón. Tão longevo quanto heterodoxo, o peronismo agregou ao longo da história políticos como Carlos Menem – o pai do neoliberalismo argentino – e Nestor Kirschner, que alinhou o país à chamada “onda rosa” de governos de centro-esquerda do início dos anos 2000.

A derrota de Sérgio Massa na segunda volta das eleições presidenciais e a vitória do ultradireitista Javier Milei, portanto, não nos devem enganar: o peronismo continua a ser uma força política e social relevante. A pergunta que muitos começam a fazer-se, porém, é se ele poderá responder aos desafios de uma Argentina profundamente impactada pela crise do neoliberalismo.

Numa espécie de advertência, o governador reeleito da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, um dos nomes da nova geração do peronismo de esquerda, afirmou que “é preciso compor uma nova canção”, numa subtil referência crítica à longevidade de certas crenças peronistas que poderiam ser representadas simbolicamente na tradicional Marcha Peronista.

Não demorou para que o seu apelo à renovação fosse alvo de críticas. A resposta mais contundente veio do principal líder do movimento La Cámpora, Máximo Kirchner, filho de Néstor e Cristina. Recusando a proposta de Axel, Máximo afirmou, taxativo: “eu não me dedico à música; eu sou militante”. A resposta do herdeiro político dos Kirchner demonstra a dificuldade de enfrentar o debate da renovação – e de perceber a beleza das metáforas.

Acontece que, não só na Argentina mas em toda a região, já está em curso um processo de renovação das esquerdas. Uma renovação que não significa a simples negação das lutas do passado, mas a busca por uma atualização estratégica capaz de interpretar e agir num mundo em profunda transformação. Afinal, reconhecer o valor da geração que enfrentou as primeiras décadas de neoliberalismo na America Latina deveria ser, antes de tudo, um imperativo moral para qualquer militante das novas gerações.

Mas esse reconhecimento não significa eternizar práticas, visões de mundo e táticas que já não se adaptam à realidade. A estratégia hegemónica do progressismo latino-americano chegou ao seu limite. Por isso, em abril deste ano, reuniram-se em Santiago dirigentes de nove países para pensar os desafios da nova geração de esquerda na América Latina. Partindo do pressuposto de que os países da região compartilham problemas comuns e que as fórmulas tradicionais de mera “gestão” do sistema dão claros sinais de fadiga, criaram a Rede Futuro, um espaço de construção de uma estratégia para a disputa do ciclo político que se abriu com o fim da primeira onda de governos populares.

Em comum, estes dirigentes reconhecem que é preciso ir além da simples luta contra o neoliberalismo. Também manifestam na sua carta de fundação que “diante de um cenário complexo, urge repensar as estratégias das esquerdas e os seus mecanismos de articulação para construir novos horizontes que convoquem e reúnam os setores populares, que se apoderem das conquistas e, também, que superem os limites das experiências do passado, que encantem os nossos povos com uma democracia mais vigorosa e atenta às suas reivindicações e sonhos, que situem no centro das suas agendas temas, problemáticas, lutas e desafios relegados pelos olhares economicistas da transformação”.

Esta nova esquerda – que não é nova apenas em termos geracionais – reconhece o valor do velho progressismo e o seu papel na consolidação da democracia e na promoção de políticas de combate às desigualdades. Mas quer retomar a utopia de uma Pátria Grande socialista e democrática. Por outras palavras, assim como Axel Kicillof, sabe que é tempo de “compor novas canções”. Coincidentemente o podcast da Rede Futuro – disponível em plataformas como o Spotify – chama-se Sudamerican Rockers.

A vitória de Milei é também a derrota de uma estratégia. A Argentina – como toda a região – precisa de uma nova esquerda que tenha como inimigos o neoliberalismo e a extrema-direita, mas que também seja portadora de uma nova rebeldia. Sem renunciar à unidade e valorizando a história de lutas e resistência do povo argentino, há uma janela histórica aberta para novos sonhos e canções.


Juliano Medeiros é cientista político, historiador e ex-Presidente do PSOL (2018-2023). Acompanhou a segunda volta das eleições na Argentina.

Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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Imagem de Lucía Montenegro, publicada em “a terra é redonda”

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