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Trabalho ao Quadrado

O desafio de escrever sobre o trabalho reprodutivo é sobretudo pensar o trabalho e como para as mulheres é quase sempre um trabalho ao quadrado. Artigo de Ana Cansado.
Trabalho ao Quadrado
Foto de Bert Hardy.

Com base nos indicadores-chave da Igualdade de Género em Portugal e no estudo Igualdade de género ao longo da vida:Portugal no contexto europeu percebemos que a maioria das pessoas empregadas tem entre 30 e 49 anos e que a taxa de emprego é mais elevada para os homens do que para as mulheres, quer em Portugal, quer na Europa.

Em Portugal, no ano de 2016, a taxa de emprego foi superior nos homens mas apesar de se verificar uma diminuição da disparidade do emprego entre homens e mulheres este facto não se deveu a uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho mas antes ao aumento do desemprego masculino.

A contratação temporária é mais frequente em Portugal do que na média dos países da União Europeia, quer para homens, quer para mulheres, o que significa que a população portuguesa está mais sujeita à precariedade laboral do que a generalidade dos europeus. Os estudos indicam também que a maioria das mulheres portuguesas que trabalham a tempo parcial, o fazem apenas porque não conseguem encontrar trabalho a tempo inteiro.

O estudo Igualdade de género ao longo da vida:Portugal no contexto europeu refere ainda que há um padrão de género que sobressai na análise das remunerações em Portugal e no resto da Europa e que resulta das mulheres auferirem salários sistematicamente inferiores aos homens em todas as idades analisadas e a disparidade salarial entre homens e mulheres vai aumentando à medida que a idade e as carreiras profissionais avançam.

Em Portugal os homens, em média também auferem uma remuneração base mensal superior às mulheres, assistindo-se a um gap (diferencial) de 16,7%. Este diferencial salarial entre mulheres e homens também está estreitamente relacionado com os níveis de qualificação sendo particularmente evidente entre os quadros superiores, nível de qualificação, em que o gap é de 26,4% na remuneração base.

Se pensarmos sobre a divisão sexual do trabalho com base nestes dados a maior exploração da mulher no sistema capitalista é um dado constante que não encontra correspondência a nível das reivindicações sindicais, nem nas lutas pelos direitos do trabalho.

Os dados relativos ao trabalho reprodutivo revelam a mesma tendência como demonstram os resultados do Projeto INUT – Inquérito Nacional aos Usos do Tempo de Homens e de Mulheres. A maioria das pessoas que responderam ao inquérito encontra-se a trabalhar a tempo inteiro no contexto do mercado de trabalho.

No que se refere aos tempos médios dedicados ao trabalho não pago, isto é às tarefas domésticas e ao trabalho do cuidado os dados revelam uma assimetria de género, em particular em relação às tarefas domésticas. Em média, os homens ocupam cerca de 2 horas e 38 minutos ao trabalho não pago diariamente ao passo que as mulheres ocupam cerca de 4 horas e 13 minutos por dia.

Podemos dizer que esta disparidade resulta dos processos de socialização que fixam determinados papéis de género com base em estereótipos e numa ideologia de género patriarcal que procura legitimar a opressão da mulher. Ainda assim é preciso perceber que do ponto de vista das relações de produção os usos do tempo libertam os homens para uma resposta às constante exigências do capitalismo assegurando que as mulheres se mantêm disponíveis para o trabalho reprodutivo (gestação) mantendo a envergadura do exército de mão-de-obra disponível para a exploração capitalista.

Muito tem sido feito pelo movimento feminista no sentido de denunciar a opressão sobre as mulheres e transformar as relações de poder na sociedade. Mas é preciso juntar forças e perceber que um feminismo que se concentra apenas no trabalho reprodutivo e nas desigualdades de género não tem a mesma força que um feminismo que perceba que as contradições entre o trabalho e o cuidado são tão importantes como as contradições entre o trabalho e o capital.

Quer na esfera do trabalho produtivo, quer na esfera do trabalho reprodutivo a opressão das mulheres é uma constante. Para a ampliação das lutas do trabalho é preciso perceber que a defesa dos direitos das trabalhadoras é essencial para a elevação dos direitos de trabalho para todas as pessoas e que o combate ao patriarcado é tão importante como o combate ao capitalismo na construção de uma sociedade mais justa e de um mundo melhor.

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