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EUA: O que está a acontecer é a revolta da nova geração de trabalhadores

Pegue-se nas queixas que há muito fervilham numa geração e nas sensibilidades políticas de alguns dos seus membros, adicione-se a isso setores favoráveis ​​do mercado de trabalho (por enquanto) e a equação de poder que governou os locais de trabalho dos americanos nos últimos 40 anos pode ser alterada. Por Harold Meyerson.
Trabalhadores da Amazon celebram a criação do primeiro sindicato na empresa.
Trabalhadores da Amazon celebram a criação do primeiro sindicato na empresa.

A partir de agora, as relações de forças na luta de classes nos Estados Unidos da América parecem ter mudado ligeiramente.

Luta de classes? Qual luta de classes? Parecia mais uma blitzkrieg interminável e unilateral. As grandes e as pequenas firmas, empresas e sociedades de private equity, acionistas e empregadores, todos matraquearam os trabalhadores durante décadas. A oposição feroz e unificada dos patrões norte-americanos à ideia de conceder aos seus empregados sequer uma pitada de poder tem sido a base da vida económica dos EUA durante os últimos 40 anos. Mas hoje isso mudou, talvez.

Feita a contagem final de votos no armazém gigante da Amazon em Staten Island, o JFK8, os trabalhadores aprovaram o sindicato por 2.654 a favor e 2.131 contra, com 67 abstenções. A empresa mais rica, mais potente e mais aparentemente indispensável dos EUA perdeu face a uma coligação espontânea de trabalhadores que desenvolveram uma campanha sem filiação nem assistência de qualquer sindicato existente. Fica claro que uma nova geração se agita. [1]

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Os estrondos já se ouviam há algum tempo mas, até recentemente, estavam confinados aos setores privilegiados da economia. Desde o crash de 2008 que ficou claro que foram os trabalhadores jovens que mais suportaram o peso das disfuncionalidades económicas dos EUA. Que eles compreenderam que que o capitalismo americano tinha de ser radicalmente modificado para ganharem alguma segurança económica tinha-se expressado claramente no seu apoio a Bernie Sanders em 2016 e 2020, tal como no seu entusiasmo a favor de Alexandria Ocasio-Cortez em 2018. No ano passado, numa sondagem da Gallup, expressaram o seu apoio aos sindicatos com uma taxa de 77%; uma taxa mais elevada do que o conjunto dos inquiridos (68%); sendo esta a mais elevada a favor dos sindicatos nos últimos 50 anos.

Mas os empregadores podiam ainda consolar-se com a ideia de que os resquícios da Lei Nacional das Relações Laborais, que já não protegia os trabalhadores sindicalizados do despedimento (é ilegal, mas é uma ilegalidade pela qual nenhum empregador sofreu consequências significativas no último meio século), lhes permitiriam suprimir os esforços de sindicalização, fosse qual fosse a vontade dos trabalhadores de se sindicalizarem.
É desta forma que funciona o mundo económico dos EUA desde o início dos anos 1980, no qual as ilegalidades cometidas pelos patrões são tão habituais e tão pouco controladas que a maior parte dos sindicatos renunciam às campanhas de organização dos trabalhadores.

Durante os dois últimos anos, contudo, os trabalhadores que pensavam que as suas competências particulares os protegiam da ameaça de despedimento começaram a sindicalizar-se (para um punhado de trabalhadores verdadeiramente protegidos e bem estabelecidos – atletas profissionais, atores de cinema, pilotos de avião – isto foi verdade mesmo durante os anos de vacas magras). Nestes últimos anos, os jornalistas e os membros de grupos ditos de especialistas, os professores adjuntos e os assistentes de investigação, os animadores e o pessoal dos museus sindicalizaram-se em massa. Trata-se de uma revolta dos profissionais, à qual se juntam os millenials [a geração Y, nascida entre 1980 e 1990] que estão agora a beneficiar pelo menos de uma aparência de segurança no emprego, bem como os membros da geração Z [os nascidos desde o fim dos anos 1990 e princípios de 2000] que não podem ser substituídos. No início da semana, estudantes universitários que trabalham nos refeitórios do Dartmouth College votaram, numa eleição supervisionada pelo NLRB (National Labor Relations Board), pela sindicalização num sindicato que eles próprios criaram. A votação foi de 52 contra 0.

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Nos últimos meses, contudo, a revolta estendeu-se aos millenials que não têm profissões protegidas, aqueles que os empregadores poderiam facilmente substituir. E, sobretudo, esta revolta estendeu-se ao pessoal de atendimento da Starbucks, uma mão de obra desproporcionalmente jovem e altamente educada mas submetida a todos os caprichos de horários e a todas as ameaças de despedimento que a direção possa fazer. E, sim, a Starbucks cultivou a imagem de um “empregador benigno” que não podia correr o risco de perder publicamente, ainda que tenha desempenhado o papel de empregador clássico (submetendo estes trabalhadores a ameças implícitas veiculadas em reuniões anti-sindicais obrigatórias e noutras) quando pensava que ninguém estava a prestar atenção.

Mas os assalariados da Starbucks ganharam em locais suficientes para que atualmente milhares de baristas em centenas de lojas tenham requerido a sindicalização.

Mas a Starbucks não é a Amazon. E a Amazon fez claramente saber em Bessemer, no Alabama, e um pouco por todo o lado onde a sua organização do trabalho tenha sido posta em causa, que o seu pessoal dos armazéns é apenas um mal necessário até que a empresa consiga robotizar o conjunto da mão de obra. Através da sua ação, a Amazon fez saber que não tem problema nenhum em que a taxa de rotação anual dos trabalhadores nos seus armazéns ultrapasse os 100%, que, de facto, estes empregos estão concebidos para provocar uma taxa de rotação anual de mais de 100%. A empresa quer que os seus trabalhadores se vão; é uma alternativa amplamente preferível a que fiquem e procurem defender-se.

Por outro lado, a Amazon é o segundo maior empregador do setor privado do país, depois da Walmart, o campeão da luta contra os sindicatos. A ideia de que um empregado de um armazém da Amazon votasse para se sindicalizar era, até à data, praticamente impensável. Ora, agora, isto foi pensado e feito.

Várias regras padrão, tanto em matéria de sindicalização como de luta contra os sindicatos, foram quebradas por esta vitória, de uma maneira que sugere que algo de mais profundo está em vias de se produzir. Pensemos nisto. Os trabalhadores do Amazon Labor Union (ALU) que se encarregaram da organização – lembrem-se que nenhum sindicato lhes forneceu militantes profissionais; os animadores militantes eram os próprios trabalhadores – apenas obtiveram o mínimo necessário de assinaturas legalmente requerido para pedir uma votação de sindicalização, ou seja 30%. Praticamente nenhum sindicato organiza eleições deste tipo a não ser que tenha obtido assinaturas de 70% da mão de obra porque se prevê que as ameaças e pressão do empregador irão fazer baixar este número até ao momento da votação.

A eficácia da ameaça das administrações de despedir os trabalhadores que exigem ter uma palavra sobre as suas condições de trabalho está igualmente posta em causa. Neste ponto, a situação do “mundos dos negócios” parece reforçar a coragem dos assalariados. O número destes que deixam os seus empregos nunca foi tão elevado. Muitos empregadores procuram desesperadamente quem contratar, o que fez subir salários nas cidades habitualmente animadas que procuram reencontrar o seu dinamismo.

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Tal é o caso de Nova Iorque, no qual a Amazon foi obrigada a aumentar salários para ficar com os trabalhadores que tinha, apesar de outros empregadores os terem tido de aumentar ainda mais. Este não é caso, acrescente-se, em Bessemer, no Alabama, onde as taxas de remuneração da Amazon ultrapassam a das outras empresas que “oferecem” empregos locais do mesmo tipo (e mesmo em Bessemer, porém, o resultado da segunda votação sobre a sindicalização ficou muito renhido, o que é algo também nunca visto; a segunda votação não muda geralmente muito em relação à primeira). [A contagem ficou em 993 votos contra a sindicalização, 875 a favor na segunda eleição, apesar de haver mais de 400 votos contestados e cujo destino será decidido, posteriormente relativamente à publicação deste artigo, pelo NLRB, nota da tradução]

Por outro lado, os assalariados da Amazon puderam inspirar-se no exemplo dos da Starbucks: pessoas como eles, submetidos ao stress e indignidades do regime salarial, não sindicalizados, mas que ultrapassaram a oposição da direção para obter o direito de sindicalizar, primeiro num, depois em dois, a seguir em três locais, e que, sem desencorajar, fizeram campanhas em mais centenas de outros locais. se é possível na Starbucks porque não a Amazon?

E agora se é possível na Amazon porque não noutros lados? Por vezes, uma única vitória pode desencadear uma vaga de vitórias. É o que aconteceu em 1937, quando a grande greve com apoio do UAW (United Auto Workers), que ocupou as fábricas da General Motors em Flint, Michigan, permitiu obter um contrato com a empresa e inspirou dezenas de campanhas semelhantes e centenas de campanhas de sindicalização bem sucedidas por todo o país.

Claro que para os trabalhadores do armazém JFK8 da Amazon, em Staten Island, é preciso ainda negociar um contrato com o seu empregador que recusa obstinadamente fazê-lo (ainda que o novo regime do NLRB pareça determinado em penalizar os empregadores que adiem na esperança que os trabalhadores desistam). Há perto de 20 anos, os trabalhadores de uma loja Walmart no Québec votam a favor da sindicalização e, nos seis meses que se seguiram, a empresa fechou o estabelecimento. Mas a Amazon, devido aos seus compromissos de entrega num dia, não pode simplesmente fechar grandes armazéns que empregam milhares de trabalhadores nas grandes metrópoles em que vive um grande número dos seus clientes. A empresa tem necessidade até de mais infraestruturas e não de menos. A omnipresença da Amazon obriga-a a empregar uma mão de obra que exige algo diferente pelo seu trabalho.

Então talvez, e apenas talvez, o fosso económico e político entre a América urbana e a rural tenha uma nova dimensão hoje. Talvez os milhões de trabalhadores dos serviços, do comércio de proximidade, da cadeia de abastecimento, da hotelaria e da restaruação nas cidades se sintam não apenas apenas suficientemente revoltados mas também suficientemente seguros para fazer o que os seus colegas da Starbucks e agora da Amazon estão a fazer e organizar-se em sindicato. Nas zonas fora das grandes cidades, em que os bons empregos continuam a ser escassos é ainda difícil de imaginar que isto aconteça. Mas nas cidades os trabalhadores da Starbucks e da Amazon mostraram o caminho (este sentimento de segurança pode desvanecer-se, claro, se a Reserva Federal norte-americana aumentar as taxas de juro o suficiente para que o boom de contratações acabe nas cidades).

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Contudo, não consigo deixar de pensar que isto possa ser o presságio de um aumento das reivindicações não apenas de uma parte da mão de obra mas também de uma geração, cuja atitude política está pelo menos tão à esquerda que qualquer outra na história dos Estados Unidos. Os trabalhadores e organizadores da última grande onda de sindicalização no setor privado, os organizadores do CIO (Congress of Industrial Organizations) que, nos anos 1930, construíram o único movimento sindical verdadeiramente potente a que assistimos neste país, eram também ele desproporcionalmente jovens. Os irmãos Reuther (socialistas) e Bob Travis (comunista), que contribuíram para a greve do UAW tinham apenas cerca de vinte anos. Chris Smalls, o principal organizador do JFK8 em Staten Island, tem cerca de trinta; os empregados das campanhas da Starbucks são também jovens.

Quanto mais depressa trabalhadores como estes assumam papéis de liderança, seja no seio do movimento sindical existente, seja em novos sindicatos que possam passar a existir, melhor. Alguns dos sindicatos existentes – como o SEIU (Service Employees International Union), que apoia os trabalhadores da Starbucks e que tem travado ao longo da última década uma luta pelo salário mínimo de 15 dólares – poderão estar mais recetivos a uma tal transformação. Outros podem estar mais desconfiados (penso no UAW que, incapaz de organizar as fábricas de automóveis não sindicalizadas do sul dos EUA, virou-se para a organização nos campus universitários e constata hoje que quase um quarto dos seus membros são estudantes diplomados).

Mas Staten Island disse-nos que alguma coisa mudou. Pegue-se nas queixas que há muito fervilham numa geração e as sensibilidades políticas de alguns dos seus membros, adicione-se a isso setores favoráveis ​​do mercado de trabalho (por enquanto) nas cidades americanas e a equação de poder que governou os locais de trabalho e a vida dos americanos nos últimos 40 anos pode ser alterada. Para o bem do país, esperemos que sim.



Nota da redação do A L’Encontre

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[1] Uma reportagem do New York Times, de 2 de abril, dá-nos uma amostra da brutalidade com que os empregadores da Amazon combateram os animadores da campanha de sindicalização. A Amazon criou uma verdadeira equipa de combate, integrando agentes de segurança vindos do exército, especialistas em vigilância, para quebrar as iniciativas que pudessem conduzir à sindicalização. O ataque visou, antes de mais, Christian Smalls, que foi despedido com um pretexto, no momento em que o primeiro movimento de organização se manifestava; dizia respeito a questões de saúde no momento da Covid. Christian Smalls conseguiu apoiar-se num amigo, Derrick Palmer – que tinha mantido o emprego – e organizando uma verdadeira rede de contactos, usando vídeos no TikTok, multiplicaram ligações com os trabalhadores, num armazém que funciona sete dias por semana, 24 horas por dia; o JFK8 conta com 8.000 assalariados. Por exemplo, eles organizaram locais de encontro com trabalhadores que voltam a casa de madrugada, com faixas a dizer “erva e comida grátis” – os trabalhadores imigrados traziam as suas especialidades culinárias. Christian Smalls explica: “Começámos do nada, com duas mesas, duas cadeiras e uma tenda”. Receberam uma pequena ajuda de alguns sindicatos. Pelo contrário, segundo o New York Times, “a Amazon gestou mais de 4,3 milhões de dólares apenas em consultores anti-sindicais em todo o país, segundo documentos federais”.


Harold Meyerson é editor do The American Prospect.

Artigo publicado originalmente no The American Prospect, publicado igualmente pelo A l’Encontre. Traduzido para o Esquerda.net por Carlos Carujo.

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