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Que viva o Zeca

De tanto se falar em José Afonso, o artista, por vezes corremos o risco de esquecer o Zeca, o ser inteiro. Por Viriato Teles.
Foto de Sandra Bernardo.

José Afonso morreu faz agora 30 anos. Como dizia o meu camarada, amigo e mestre Fernando Assis Pacheco, «estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso». Gostaria de fugir-lhe, pois, na certeza de que é tema sempre delicado, desde logo pelo modo como, por regra, amigos e admiradores de José Afonso tendem a evitar o verbo morrer quando falam dele.

«A partida» ou «o desaparecimento físico» são eufemismos usados frequentemente para nomear a morte, tanto a dele como a de outros, mas nesta linha de pensamento seria mais rigoroso usar-se com José Afonso o léxico da ficção científica e falar-se em «desmaterialização»: basta olhar (e ouvir) em volta para perceber como nunca deixou de estar por perto. Assim, o que para alguns pode ser uma maneira de iludir a realidade, de certo modo também se explica pela muito óbvia razão de ser possível afirmar, com rigor e sem a leveza do lugar-comum, que José Afonso continua vivo.

Zeca Afonso, Fernando Assis Pacheco e Viriato Teles. Janeiro de 1983. Foto de Joaquim Bizarro.

 

No rol dos mortos ilustres portugueses do século XX são escassos os escritores, poetas, cantores ou políticos que conseguiram manter acesa a lembrança do que foram e do que fizeram em vida para lá de um mais ou menos alargado círculo de amigos, conhecidos e, vá lá, um ou outro especialista disponível para lhes resgatar a memória nas efemérides redondas.

Ora José Afonso contraria esta regra, e a obra gravada que deixou não apenas continua a ser ouvida e divulgada, como segue sendo inspiração para muitos e muitas intérpretes dos mais variados géneros e feitios. Melhor ou pior, pelas mais diferentes vozes, o número de registos de canções de José Afonso tem-se sucedido a um ritmo que poucos autores vivos conseguem acompanhar. A música dele está há vários anos nas playlists das rádios e não é raro ouvi-la nas televisões. O teatro e a dança vão beber amiúde às suas canções.

Nestes 30 anos, a par da obra, a vida do poeta-cantor tornou-se também mote recorrente de livros, partilhas de fragmentos de memória, estudos universitários, eu sei lá. Do que tem sido feito – e seguramente continuará a ser – nem tudo se guia pelas melhores razões e, a par de muitas coisas dignas, há com certeza vários livros, discos e outros materiais com José Afonso no rótulo que nada acrescentam e nada revelam. São, à semelhança dos respectivos autores, trabalhos desnecessários. Mas não importa: esse é um risco inerente à liberdade, e também por isso é importante continuar a ouvir – e conhecer, e divulgar – a obra grande que legou ao mundo, e deixar que o tempo se encarregue de julgar o resto.

Por sorte nossa, José Afonso nunca deixou de ter ouvidos atentos por perto e gente, muita gente, disposta a manter viva a memória do que ele foi e do que fez. Continuar José Afonso é, assim, um objectivo que já não se esgota na associação que tem o seu nome (sendo ela, também, um caso raro de persistência e vontade), antes se tornou uma prática colectiva. Sem muros nem ameias, poderíamos dizer, como ele gostava e proclamou que deveria ser o lugar onde vivemos.

Neste contexto, afirmar que venceu a morte não é uma simples imagem metafórica. «O Zeca era mesmo genial», escreveu Sérgio Godinho, anos atrás, «e muito gostaria que isto não fosse um consenso, mas um dado adquirido». Inevitavelmente, a genialidade levou à consonância, a tal ponto que é hoje raro o disco de jovem cantor ou cantora que não inclua uma canção do Mestre. E porque não, se as canções dele continuam a ser do que de melhor a música portuguesa gerou? Evocar José Afonso nestas efemérides é, assim, apenas continuar a cantá-lo e a ouvi-lo, coisa que em boa medida já passou a ser um hábito. E, num certo sentido, ainda bem: a arte que criou e lhe sobreviveu segue agora o seu caminho, e não duvido que assim continuará a ser por muito tempo.

Para os amigos – e para todos os que, de um modo ou de outro, o conheceram e conviveram com ele – José Afonso continua a ser o Zeca, bem mais homem do que mito. Bem-humorado, corajoso, hipocondríaco, despistado, consequente mesmo quando contraditório, intransigente nos princípios, dialogante nos meios e nos fins, sempre luminoso. José Afonso, o Zeca, foi mesmo isto tudo, e ainda mais. E, como explicava recentemente Luanda Cozetti num programa de rádio, cada um dos amigos dele pôde ir construindo o seu próprio Zeca, a partir das vivências particulares, e pode tê-lo hoje sempre por perto.

O meu Zeca é, assim, tão idêntico e tão único como o Zeca de Luanda ou o dos que partilharam com ele o palco e as lutas clandestinas. Mesmo se as lembranças que ficaram em quem com ele conviveu são frequentemente distintas e só pontualmente têm a ver com o artista: os episódios que mais rapidamente lembramos revelam quase sempre o cidadão, o militante da liberdade, o homem inquieto. Imperfeito, com certeza, como é próprio dos homens, e por isso mesmo consciente de que o mundo só muda se o obrigarmos a mudar. Coerente com esta convicção, Zeca fez a parte dele.

De tanto se falar em José Afonso, o artista, por vezes corremos o risco de esquecer o Zeca, o ser inteiro. E se é compreensível que a dimensão política de José Afonso seja por vezes subvalorizada para que a sua obra não possa ser olhada à luz do preconceito, seria inaceitável que essa parte da vida dele fosse reduzida a algo menor, em nome de uma unanimidade que o próprio sempre rejeitou.

Também por isso, aos que ficaram (principalmente aos amigos, mas na verdade a todos nós) compete prosseguir, hoje como há 30 anos, inventando novas rotas e caminhos diferentes. Novamente isto pode parecer lugar-comum ou frase feita. Mas é mesmo a única coisa que há para fazer: insistir, resistir, não desistir. Aferrar-se ao mundo, como a toupeira «que esburaca» ou como a formiga que «fura, fura, fura sem parar». O Zeca, esse, continuará por perto a cantar-nos ao ouvido e à alma. Vivo, com toda a certeza.


*Viriato Teles – Jornalista e escritor. Escreveu “As Voltas de um Andarilho - Fragmentos da vida e obra de José Afonso”, considerada uma das principais obras biográficas sobre o Zeca Afonso.

Testemunho enviado ao Esquerda.net a 20 de fevereiro de 2017.

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Resto dossier

Zeca Afonso: Sem muros nem ameias

Um homem comprometido com a luta pela Liberdade. Um homem bom e humilde, solidário, com um enorme sentido de humor. Um criador nato, um génio. É assim que o descrevem músicos, ex-alunos, jornalistas... os Amigos do Zeca Afonso com quem o Esquerda.net falou. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Zeca Afonso: A incessante tentativa de transformar o mundo

As letras das músicas de Zeca Afonso, os seus poemas, as declarações prestadas nas inúmeras entrevistas que concedeu ao longo da sua vida, todos os seus testemunhos, não só nos dão a conhecer um pouco mais o seu percurso, a sua forma de estar na vida, a sua incessante tentativa de transformar o mundo, como também retratam a intemporalidade do seu contributo.

José Afonso: O Homem, o Professor, o Companheiro, o Amigo

No dia da sua partida, ia apanhar o comboio, de regresso, mas, quando chegou à estação, tinha uma quantidade de gente – população e alunos – a querer despedir-se do professor e do homem. Por Francisco Naia.

Com o Zeca Afonso aprendi a estar no palco e na música de modo diferente

O palco como espaço de partilha, não só entre músicos mas com o público; máximo rigor na prestação musical, inovação constante rejeitando «importações» alienantes preservando a nossa identidade, sempre valorizando a palavra. Por Janita Salomé.

Zeca Afonso em vídeo

Neste artigo, poderá aceder, entre outros, ao vídeo do concerto do Zeca Afonso no coliseu, em Lisboa, em 1983, a entrevistas concedidas pelo próprio à RTP e a uma televisão espanhola, assim como a um testemunho de Mário Viegas sobre o Zeca e a alguns tributos que lhe foram prestados após a sua morte.

Zeca Afonso, a força das palavras

O Esquerda.net relembra o grande artista e ativista e reproduz uma entrevista na qual Zeca fala sobre a necessidade de os jovens se oporem a um modelo de sociedade que é “teleguiado de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro”.

“Quando eu cantava o fado na rua não nos livrávamos da polícia”

O esquerda.net republica a entrevista de Maria Eduarda a Zeca Afonso publicada na edição nº145 de 9 de dezembro de 1981 do jornal “em marcha”.

Zeca Afonso era de uma grande coragem física e intelectual

Questionado pelo Esquerda.net sobre qual é a grande herança do Zeca Afonso, Carlos Guerreiro responde: “Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! Era um homem bom e humilde”.

O que aprendi de mais importante com o Zeca tem a ver com uma postura em relação ao mundo

No testemunho recolhido pelo Esquerda.net, o cantor Manuel Freire recorda a primeira vez que cantou com o Zeca e lembra o amigo como “um fulano normal que era um grande intérprete e um grande criador”.

Zeca Afonso foi estruturalmente um homem de cultura

Em conversa com o Esquerda.net, o arquiteto José Veloso fala sobre o seu convívio com Zeca Afonso aquando da participação de ambos no documentário do realizador de cinema Cunha Telles “Os Índios da Meia Praia”.

Zeca Afonso: Grande admiração pela juventude

Júlio Pereira recorda o seu melhor amigo, e como era fundamental para a sua criatividade estar rodeado de jovens e de coisas novas. O músico assinala ainda a forma como Zeca Afonso sente de uma maneira catastrófica a falência do 25 de Abril.

O Zeca era um inovador nato

Em conversa com o Esquerda.net, Sérgio Godinho afirma que a importância de Zeca Afonso "passa também por ele ser tão inovador, tão inventivo na maneira como compunha e tão surpreendente”. O músico deixa um conselho: “Ouçam o Zeca, vale a pena!”

Que viva o Zeca

De tanto se falar em José Afonso, o artista, por vezes corremos o risco de esquecer o Zeca, o ser inteiro. Por Viriato Teles.

Zeca Afonso: Um homem comprometido que fez da sua arte uma luta

Em entrevista ao Esquerda.net, Rui Pato fala sobre o seu companheiro de música e de estrada: “é um símbolo da liberdade e da luta pela liberdade. Sobre o ponto de vista musical, ele é que atirou a pedrada ao charco. Há música portuguesa antes do Zeca Afonso e depois do Zeca Afonso”.

Zeca Afonso: Instantes de vida

Com o Zeca, companheiro-intérprete de uma geração, aprendíamos as canções pilares de resistência, de esperança. Nas palavras certas para dizer revoltas e sonhos cabiam revolucionários, pacifistas… e todos os homens de boa vontade. Por Maria Antonieta Garcia.

Zeca Afonso: Um grande amigo e um homem extraordinário

Luís Cília refere a grande amizade que o une a Zeca Afonso. A enorme qualidade do seu trabalho “deixa grandes marcas na cultura portuguesa”, assinala o compositor e intérprete no testemunho que deu ao Esquerda.net.

Ação ou Acção ou há são

Sempre gostei de agir atuar e falar tal cumo Zeca escrevia cantava tocava atuava agia na clandestinidade depois no sucesso daí nossa amizade simples”. Por José Duarte.

Encontrei no Zeca Afonso um dos melhores seres humanos que alguma vez conheci

Num testemunho enviado ao Esquerda.net, Jorge Palma afirma que “quanto ao seu trabalho enquanto criador, a sua voz clara e sincera, o seu constante combate pela Liberdade, só temos de lhe ficar eternamente gratos e seguir o seu exemplo”.

Vejo sobretudo o Zeca como um músico e um poeta extraordinário

Em declarações ao Esquerda.net, Joaquim Vieira sinalizou que, enquanto músico, Zeca Afonso “reunia três qualidades: a poesia, a música e a voz”. “Nessa medida foi insuperável, ninguém chegou ao nível dele”, destaca o jornalista.

Zeca Afonso: As suas aulas eram absolutamente revolucionárias

Hélida Carvalho foi aluna de Zeca Afonso no Liceu Nacional de Setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de Organização Política ser preso pela PIDE. Ao Esquerda.net descreve o primeiro contacto com a “ave rara”.

O Zeca passou a vida a dar-me conselhos

O encenador e diretor artístico Hélder Costa conheceu Zeca Afonso em Coimbra, na República do Prá-Kis-Tão. Já o último encontro teve lugar em Azeitão: foi “num dia absolutamente tétrico”, aquando da eleição de Cavaco Silva com maioria absoluta.

José Afonso, um cantor de valores

A maior herança que nos deixa é a sua obra, em musicalidade e conteúdo, que se revaloriza e se renova dia a dia pelos diferentes grupos e cantoras/es que continuam a beber da sua fonte, que parece inesgotável. Tem grande impacto e influência na Galiza. Por Francisco Peña (Xico de Carinho).

Fazemos da saudade e da memória do Zeca Afonso uma arma

Francisco Fanhais fala-nos da sua cumplicidade com o Zeca Afonso, dos vários momentos em que partilharam o palco, da gravação do álbum “Cantigas do Maio”, dos tempos do PREC, da participação nas campanhas de dinamização cultural do MFA.

Zeca Afonso: Ode à alegria

No caso do Zeca Afonso nunca resultaram os guetos de silêncio a que tentaram condená-lo, desde antes de Abril, quando a censura cortava o seu nome, impondo-lhe a morte do silêncio, tão pouco com os silêncios de matriz "democrático" por via da incomodidade do seu canto insurrecto. Por Fernando Paulouro Neves.

Para o Zeca

Digo-to, também por ti, para que saibas que a tua força não se acabou quando te foste, e enquanto houver memória, haverá força para ir longe, bem longe, mesmo além de Taprobana. Por Camilo Mortágua.

Sobre o Zeca Afonso

O que nos unia? Sei que nunca por nunca tentámos “converter-nos” um ao outro a opções religiosas ou ideológicas; tínhamos em comum o ideal que Mário Sacramento sintetizou naquela recomendação lapidar: “Por favor, façam que o mundo seja bom”. Por António Correia.

AJA celebra 30 anos a evocar a Obra e o exemplo de cidadão de José Afonso

Em declarações ao Esquerda.net, o presidente da direção da Associação José Afonso (AJA), Francisco Fanhais, afirma que a AJA tem como objetivo “dar continuidade ao legado do Zeca, preservar a sua memória e pôr a sua arte ao serviço da cidadania”.