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O que quer a Liga Espartaquista?

Anti-militarismo, democracia de base, socialização dos meios de produção. Este texto programático foi escrito por Rosa Luxemburgo, publicado no final de 1918, e aprovado em seguida no congresso de fundação do Partido Comunista da Alemanha com poucas alterações.

I

A 9 de novembro, na Alemanha, os operários e soldados esmagaram o antigo regime. Nos campos de batalha de França sangrou até à morte a ilusão prussiana de que governava o mundo através do sabre. O bando de criminosos que tinha pegado fogo ao incêndio mundial e precipitado a Alemanha num mar de sangue tinha chegado ao fim da linha. O povo – traído durante quatro anos o povo, tendo esquecido a cultura, honestidade e humanidade ao serviço do Moloch [1], disponível para qualquer feito obsceno – despertou da sua paralisia de quatro anos, apenas para se encontrar face ao abismo.

A 9 de novembro, o proletariado alemão levantou-se para derrubar o jugo vergonhoso. Os Hohenzollerns [2] foram corridos; conselhos de operários e soldados foram eleitos. Mas os Hohenzollerns eram apenas os testas de ferro da burguesia imperialista e dos Junkers [3]. O domínio de classe da burguesia é o criminoso real responsável pela Guerra Mundial, na Alemanha, como na França, na Rússia como na Inglaterra, na Europa como na América. Os capitalistas de todas as nações são os verdadeiros instigadores do assassinato de massas. O capital internacional é o deus insaciável Baal [4], em cuja boca sangrenta milhões e milhões de sacrifícios humanos fumegantes foram lançados.

A Guerra Mundial confronta a sociedade com uma escolha: ou a continuação do capitalismo, novas guerras e o declínio iminente para o caos e a anarquia ou a abolição da exploração capitalista. Com o final da guerra mundial, prescreveu o direito de existência do domínio de classe da burguesia. Já não é capaz de conduzir a sociedade para fora do terrível colapso económico que a orgia imperialista deixou no seu rasto.

Meios de produção foram destruídos numa escala monstruosa. Milhões de trabalhadores capazes, os melhores e mais fortes filhos da classe trabalhadora, massacrados.

A esperar o regresso dos sobreviventes está a miséria obscena do desemprego. Fome e doenças ameaçam exaurir a força do povo na sua raiz. A bancarrota financeira do estado, devido aos fardos monstruosos da dívida de guerra, é inevitável. Para sair desta confusão sangrenta, este abismo sem fim, não há ajuda, fuga, salvação para além do socialismo. Apenas a revolução do proletariado mundial pode trazer ordem a este caos, pode trazer trabalho e pão para todos, pode acabar com o massacre recíproco dos povos, pode restaurar a paz, a liberdade, a verdadeira cultura a esta martirizada humanidade. Abaixo o sistema do assalariamento! Este é o slogan do momento! Em vez do trabalho assalariado e do domínio de classe deve haver trabalho coletivo. Os meios de produção devem cessar de ser monopólio apenas de uma classe; devem tornar-se propriedade comum de todos. Não mais exploradores e explorados! Produção planificada e distribuição do produto para o interesse comum. Abolição não apenas do modo de produção contemporâneo, mera exploração e roubo, mas igualmente do comércio contemporâneo, mera fraude.

Em vez de patrões e dos seus escravos assalariados, camaradas trabalhando livremente! O trabalho não como a tortura de ninguém porque o dever de todos! Uma vida humana e honrosa para todos os que cumpram o seu dever social. A fome não mais como a maldição do trabalho mas como o flagelo da ociosidade!

Apenas em tal sociedade o ódio nacional e a servidão terão sido arrancados pela raiz. Apenas quando tal sociedade se tenha tornado uma realidade a terra não será mais manchada pelo assassinato. Apenas então pode ser dito: Esta guerra foi a última.

Nesta hora o socialismo é a única salvação para a humanidade. As palavras do Manifesto Comunista ardem como um meneketel [5] flamejante acima dos bastiões desmonorados da sociedade capitalista: socialismo ou barbárie!

II

O estabelecimento da ordem socialista na sociedade é a tarefa mais poderosa que jamais recaiu sobre uma classe e sobre uma revolução na história do mundo. Esta tarefa requer a completa transformação do Estado e o derrube completo das fundações sociais e económicas da sociedade.

Esta transformação e este derrube não podem ser decretados por nenhum secretariado, comité ou parlamento. Apenas pode começar e ser levado a cabo pelas próprias massas do povo.

Em todas as revoluções anteriores uma pequena minoria do povo liderou a luta revolucionária, dando-lhe objetivo e direção e usou a massa apenas como um instrumento para levar os seus interesses, os interesses da minoria, à vitória. A revolução socialista é a primeira no interesse da larga maioria e apenas pode ser conduzida à vitória pela grande maioria do própria povo trabalhador.

A massa do proletariado deve fazer mais do que demarcar claramente os objetivos e direção da revolução. Deve também pessoalmente, pela sua própria atividade, fazer nascer o socialismo passo a passo. A essência da sociedade socialista consiste no facto de que as grandes massas trabalhadoras deixam de ser massas dominadas mas, ao invés disso, faz do conjunto da vida política e económica a sua própria vida e dá a essa vida uma direção consciente, livre e autónoma.

Da cimeira mais elevada do estado à paróquia mais pequena, a massa proletária deve assim substituir os órgãos herdados do domínio de classe da burguesia – as assembleias, parlamentos e conselhos de cidade – pelos seus próprios órgãos – através de conselhos de trabalhadores e soldados. Deve ocupar todos os postos, supervisionar todas as funções, medir todas as necessidades oficiais pelo padrão do seu próprio interesse de classe e pelas tarefas do socialismo. Apenas através de contato constante, vital, recíproco entre as massas do povo e os seus órgãos, os conselhos de trabalhadores e soldados, pode a atividade do povo preencher o estado com um espírito socialista.

Igualmente, a reviravolta económica só pode acontecer se o processo for desencadeado pela ação proletária de massa. Os decretos crus da socialização feitos pelas mais altas autoridades revolucionárias são por si só frases vazias. Apenas a classe trabalhadora, através da sua própria atividade, pode fazer da palavra carne. Os trabalhadores podem assumir o controlo da produção, e, em última análise, o poder real, através de uma luta tenaz com o capital, mão a mão, em cada loja, com pressão direta das massas, com greves e com a criação dos seus próprios órgãos representativos permanentes.

De máquinas mortas com lugar definido na produção pelo capital, as massas proletárias devem aprender a transformar-se em dirigentes independentes deste processo. Têm de adquirir o sentido de responsabilidade adequado a membros ativos da coletividade que possuem a propriedade de toda a riqueza social. Têm de ser laboriosas sem o chicote capitalista, obter a maior produtividade sem esclavagistas, disciplina sem a canga, ordem sem autoridade. O idealismo mais elevado no interesse da coletividade, a auto-disciplina mais restrita, o verdadeiro espírito público das massas são as fundações morais da sociedade socialista, tal como a estupidez, o egotismo e a corrupção são as fundações morais da sociedade capitalista.

Todas estas virtudes cívicas socialistas, juntas com o conhecimento e capacidades necessárias para dirigir empresas socialistas, podem ser ganhas pelas massas apenas através da sua própria atividade, da sua própria experiência.

A socialização da sociedade pode ser alcançada apenas através de luta tenaz e incansável pela massa trabalhadora em toda a sua frente, em todos os pontos em que o trabalho e o capital, o povo e o domínio da classe burguesa, podem ver o branco dos olhos uns dos outros. A emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora.

III

Durante as revoluções burguesas, o derramamento de sangue, o terror e o assassinato político eram uma arma indispensável nas mãos das classes ascendentes.

A revolução proletária não requer terror para atingir os seus objetivos; odeia e despreza a matança. [6] Não precisa destas armas porque não combate indivíduos mas instituições, porque não entra na arena com ilusões ingénuas por cuja frustração iria procurar vingança. Não é a tentativa desesperada de uma minoria para moldar o mundo à força de acordo com os seus ideais, mas a ação das grandes massas de milhões de pessoas, destinada a cumprir a missão histórica de transformar a necessidade em realidade.

Mas a revolução proletária é ao mesmo tempo a sentença de morte para toda a servidão e opressão. É por isso que todos os capitalistas, Junkers, pequeno-burgueses, oficiais, todos os oportunistas e parasitas do domínio de classe e da exploração se erguem para um combate mortal contra a revolução proletária.

É pura insensatez acreditar que os capitalistas iriam de bom grado obedecer ao veredito socialista de um parlamento ou assembleia nacional, que iriam calmamente renunciar à propriedade, ao lucro ao direito de explorar. Todas as classes dominantes lutaram até ao fim com energia tenaz para preservar os seus privilégios. Tanto os patrícios romanos quanto os barões feudais medievais, os cavaleiros ingleses e os negociantes de escravos americanos, os boiardos da Valáquia [7] e os manufatureiros de seda de Lyon – todos derramaram rios de sangue, todos marcharam sobre cadáveres, assassinatos e fogo posto, instigação à guerra civil e traição, de forma a defender os seus privilégios e o seu poder.

A classe capitalista imperialista, enquanto última geração da casta de exploradores, supera todos os seus predecessores na sua brutalidade, no seu cinismo aberto e perfídia. Defende o que lhe é mais sagrado, o seu lucro e o privilégio da exploração, com unhas e dentes, com os métodos da maldade fria que demonstrou ao mundo na totalidade da história das políticas coloniais e na recente Guerra Mundial.

Mobilizará o céu e o inferno contra o proletariado. Mobilizará os camponeses contra as cidades, os estratos mais recuados da classe trabalhadora contra a vanguarda socialista; irá usar os oficiais para instigar atrocidades; tentará paralisar cada medida socialista com um milhar de métodos de resistência passiva; vai lançar inúmeras Vendées[8] contra a revolução; vai convidar o inimigo estrangeiros, as armas assassinas de Clemenceau, Lloyd George e Wilson [9] para dentro do país para se salvar – vai transformá-lo num monte de entulho fumegante ao invés de deixar acabar voluntariamente a escravatura salarial.

Toda esta resistência deve ser quebrada passo a passo, com punho de ferro e energia impiedosa. A violência da contra-revolução burguesa deve ser confrontada com a violência revolucionária do proletariado. Contra os ataques, insinuações e rumores da burguesia deve erguer-se a clareza inflexível do propósito, vigilância e toda a atividade pronta das massas proletárias. Contra os perigos ameaçadores da contra-revolução, o armamento do povo e o desarmamento da classe dominante. Contra o obstrucionismo das manobras parlamentares da burguesia, a organização ativa da massa de trabalhadores e soldados. Contra a omnipresença, os milhares de meios de poder da sociedade burguesa, o poder concentrado, compacto e completamente desenvolvido da classe trabalhadora. Apenas uma frente sólida de todo o proletariado germânico, o alemão do sul junto com o do norte, o urbano com o rural, os soldados com os trabalhadores, a viva e convicta identificação da revolução alemã com a Internacional, a extensão da revolução Alemã numa revolução mundial do proletariado pode criar as fundações de granito através das quais o edifício do futuro pode ser construído.

A luta pelo socialismo é a guerra civil mais poderosa da história mundial e a revolução proletária deve obter as ferramentas necessárias para esta guerra civil; deve aprender a usá-las – a lutar e a vencer.

O armar da massa sólida do povo trabalhador com todo o poder político para as tarefas da revolução – isso é a ditadura do proletariado e portanto a verdadeira democracia. Não onde o escravo assalariado se senta ao lado do capitalista, o proletário rural ao lado do Junker numa igualdade fraudulenta para se envolverem em debates parlamentares sobre questões de vida ou de morte, mas onde a massa proletária de milhões de cabeças toma a totalidade do poder de Estado com os seus punhos calejados – como o deus Thor agarra o seu martelo – usando-o para esmagar a cabeça das classes dominantes: apenas isso é democracia, apenas isso é não trair o povo.

De forma a permitir que o proletariado cumpra estas tarefas, a Liga Espartaquista exige:

I- Como medidas imediatas para proteger a Revolução:

1- Desarmamento de toda a força policial e de todos os oficiais e soldados não-proletários; desarmamento de todos os membros das classes dirigentes.

2- Confisco de todas as armas e stocks de munições, assim como das fábricas de armamento pelos conselhos de trabalhadores e soldados.

3- Armamento de toda a população masculina proletária enquanto milícia dos trabalhadores. Criação de uma Guarda Vermelha de proletários como parte ativa da milícia para a proteção constante da Revolução contra ataques contra-revolucionários e subversões.

4- Abolição da autoridade de oficiais e sargentos. Substituição da disciplina militar por disciplina voluntária dos soldados. Eleição de todos os oficiais nas suas unidades com direito de revogação imediato em qualquer momento. Abolição do sistema de justiça militar.

5- Expulsão dos oficiais e capitulacionistas de todos os conselhos de soldados.

6- Substituição de todos os órgãos políticos e autoridades do antigo regime por delegados dos conselhos de trabalhadores e soldados.

7- Estabelecimento de um tribunal revolucionário para julgar os chefes criminosos responsáveis por começar e prolongar a guerra, os Hohenzollerns, Ludendorif, Hindenburg, Tirpitz e seus cúmplices, junto com todos os conspiradores da contra-revolução.

8- Confisco imediato de todos os bens alimentares para assegurar a alimentação do povo.

II- No domínio político e social:

1- Abolição de todos os principados; estabelecimento de uma República Socialista Alemã unificada.

2- Eliminação de todos os parlamentos e conselhos municipais e o assumir das suas funções pelos conselhos de trabalhadores e soldados e seus comités e órgãos.

3- Eleição de conselhos de trabalhadores em toda a Alemanha pelo conjunto da população adulta de ambos os sexos, na cidade e nos campos, nas empresas, assim como de conselhos de soldados pelas tropas (oficiais e capitulacionistas excluídos). Direito dos trabalhadores e soldados de revogar os seus representantes a qualquer momento.

4- Eleição de delegados dos conselhos de trabalhadores e soldados em todo o país para o conselho central de trabalhadores e soldados que deverá eleger um conselho executivo como o órgão executivo e legislativo mais elevados.

5- Reuniões do conselho central provisoriamente pelo menos a cada três meses – com novas eleições de delegados de cada vez – de forma a manter controlo constante sobre as atividades do conselho executivo e a criar uma identificação ativa entre as massas dos conselhos de trabalhadores e soldados da nação e o mais alto órgão governamental. Direito de revogação imediata pelos conselhos de trabalhadores e soldados e substituição dos seus representantes no conselho central, caso estes não ajam de acordo com os interesses dos seus eleitores. Direito do conselho executivo de nomear e destituir os comissários do povo tal como as autoridades nacionais e oficiais.

6- Abolição de todas as diferenças de posição, ordens e títulos. Completa igualdade legal e social dos sexos.

7- Legislação social radical. Encurtamento da jornada de trabalho de forma a controlar o desemprego e em consideração à exaustão física da classe trabalhadora pela guerra mundial. Dia máximo de trabalho de seis horas.

8- Transformação imediata dos sistemas alimentar, de habitação, de saúde e educacional de acordo com espírito e sentido da revolução proletária.

III- Exigências económicas imediatas:

1- Confisco de toda a riqueza dinástica e seus rendimentos para a coletividade.

2- Repúdio da dívida estatal e outra dívida pública junto com todos os empréstimos de guerra, com exceção das somas e um certo nível a ser determinado pelo conselho central dos conselhos de trabalhadores e soldados.

3- Expropriação das terras e campos de todas as grandes e médias empresas agrícolas: formação de coletivos socialistas agrícolas sob a direção unificada centra de toda a nação. Os bens dos pequenos camponeses permanecem na posse dos seus ocupantes até estes se associarem livremente com os coletivos socialistas.

4- Expropriação pela República dos conselhos de todos os bancos, minas, fundições, junto com todas as grandes empresas da indústria e comércio.

5- Confisco de toda a riqueza acima de um nível a ser determinado pelo conselho central.

6- Assumir do conjunto do sistema de transportes públicos pela República dos Conselhos.

7- Eleição de conselhos de empresa em todas as empresas que, em coordenação com os conselhos de trabalhadores, têm a tarefa de ordenar os assuntos internos das empresas, regular as condições de trabalho, controlar a produção e finalmente assumir a direção da empresa.

8- Estabelecimento de uma comissão central de greve que, em constante colaboração com os conselhos de empresa, forneça ao movimento grevista que agora começa a emergir em toda a nação uma liderança unificada, uma direção socialista e o mais forte apoio do poder político dos conselhos de trabalhadores e soldados.

IV. Tarefas internacionais

Estabelecimento imediato de relações com partidos irmãos noutros países, de forma a colocar a revolução socialista numa base internacional e a moldar e assegurar a paz através da fraternidade internacional e o levantamento revolucionário do proletariado mundial.

V- Isto é o que a Liga Espartaquista quer!

E porque isto é o que quer, porque é a voz do alerta, da urgência, porque é a consciência socialista da Revolução, é odiada, perseguida e difamada por todos os inimigos abertos e secretos da Revolução e do proletariado.

Crucifiquem-na! Gritam os capitalistas, tremendo pelas suas caixas registadoras.

Crucifiquem-na! Gritam os pequeno-burgueses, os oficiais, os anti-semitas, os lacaios da imprensa da burguesia, tremendo pela sua fartura sob o domínio de classe da burguesia.

Crucifiquem-na! Gritam os Scheidemann[10], que, como Judas Iscariote, venderam os trabalhadores à burguesia e tremem pelas suas moedas de prata.

Crucifiquem-na! Repetem em eco todos os estratos da classe trabalhadora enganados, traídos, abusados e os soldados que não sabem que, odiando a Liga Espartaquista, estão a odiar a sua própria carne e o seu próprio sangue.

No seu ódio e difamação da Liga Espartaquista, todos os contra-revolucionários, todos os inimigos do povo, todos os antisocialistas, elementos ambíguos, obscuros, pouco claros, estão unidos. Esta é a prova que o coração da Revolução bate dentro da Liga Espartaquista, que o futuro lhe pertence.

A Liga Espartaquista não é um partido que queira subir ao poder sobre a massa dos trabalhadores ou através deles.

A Liga Espartaquista é apenas a parte mais consciente, mais intencional, que aponta o conjunto total da massa da classe trabalhadora para a sua tarefa histórica a cada passo, que representa em cada estádio particular da Revolução o objetivo socialista final e em todas as questões nacionais os interesses da revolução proletária mundial.

A Liga Espartaquista recusa participar no poder governamental com os lacaios da burguesia, com os Scheidemann-Ebert [11], porque vê em tal colaboração uma traição dos fundamentos do socialismo, um fortalecimento da contra-revolução e um enfraquecimento da Revolução.

A Liga Espartaquista também irá recusar entrar no governo porque Scheidemann-Ebert estão a entrar em bancarrota e porque os independentes, colaborando com eles, estão num beco sem saída.[12]

A Liga Espartaquista nunca assumirá o poder governamental exceto em resposta à vontade clara, não ambígua, da grande maioria da massa proletária de toda a Alemanha, nunca exceto através da afirmação consciente do proletariado dos pontos de vista, dos objetivos e métodos de luta da Liga Espartaquista.

A revolução proletária pode alcançar total clareza e maturidade apenas por estádios, passo a passo, no caminho de Gólgota [13] das suas próprias experiências amargas na luta, através de derrotas e vitórias.

A vitória da Liga Espartaquistas não chega ao início, mas no fim da Revolução: é igual à vitória das grandes massas com força de milhões do proletariado socialista.

Proletários, levantem-se! À luta! Há um mundo a ganhar e um mundo a vencer. Nesta luta de classes final da história mundial pelos mais elevados objetivos da humanidade, o nosso slogan face ao inimigo é: Polegares nos globos oculares e joelhos no peito! [14]

Notas:

[1] Moloch é um deus dos amonitas, um povo rival dos judeus que habitava a zona da Palestina/Jordânia. O culto a Moloch surge no Antigo Testamento apresentado como envolvendo sacrifícios de crianças. Figurativamente remete para uma entidade que exige permanentemente os mais altos sacrifícios.

[2] Os Hohenzollerns eram a família real alemã no poder até ao início da revolução de novembro de1918.

[3] Os Junkers eram a classe aristocrática alemã possuidora de grandes propriedades rurais.

[4] Baal é um deus da mitologia cananeia referido no Antigo Testamento. O nome passou a ser sinónimo, na tradição ocultista, de um demónio.

[5] Referência à famosa história bíblica (Daniel, v, 25-29) da escrita na parede que dizia: “foste pesado na balança e achado em falta.” Um menetekel é um sinal de desgraça iminente.

[6] No Congresso de Fundação do Partido Comunista Alemão (Liga Espartaquista) esta passagem foi atacada por Paul Frölich e outros como sendo uma crítica velada à Revolução Bolchevique.

[7] A Valáquia é uma região da Roménia que foi invadida pelos otomanos no século XV. Os boiardos eram a classe rural dominante terratenente com funções militares e administrativas.

[8] A guerra de Vendée foi uma revolta camponesa contra a Revolução Francesa.

[9] Referência aos líderes aliados na I Guerra Mundial: o primeiro-ministro britânico, o presidente norte-americano e francês.

[10] Philipp Scheidemann foi um líder do Partido Social-Democrata Alemão e governante da República de Weimar.

[11] Friedrich Ebert foi um líder do Partido Social-Democrata Alemão e primeiro Presidente da República de Weimar.

[12] Os independentes – o USPD – tinham entrado para o governo Scheidemann-Ebert em novembro. Saíram do governo a 29 de dezembro de 1918.

[13] Gólgota ou Calvário é o nome da colina onde Jesus teria sido crucificado.

[14] Este era um slogan famoso de Lassalle, contemporâneo de Marx e precursor da social-democracia alemã.

Texto traduzido e editado por Carlos Carujo a partir da versão disponível aqui.

(...)

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