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A greve de 8 de Março como forma de luta feminista anticapitalista

Esta pode vir a ser uma nova fase de articulação feminista numa resposta global à fragmentação das lutas imposta pelo capitalismo e o neoliberalismo. Uma ação consertada internacionalmente, que propõe ultrapassar fronteiras, com uma visão global de luta e solidariedade. Artigo de Adriana Lopera.
A greve de 8 de Março como forma de luta feminista anticapitalista

Inspirada na greve de mulheres contra a desigualdade salarial na Islândia de 24 de Outubro de 1975, nas ativistas argentinas que, com o grito de #NiUnaMenos, em outubro de 2016, utilizaram esta táctica para protestar contra a violência machista, nas ativistas polacas que, no outono de 2016, convocaram uma greve de mulheres com o objetivo de travar a lei que teria proibido o direito de abortar, nas 300.000 ativistas italianas que, a 26 de novembro de 2016, para assinalar o dia pelo fim das violências contra as mulheres, saíram à rua e na Women’s March, nas ativistas que, em janeiro de 2017, convocaram 408 marchas nos EUA e 168 em outros países contra a misoginia e o autoritarismo de Trump, nasce esta greve.

Inspiradas em todas estas movimentações feministas recentes, as mulheres saíram à rua em mais de 40 países, respondendo à convocatória da Greve Feminista de 8 de Março de 2018, que se revelou um dia de luta histórico. Feministas como Angela Davis, Nancy Fraser e Cinzia Arruzza foram algumas das mulheres que fizeram essa convocatória internacionalista, feminista e anticapitalista.

Em Portugal, a Greve foi assinalada com manifestações em Braga, Coimbra, Porto e Lisboa (ver fotogaleria), que juntaram milhares de pessoas.

Em Madrid, no 8 de Março de 2018, um milhão de pessoas saiu à rua, 600.000 em Barcelona, 300.000 em Zaragoza, 100.000 em Sevilha. 120 manifestações em todo o Estado Espanhol e uma greve que se fez sentir em vários setores, incluindo escolas, hospitais e serviços de transportes. No Estado Espanhol, mais de 6 milhões de pessoas fizeram greve a 8 de março de 2018, uma greve convocada por três centrais sindicais, a Confederación General del Trabajo (CGT), que convocou mulheres e homens para uma greve de 24 horas, as Comisiones Obreras (CCOO), que, junto com a Unión General de Trabajadores (UGT), convocaram uma greve de 2 horas, também dirigida a homens e mulheres. Os três sindicatos consideraram esta jornada de luta um momento histórico na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, um dia que será estudado nos livros de história.
 

As que movemos o mundo também o podemos parar

Esta pode vir a ser uma nova fase de articulação feminista numa resposta global à fragmentação das lutas imposta pelo capitalismo e o neoliberalismo. Uma ação consertada internacionalmente, que propõe ultrapassar fronteiras, com uma visão global de luta e solidariedade. A greve feminista do 8 de Março de 2018 dirigiu-se às questões laborais e ao trabalho invisível de âmbito doméstico e familiar.

Optando pela greve como forma de luta, expõem-se as limitações do falso discurso feminista que acha que a greve não se aplica ao feminismo, que entende que trabalho é apenas o trabalho remunerado, que não compreende porque o movimento feminista trouxe para o centro da discussão o espaço da reprodução e o trabalho doméstico e dos cuidados.

Além das fronteiras territoriais, a greve internacional do 8 de Março pretende desfazer essa divisão entre o trabalho produtivo e o trabalho de cuidados. O movimento dá visibilidade ao trabalho doméstico e à forma como o sistema dele se beneficia enquanto trabalho fundamental para a sociedade.

Esta greve dá mais um passo em frente com a proposta da greve ao consumo. Propõe-se que seja também um dia sem compras, sem gastar dinheiro, tornando ridículas as tentativas de encaminhar o 8 de Março para o consumo de moda, flores e cosmética, que procuram reduzir a data à celebração de uma feminilidade estereotipada.

Esta é uma greve ao trabalho remunerado, ao trabalho doméstico, ao estudo, ao consumo, um dia de greve de estudantes e de trabalhadoras. Põe-se assim em prática uma perspetiva intersecional, que reconhece e luta contra diversas desigualdades e precariedades promovidas pelo heteropatriarcado.

A experiência da greve do 8 de Março chamou as mulheres a tomar o protagonismo contra todas as discriminações e violências, entendendo a categoria de mulher no seu sentido mais amplo, tentando superar o binarismo de género, reconhecendo a diversidade de situações e discriminações transversais.

O papel que não desempenharam as principais centrais sindicais em Portugal

Oscilando entre a incompreensão e o bloqueio, o sindicalismo português optou por reafirmar o seu mutismo perante novas reivindicações, olhando com perplexidade e receio para tudo o que mexe ao seu redor e não encaixa nas suas práticas tradicionais.

A negação das centrais sindicais portuguesas em convocar a greve feminista tanto pode gerar confusão como pode vir a ser um elemento desmobilizador. Pensar como gerir o necessário trabalho sindical a partir de agora e quais as formas de juntar a vontade de muitas mulheres neste âmbito é uma responsabilidade que o feminismo anticapitalista tem pela frente.

A força da greve do 8 de Março não foi conseguida pelos sindicatos. A força da greve veio da rede de mulheres que a convocaram, proporcionando a construção de cumplicidades políticas e afetivas entre vizinhas, mães, filhas, avós e desconhecidas, à qual alguns sindicatos fora de Portugal aderiram convocando também a greve. Esta é a base sobre a qual poderemos tecer um programa.

Há com certeza muito por fazer, mas quem se encontrou na rua no 8 de Março de 2018 dificilmente ficará em casa em março de 2019.

Lá estaremos, as feministas!

A Rede 8 de Março convoca um encontro feminista para o dia 8 Setembro às 17h no Espaço Cultural Com Calma, Rua República da Bolívia 5 C, Benfica.

Os colectivos e organizações que se identificam com esta forma de luta são muito bem-vindos para pensar e organizar a Greve Feminista de 8 de Março de 2019.

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Resto dossier

Trabalho reprodutivo

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No seguimento de um pequeno debate em torno do trabalho reprodutivo, o esquerda.net publica uma série de contributos e reflexões sobre este conceito e as tarefas a ele associadas. Dossier de Érica Almeida Postiço.

Trabalho ao Quadrado

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O desafio de escrever sobre o trabalho reprodutivo é sobretudo pensar o trabalho e como para as mulheres é quase sempre um trabalho ao quadrado. Artigo de Ana Cansado.

24 horas por dia

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24 horas por dia, 365 dias por ano, sem pausas e (quase) sem apoios sociais: em Portugal, assim é prestado o cuidado informal. Artigo de Joana Alves.

É tempo de reconhecer o valor do cuidador informal!

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O reconhecimento do cuidador, materializado no estatuto do cuidador informal, é fundamental por vários motivos. Artigo de Alexandra Lopes.

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Os domínios do entretenimento e da política dominam as notícias, enquanto o assédio e agressões sexuais a trabalhadoras domésticas são questões que geralmente ficam sem resposta. Artigo de Sarah Jaffe.

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Numa altura em que os holofotes da ficção parecem enamorados pelo servilismo, remetendo-o a um passado longínquo ou a um cenário futuro, no presente o trabalho doméstico continua condenado à invisibilidade e à subalternização. Artigo de Inês Brasão.

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O “tempo livre” no capitalismo, em tese, é o tempo que as pessoas passam fora dos seus trabalhos. Apesar de aparentemente esse conceito ter uma definição simples é necessário problematizar essa questão. Artigo de Thamíris Evaristo.