Romance revolucionário

Porque é que prazeres extravagantes e sentimentos intensos deveriam ficar reservados apenas para a burguesia pergunta Hannah Proctor a propósito da conceção de amor Kollontai. Um sentimento que a revolucionária russa pensava poder revelar “novas facetas de emoção que possuem beleza, força e esplendor sem precedentes”.

27 de março 2022 - 20:22
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Imagem do filme Reds.

No filme Reds de 1981, Diane Keaton e Warren Beatty são protagonistas nos papéis dos jornalistas norte-americanos de esquerda Louise Bryant e John Reed, cujos respetivos livros Meses Vermelhos na Rússia e Dez dias que abalaram o mundo, foram compilados a partir de artigos sobre a Revolução de Outubro. O filme aborda o tenso relacionamento entre eles, atravessando infidelidades, separações e reconciliações.

Numa sequência chave, o amor reacendido do casal é mostrado no cenário dos eventos revolucionários da Rússia. Reed dirige-se a uma multidão que explodia numa versão eufórica da Internacional, enquanto Bryant o olhava com o rosto coberto de lágrimas. A canção empolgante continua enquanto se revela uma sequência da montagem: o casal é visto na cama (uma cena de sexo misericordiosamente breve na posição de missionário, timidamente tingida de rosa), multidões agitando faixas vermelhas avançam pelas ruas de Petrogrado, Trotsky faz um discurso, Reed e Bryant discutem animadamente sobre os jornais, o Palácio de Inverno é invadido e Reed avança pelos seus corredores de bordas douradas, o casal saúda Lenine e olha-se afetuosamente. Quando a música atinge o seu clímax (piscar de olho), vemos a silhueta dos amantes beijando-se; eles despertam da sua sonolência sem mudar, ao que parece, todas as antigas tradições.

Slavoj Žižek interpretou a montagem nesta sequência como ridiculamente literal na sua associação simbólica entre o conteúdo sexual e histórico, mas eu prefiro ler Elizabeth Hardwick, que observou que Reds apresenta o relacionamento de Bryant e Reed como um “clássico filme de comédia romântica – brigam e fazem as pazes, marido mandado para o sofá, marido na cozinha muito quente.” Žižek argumenta que a montagem do filme de Hollywood, que entrelaça revolução e romance, minimiza a gravidade do evento histórico mas, ao revestir tudo com uma cobertura baunilha enjoativa e ao sugerir que Reed seria o parceiro dominante, a cena também apresenta uma visão amena e convencional do amor – ainda que, como aponta Hardwick, os heróis políticos dos protagonistas pudessem não ter muito interesse em combinar os dois temas: “há revolução e depois também há o amor. Com os líderes na Rússia, as histórias de amor nem sempre estão na vanguarda da experiência.”

Hardwick observa que Trotsky nem sequer mencionou a amante de Lenine, Inessa Armand, nas suas principais obras sobre a revolução. Pouco antes da morte de Inessa por cólera, em 1920, apenas algumas semanas antes de Reed, Armand tinha escrito no seu diário num tom de auto censura: “o significado do amor em comparação com uma vida dedicada à sociedade é muito pequeno, não tem qualquer comparação com uma causa social.” Mas como poderia ser um amor que se combinasse com uma vida dedicada a uma causa social, em vez isolado dela?

Leis e códigos destinados a transformar o casamento, a vida familiar e as relações de género foram introduzidos logo após os bolcheviques chegarem ao poder, sinalizando um compromisso com a emancipação das mulheres e o “desvanecimento” da família mas o estatuto do amor permaneceu ambíguo. No seu livro de 1928, A Nova Rússia, a jornalista americana Dorothy Thompson ofereceu uma avaliação condenatória da “volatilidade das relações sexuais” introduzida pela Revolução de Outubro:

“O comunismo atacou as associações sentimentais e estéticas do amor. Tentou reduzir todos os vínculos a uma base biológica simples, na qual a satisfação dos desejos sexuais não é mais complicada e dificilmente mais interessante do que a satisfação da fome.”

A caracterização de Thompson dos discursos soviéticos sobre a sexualidade no período da Nova Política Económica não era completamente infundada – vários autores soviéticos produziram obras satíricas caracterizando-a em termos semelhantes – mas ela encobre as contradições e ignora as mudanças que ocorreram ao longo da década após a revolução.

Numa entrevista frequentemente citada, realizada em 1919 por Clara Zetkin, Lenine expressou a ssua frustração com a chamada “teoria do copo de água”, “que na sociedade comunista satisfazer o desejo sexual e o anseio pelo amor seria tão simples e trivial quanto ‘beber um copo da água.’” Esta teoria foi comummente atribuída de forma errónea à bolchevique Alexandra Kollontai, na época da estadia de Thompson em Moscovo já enviada para trabalhar em cargos diplomáticos no exterior, as suas teorias sobre sexualidade não somente atacadas e desacreditadas, mas também amplamente mal interpretadas como se advogassem a promiscuidade. No entanto, embora Kollontai possa ter condenado a monogamia obrigatória e permanente do casamento burguês, ela ainda defendia uma forma “sentimental e estética” de amor.

Em Abram alas para o Eros Alado, publicado na revista do Komsomol chamada “A Jovem Guarda” em 1923, Kollontai delineou duas definições conflituantes de amor: Eros alado e sem asas. Devido à intensidade da luta revolucionária durante o período da guerra civil (1917-1922), ela afirma que “O Eros de asas delicadas tinha de fugir da superfície da vida” enquanto a “energia social e psicológica” da classe trabalhadora era urgentemente direcionada para outro lugar. Nessas condições históricas, as relações sexuais costumavam ser necessariamente superficiais e fugazes. Ela descreve esta forma “puramente biológica” de sexualidade grosseira como “Eros sem asas”.

Mas ela observa que já havia evidências de que esse “impulso sexual sem enfeites” estava a ser substituído por casos de amor entre os jovens soviéticos. Ao invés de ver um interesse renovado no “mistério do amor” como um retorno às preocupações burguesas, ela insistia que o amor proletário era distinto e necessário para a construção do comunismo:

“A solidariedade não é apenas uma consciência de interesses comuns; ela depende também dos laços intelectuais e emocionais que unem os membros do coletivo. Para que um sistema social seja construído com base na solidariedade e na cooperação, é essencial que as pessoas sejam capazes de amar e sentir emoções calorosas.”

Sob o comunismo, ela previa que uma forma ideal de “amor-camaradagem” fundada na igualdade de género acabaria por surgir sem “limites formais”. Os relacionamentos eróticos não envolveriam mais amantes presos em díades possessivas e eternamente preservadas, mas seriam baseados no “reconhecimento dos direitos e integridade da personalidade do outro, um apoio mútuo e simpatia sensível constantes e na capacidade de resposta às necessidades do outro.” O amor não seria mais um assunto privado, mas irradiar-se-ia para fora, “multiplicando a felicidade humana”.

Quando li pela primeira vez Abram alas para o Eros alado, há anos, achei a visão de amor de Kollontai – “tecido em fios delicados de todos os tipos de emoções”, uma “lira de muitas cordas” – sentimental e exagerada, a sua linguagem floreada, a sua metáforas piegas. O ensaio foi denunciado nos seguintes termos na imprensa soviética: “a camarada Kollontai costuma nadar num mar de frases gastas e banais, diluídas com um sentimentalismo enjoativo e doce.” Relendo o ensaio hoje, senti-me mais bem disposta em relação ao seu tom grandioso: deverá o amor ser outra coisa além de exagerado e embaraçoso? E porque é que prazeres extravagantes e sentimentos intensos deveriam ficar reservados para a burguesia?

Em 24 de novembro de 1917, algumas semanas após a Revolução de Outubro, Rosa Luxemburgo escreveu para Sophie Liebknecht da prisão em Breslau (atualmente Wrocław, Polônia). Ela descreve ir ao pátio da prisão no crepúsculo e observar o céu resplandecer “com uma doce luz azulada na qual flutua uma clara lua de prata.” As suas cartas para Liebknecht da prisão com frequência incluem referências a animais e flores; a melros e amentilhos de bétula, borboletas e búfalos. Nessa carta ela também fala de amor:

“Oh, como eu compreendo bem que cada bela melodia, cada flor, cada dia de primavera, cada noite de lua signifique para você um desejo intenso e uma atração por aquilo que o mundo pode oferecer de mais belo. E como entendo que você esteja enamorada “pelo amor”! Para mim também o amor muitas vezes foi (ou é?…) algo em si mais importante e sagrado do que o objeto que o inspira. E isso porque ele permite ver o mundo como um cintilante conto de fadas, porque faz aflorar o que há de mais nobre e belo no ser humano, porque eleva o que há de mais comum e insignificante e o craveja de brilhantes e porque permite viver em embriaguez e êxtase…”

As descrições de Kollontai da capacidade do amor de revelar “novas facetas de emoção que possuem beleza, força e esplendor sem precedentes” também invoca a imagem de diamantes cintilantes. Pode parecer contra-intuitivo que materialistas históricos invoquem contos de fadas, mas Luxemburgo retrata o amor como uma experiência prefigurativa, impregnando de admiração a realidade material mundana.

O amor não é “muito pequeno”, como Armald tentou dizer a si mesma, mas excede qualquer objeto ou apego individual para infundir o mundo com o vislumbre da possibilidade, apontando para outro tipo de mundo sem paredes de prisão.


Hannah Proctor é investigadora na Universidade de Strathclyde, em Glasgow, interessada na história e nas teorias da psiquiatria radical.

Texto publicado originalmente na Jacobin, traduzido por Deborah Almeida e Marco Túlio Vieira para a Jacobin Brasil. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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