A sindicalização começa a espalhar-se no setor do retalho

Inspirado por uma onda recente de sindicalizações na Starbucks e na Amazon, os trabalhadores do setor do retalho que estão empregados em grandes cadeias de lojas como a Target começam agora a lançar processos de sindicalização por todos os Estados Unidos. Por Alex N. Press.

26 de maio 2022 - 14:15
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Loja da Target no EUA. Foto de Mike Mozart.

“Porque somos os melhores, isso faz de nós na Target um alvo”, diz uma mulher num vídeo sobre sindicatos feito pela empresa em 2011. Realçando que a empresa de retalho entrou no altamente sindicalizado setor da venda alimentar conseguindo resistir à sindicalização, os intervenientes expõem as apostas da empresas, com um discurso típico anti-sindical onde se distingue apenas um advogado da empresa pela sua aparência de vilão.

Então, a empresa estava a enfrentar uma tentativa de sindicalização nas lojas de Long Island, sob a égide do sindicato United Food and Commercial Workers (UFCW), que representa trabalhadores do setor por todo o país e que esperava lançar uma campanha de sindicalização na Target. Esta tentativa acabou por falhar, com os trabalhadores a votar 137-85 contra a sindicalização.

“Nem um só grupo de membros da equipa, nem um em qualquer lado em toda a empresa, alguma vez decidiu que precisa de um sindicato", diz esse homem no final do vídeo.

Isso continua a ser verdade, mas a empresa está a enfrentar a possibilidade que assim não se mantenha por muito tempo. A 10 de maio, os trabalhadores da Target em Christiansburg, na Virginia, entregaram uma petição na National Labor Relations Board (NLRB) requerendo uma eleição sindical depois da gestão ter recusado reconhecer voluntariamente o sindicato. Estes trabalhadores estão a organizar-se com o ramo de New River Valley dos Industrial Workers of the World (IWW).

E os trabalhadores de Christiansburg estão em contacto com os seus colegas noutras lojas. Adam Ryan, um empregado dessa loja, disse ao New Republic que os trabalhadores de cerca de meia dúzia de lojas já estão “ativos mas em fases iniciais” de campanha do mesmo tipo. Estes esforços desenvolvem-se a partir do chapéu de chuva da organização Target Workers Unite.

Na Target de Christiansburg, o esforço coletivo começou em 2017 quando o assédio sexual de um dos patrões levou a uma greve que resultou numa investigação que acabou por afastar o gerente. A resistência da administração à vontade dos trabalhadores de usarem máscaras durante a pandemia conduziu a uma nova ação em 2020, um pedido de baixa coletivo no qual participaram 200 trabalhadores de várias lojas.

Segundo Ryan, um dos organizadores dos trabalhadores em Christiansburg, 33 dos cerca de 100 trabalhadores da loja assinaram cartões de autorização de sindicalização quando o processo foi iniciado na National Labor Relations Board. Em janeiro, o Target Workers Unite revelou que a empresa estava a divulgar novos guias anti-sindicalização para os gestores de loja. O material fazia uma lista de comportamentos de risco dos trabalhadores a que estes deviam estar atentos porque indiciariam uma possível campanha de sindicalização. Comportamentos como “pequenas reuniões”, “expressão de sentimentos negativos” e “falarem uns com os outros antes ou depois dos turnos no parque de estacionamento”.

O sindicalismo independente está em ascensão depois da sindicalização do centro JFK8 da Amazon em Staten Island, liderado pelo Amazon Labor Union (ALU). Os trabalhadores de uma loja da cadeia de supermercados da Amazon, a Amazon Fresh em Seattle, estão a organizar o seu próprio sindicato, o Amazon Workers United.

Na rede de supermercados Trader Joe’s, as preocupações sobre saúde e segurança fizeram-se sentir nos trabalhadores durante o primeiro ano da pandemia, levando alguns deles a ir falar com o Retail, Wholesale and Department Store Union (RWDSU) mas em nenhuma nenhuma das lojas se iniciou um processo de sindicalização. Mas agora, trabalhadores de uma destas lojas em Hadley, Massachusetts, também formaram um sindicato independente, o Trader Joe’s United. Estes trabalhadores afirmam que os problemas de saúde e de segurança se mantêm e que a empresa reduziu salários e benefícios.

Os esforços de organização no setor do retalho estão a espalhar-se rapidamente também nas formas organizativas mais tradicionais. Os trabalhadores de um REI de Manhattan votaram esmagadoramente pela sindicalização no RWDSU em março deste ano. Três lojas da Apple requereram votações para sindicalização nas últimas semanas – em Atlanta, Nova Iorque e Towson, Maryland. Nas lojas da Apple, vários sindicatos estão envolvidos: os trabalhadores de Atlanta workers estão a organizar-se com o Communication Workers of America (CWA), os de Nova Iorque com o Workers United, filiada no Service Employees International Union (SEIU) e os da loja de Towson com o International Association of Machinists and Aerospace Workers (IAM).

A Apple respondeu com os serviços do escritório de advogados anti-sindical Littler Mendelson. E, claro, houve a sindicalização na Starbucks com o Starbucks Workers United, filiado na SEIU, que ganhou eleições em mais de 70 lojas com muito mais votações ainda por vir.

O que explica esta ascensão? Em primeiro lugar, há a restrição do mercado laboral que se reflete na ainda alta taxa de demissões de trabalhadores que estão a deixar empregos miseráveis em troca de melhores. Os vários pacotes de estímulo de 2020-21, que culminaram no American Rescue Plan Act, puseram dinheiro nas mãos dos trabalhadores e aqueceram o mercado de trabalho, tendo tido sem dúvida um grande papel nestas mudanças, como argumentou David Dayen, da American Prospect.

O trabalho no setor do retalho durante a pandemia também influenciou os pontos de vista dos trabalhadores. Trabalhadores de muitas empresas contam que esta experiência os aproximou mais dos colegas enquanto aumentava a carga de trabalho de impor medidas de distanciamento social – isto também implicou um aumento de stress, com os clientes a revoltarem-se frequentemente contra tais códigos e não é difícil encontrar histórias de empregados do comércio retalhista a serem esmurrados por simplesmente tentarem fazer o seu trabalho. E isto, para além do e terem sido alistados na experiência coletiva de serem considerados "trabalhadores essenciais", transmitiu-lhes a mensagem de que deveriam assumir os riscos do seu trabalho para o bem do público em geral, o que se traduz numa situação propícia à organização.

No mundo laboral, alguns qualificam esta disseminação de “contágio”: quando os trabalhadores veem uma campanha organizativa ser bem sucedida numa empresa como aquela em que estão empregados, começam a ponderar se as suas queixas também poderão ser resolvidas através de ação coletiva.

A experiência do sindicato da Starbucks em particular está a desencadear este tipo de pensamento nos setores do retalho e dos serviços. O que antes era visto como impossível, fica agora provado que é realizável: loja a seguir a loja, os trabalhadores da Starbucks estão a formar comités de organização, a serem aconselhados por trabalhadores de lojas que já se sindicalizaram e a requerer votações de sindicalização. A sua disponibilidade para entrar em greve em muitas lojas sugere uma forte confiança e os trabalhadores de outras empresas citam consistentemente o sindicato da Starbucks como inspiração.

O número de empresas para onde este contágio se disseminou permanece minúsculo comparada com aquelas em que isto não aconteceu. Mas se a onda crescer, com mais Targets, mais Trader Joe’s, e mais outras empresas, não saberemos onde isto vai parar.


Alex N. Press é redatora na Jacobin e escreve para outros jornais como o Washington Post, Vox, the Nation e o n+1, entre outros.

Texto publicado originalmente na Jacobin. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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