O que o Chile nos mostrou

Revolução e contrarrevolução enfrentavam-se nas ruas, fábricas campos e minas do país. Diante disto, a UP ficou na metade do caminho, tentando desesperadamente conter o movimento que de certa forma provocou e que a ultrapassou completamente. Por Waldo Mermelstein.

09 de setembro 2023 - 20:56
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Cabem algumas considerações finais sobre o caráter do governo da Unidade Popular, o seu programa e as alternativas que se estavam a gerar no final do processo, mas que não tiveram tempo de amadurecer.

O programa da Unidade Popular revelou-se equivocado, pois não contemplava a união das amplas camadas de explorados e oprimidos do país e propunha a aliança com uma suposta burguesia nacional antimonopolista que se demonstrou estar mais ligada aos interesses do grande capital e ter uma clara concordância ideológica com este, mesmo no momento em que auferiu imensos lucros, arrastando setores importantes da classe média.

É caudalosa a polémica sobre a experiência chilena: uma corrente maioritária dentro da esquerda e fora dela argumenta que o desastre se deveu à falta de acordo com o centro político (que supostamente representava a classe média e a burguesia “nacional”), ou seja, a DC. Sem poder entrar profundamente no tema, uma observação:

A DC era o partido mais importante do capital no Chile, os seus setores mais progressistas tinham rompido pela esquerda e a sua base trabalhadora estava disposta a enfrentar o patronato, como se demonstrou no lock-out de outubro. Por outro lado, o insuficiente programa de reformas da Unidade Popular numa sociedade dependente do imperialismo e tremendamente desigual abriu as comportas da luta social numa sociedade extremamente desigual, o que desembocou num grandioso processo revolucionário, que não comportava soluções parlamentares, nem a conciliação. As classes sociais fundamentais estavam em movimento e só o confronto poderia saldar contas. Revolução e contrarrevolução enfrentavam-se nas ruas, fábricas campos e minas do país. O acordo com a DC significaria claramente a capitulação de todo o movimento social e a repressão da sua vanguarda, o que a UP não se atreveu a fazer. Ficou na metade do caminho, tentando desesperadamente conter o movimento que de certa forma provocou e que a ultrapassou completamente.

A política militar da UP

O conjunto da orientação da UP já explica o porquê de ter havido tão pouca resistência ao golpe militar. Mas no terreno da sua atitude frente às forças armadas as coisas chegaram a um ponto incrível. Durante os três anos de governo, em nenhum momento houve uma política frente à inevitável oposição da oficialidade a qualquer reforma social mais profunda. Inclusive incutiu-se um mito que depois ficou claro não ter qualquer fundamento: o suposto caráter profissional e legalista das forças armadas chilenas. Na verdade, elas intervieram de forma sangrenta sempre que foram chamadas, como nas greves e mobilizações no governo Frei, com mortos e feridos. Mesmo com a tentativa de golpe do general Viaux, e sua participação no plano para sequestrar o general René Schneider, isso não mudou uma vírgula desta orientação suicida.

Não levantaram um programa de reivindicações básicas e muito sentidas na base militar e na suboficialidade contra os privilégios dos oficiais, a brutalidade e a falta de direitos democráticos, entre eles o direito de voto, e por melhorias no nível de vida, já que sofriam, como o conjunto dos seus irmãos de classe, com a tremenda crise económica exacerbada pela luta distributiva entre as classes fundamentais da sociedade, o flagelo do mercado negro e o desabastecimento. Nenhum controlo das promoções militares, nenhuma depuração de oficiais golpistas e o principal, nenhuma propaganda antigolpista que passasse por cima da rígida estrutura militar e apelasse diretamente aos trabalhadores sob uniforme. Nem é preciso dizer que em nenhum momento se alentou a defesa armada do governo, única garantia de que os soldados, marinheiros e suboficiais poderiam atrever-se à revolta, sem que isso significasse suicídio.

A mentalidade legalista levou a que nem houvesse uma estratégia de resistência, as rádios de esquerda foram silenciadas e não havia transmissores alternativos, a orientação de ficar nos locais de trabalho não servia mais para uma situação extrema, mas era tudo consequência de três anos perdidos, de não ter a clareza e a coragem de enfrentar a realidade do enfrentamento, coisa que a burguesia demonstrou ter de sobra.

Marinheiros antigolpistas

Estamos num terreno em que há poucas informações, mas hoje conhecemos melhor um episódio simbólico: o caso dos marinheiros antigolpistas.

Desde a eleição de Allende, a tremenda divisão de classes que existia na Marinha chilena fez com que os marinheiros e suboficiais comemorassem intensamente a eleição e os oficiais a considerassem uma grande derrota. Por mais de dois anos centenas de marinheiros organizados nos barcos e em terra controlavam a atividade dos oficiais e quando viram que estavam abertamente organizando o golpe tentaram alertar o governo e pedir a ajuda aos partidos de esquerda para tomarem os barcos, como havia acontecido com a revolta da Armada em 31. “Depois do golpe será impossível”, diziam, profeticamente.

Reuniram-se com os dirigentes do PS, MAPU e MIR (Altamirano, Garretón e Miguel Enriquez), pedindo ajuda para o seu plano de tomar os barcos de guerra, ao estilo do que havia sido feito na Revolta da Armada em 1931. Não receberam resposta e foram presos e barbaramente torturados. Allende, no dia 5 de agosto de 73, formava um novo e final gabinete cívico-militar, ironicamente chamado de “Gabinete de Segurança Nacional”, e, para apaziguar a oficialidade da Marinha, denunciou a subversão feita pela suposta ultra-esquerda, fiel à sua estratégia de não afrontar a hierarquia militar. Somente 15 dias depois dos factos se retratou.

O que poderia ter ocorrido se, desde o começo do governo, fossem alentados todos os filhos da classe trabalhadora sob uniforme a que rechaçassem as ordens golpistas e que o movimento sindical e popular fizesse uma campanha de massas com esse eixo sobre a base das forças armadas?

Por uma dessas casualidades da vida, os marinheiros antigolpistas, em especial o principal dirigente, o sargento Cárdenas, sobreviveram, pois já estavam presos e os meandros burocráticos das prisões da ditadura fizeram com que não fossem assassinados e fossem para o exílio. Mais de 30 anos depois, o historiador chileno Jorge Magasich produziu um excelente livro, “Los que dijeron no”, em que conta essa história e entrevista os marinheiros.

Nos dias do golpe, juntamente com os bolsões de resistência, houve fuzilamentos nos quartéis e resistência ativa na escola de suboficiais da polícia, mas foram poucos, muitos menos dos que poderiam ter sido se a política da UP tivesse sido diferente.

Descobertas históricas , compiladas por Jorge Magasich, mostram que, além dos que foram mortos, houve mais de 6 mil militares que se opuseram ao golpe de alguma forma ativa e foram afastados, entre os cerca de 80 mil que compunham as três forças e os carabineiros, além dos que discordavam, mas não se animaram a manifestá-lo.

Claro que uma derrota como essa parece inevitável e seria impossível provar com certeza que o resultado do processo poderia ter sido outro, mas o conjunto das condições da época, os vasos comunicantes que havia entre um exército de conscritos e um movimento de massas que ocupava como nunca antes o centro político do país não poderiam deixar de influir para que as divisões surgissem. Mas para isso faltou uma política por parte do governo e do conjunto da esquerda que tivesse um tempo suficiente, e não os últimos chamados desesperados da esquerda do PS e do MIR para que os soldados desobedecessem às ordens golpistas.

O poder popular

Esta foi a expressão chilena para um fenómeno recorrente nos grandes processos revolucionários, que é o surgimento de organismos de poder dual que se enfrentam à institucionalidade burguesa. A originalidade chilena é que o termo poder popular consta no programa da UP, com uma conotação de apoio ao governo e como tal foi reivindicado por Allende e pela direita da UP, o PC e setores do PS.

O proletariado e a esquerda chilenos tinham uma enorme tradição política, fruto de quase um século de atividade socialista quase ininterrupta, com seus altos e baixos. Por isso, na vanguarda havia debates interessantes, ao calor dos acontecimentos.

Somente para citar, havia uma interpretação da existência de um poder dual dentro do aparelho de Estado, entre o governo e as demais instituições, numa grosseira deturpação do conceito tradicional do poder dual como um poder independente e oposto ao estado e suas instituições, como se viu em tantos processos revolucionários. Mas, mesmo os mais radicais dentro da UP e o MIR consideravam o governo como um aliado vacilante, mas um aliado.

De novembro de 72 até o golpe houve vários foros em que se debateu o poder popular, com a presença de seus dirigentes e/ou de dirigentes dos partidos de esquerda. Basicamente esboçavam-se duas posições:

– A de Allende e do PC que primeiro atacaram fortemente os cordões industriais, mas frente ao seu fortalecimento acabaram reconhecendo-os e aos comandos comunais formalmente, mas concebiam-nos como subordinados ao governo. Os comunistas somente ingressaram nos cordões a partir de julho de 73 e mesmo assim sem muita força.

A segunda posição era apoiada por quase todos os dirigentes dos cordões e sustentava que eles deveriam ser autónomos do governo, mas não a ele se opor. Nenhuma corrente expressiva se colocava a perspetiva de organizar uma força política e/ou social fora da UP, inclusive para melhor lutar contra os golpistas.

Cordões industriais ou comandos comunais?

Uma polémica dentro desse campo era entre os que defendiam a primazia dos cordões industriais e os que defendiam os comandos comunais, como o MIR, argumentando que estes agrupavam o conjunto dos explorados num território e que os cordões somente poderiam ter um papel sindical.

Muito ainda está por ser escrito sobre os detalhes do movimento real, de base, dentro da revolução chilena, mas limitamo-nos a observar que, mesmo sendo uma posição correta em abstrato, não respondia à realidade daquele momento, em que os cordões industriais tinham um peso muito maior.

Na verdade, estranhamente, a posição do MIR coincidia na prática com a opinião do PC de integração dos cordões à CUT, desconhecendo o papel claramente político, muito além do meramente sindical, que tinham adquirido e como única alternativa real de exercer um papel de vanguarda social naquele momento. Uma das razões que possivelmente influiu para essa posição do MIR foi a sua maior implantação nos setores de “pobladores”, enquanto a sua inserção no proletariado industrial era bem reduzida ainda (nas eleições gerais da CUT em maio de 1972, em que votaram cerca de 560 mil trabalhadores, sobre um total de ao redor 3 milhões de trabalhadores no país, a FTR- Frente de Trabalhadores Revolucionários -, ligada ao MIR, teve 1,8%.)

A falta de independência dos cordões e dos órgãos de poder popular foi dramática quando se tratou de enfrentar o golpe que se preparava, pois aguardavam-se as iniciativas do governo, que nunca vieram… Por tudo isso, os cordões somente podem ser classificados como os mais avançados organismos embrionários, potenciais, de poder dual, que poderiam ter se desenvolvido como tais se o tempo permitisse o amadurecimento das suas posições.

O mais próximo a que se chegou de uma posição independente foi a carta da coordenação dos cordões industriais de Santiago endereçada a Allende dias antes do golpe, em que o tom já era de bastante distância. Após refletirem sobre o significado do programa e da eleição da UP, sobre as concessões feitas à direita, enumeravam as medidas mínimas para lutar e terminavam com essas palavras que consideramos serem o ponto mais avançado a que ia chegando a vanguarda revolucionária chilena, mas que infelizmente não teve o tempo necessário para amadurecer e se fazer de massas. Outra poderia ter sido a história da classe trabalhadora e do povo do Chile e da América Latina se isso tivesse ocorrido.

Dizia a carta:

“Nós o advertimos camarada, que, com o respeito e a confiança que ainda temos em você, se não cumprir com o programa da Unidade Popular, se não confiar nas massas, perderá o único apoio real que tem como pessoa e dirigente e que será responsável por levar o país não à guerra civil, que está já está em pleno desenvolvimento, mas ao massacre frio, planificado da classe operária mais consciente e organizada da América Latina. E que será responsabilidade histórica deste Governo, levado ao poder e mantido com tanto sacrifício pelos trabalhadores, pobladores, camponeses, estudantes, intelectuais, profissionais, a destruição e decapitação, sabe-se lá em qual prazo e a que custo sangrento, não só do processo revolucionário chileno, mas também o de todos os povos latino-americanos que estão lutando pelo Socialismo”1.

No entanto, essa evolução era lenta, limitada ainda a uma vanguarda ampla e dificultada pelas posições ambivalentes da esquerda do PS, que procurava conciliar o apoio aos cordões e às posições mais à esquerda no movimento de massas que viam a necessidade de superar a institucionalidade capitalista com a participação no governo, sem colocar a necessidade de forjar uma alternativa à UP. Se num primeiro momento serviram de estímulo à mobilização, depois atuaram como um freio, uma justificativa elaborada pela “esquerda”, impedindo os trabalhadores de avançarem politicamente. Tinham a seu favor a enorme tradição de legalismo dentro do movimento de massas do Chile, na crença no que os seus dirigentes lhe diziam sobre a imparcialidade dos militares e, fundamentalmente, a confiança nos seus dirigentes, a quem atribuíam muitas das suas conquistas. Sabemos como custou cara essa tradição…

O MIR não foi alternativa

Falta dizer algumas palavras sobre o MIR, visto como a única alternativa à esquerda em relação à UP. Em que pese a sua extrema juventude em comparação com partidos mais fortes dentro da esquerda chilena, teve um crescimento importante durante os anos do governo Allende (calcula-se a sua militância orgânica em cerca de 10 mil militantes, ainda que seja difícil determinar com precisão este número). No entanto, tinha limitações claras:

Do ponto de vista político, não tinha conseguido fazer uma transição que o capacitasse a ser uma alternativa. Não tinha uma estratégia clara frente à UP; na verdade, em geral buscava pressionar o governo a ir mais à esquerda. Foi nessa perspetiva de pressionar que fez um acordo eleitoral e programático com a esquerda do PS para as eleições parlamentares de 73 e para a atuação dentro do movimento de massas. Procurar ser escutados pelas massas naquelas eleições era certamente lícito, mas a situação exigia uma posição muito clara.

Do ponto de vista da organização para atuar no movimento de massas, fez uma transição incompleta de um partido de quadros, militarista, para um que aspirava conquistar influência de massas. Não conseguiu incorporar organicamente uma grande quantidade de militantes que se sentiam atraídos pelas suas posições, devido aos seus métodos internos bastante burocráticos (o seu congresso de 68 foi sucessivamente adiado até ao golpe, apesar da acumulação de novos problemas e debates criados pela novíssima situação do país), o que aumentou a sua incoerência e as tensões internas. O seu ultimatismo no movimento dificultou a estruturação entre os operários (só teve 1,8% dos votos na eleição da CUT de 1972), mantendo a sua força essencialmente entre os estudantes e favelados das cidades. Isso não nega, como no caso das demais organizações políticas de esquerda do país, a abnegação e heroísmo dos seus militantes, antes e depois do golpe.

No entanto, apesar de tê-lo alertado desde antes da posse de Allende, o MIR não fez uma campanha sistemática sobre as bases das Forças Armadas. Após o Tancazo, não percebeu que o golpe estava em plena preparação porque acreditava que a negociação com a DC tinha sido consumada. Isso pode ser percebido porque não houve nenhuma campanha unitária para lutar contra o golpe e exigência que os grandes partidos da esquerda e a CUT a assumissem. O que era a necessidade maior do heroico movimento operário e popular chileno.

Foi isso que contou Andrés Pascal Allende, um dos dirigentes do MIR e sobrinho de Allende:
“O golpe não foi uma reação contra a violência do MIR. Depois do tanquetazo, até o MIR achava que não ia haver golpe. Ficamos surpresos porque achávamos que já havia um processo de busca de acordos políticos do presidente Allende com a direita e com a DC. Então o golpe não seria necessário para isso”.2

No momento mais difícil, apareceu com toda a sua força a principal deficiência do processo chileno: a inexistência de uma corrente revolucionária que tivesse acumulado as experiências e os quadros durante o processo revolucionário para poder propor à vanguarda e às massas a construção de uma alternativa à UP, com base na própria experiência da luta de classes, e não de forma doutrinária ou ultimatista. Uma alternativa à sua variante mais reformista, PC-Allende, como também às suas variantes mais à esquerda – a esquerda do PS e do MIR.


Adaptação de português do Brasil (PT-BR) para português de Portugal (PT-PT) por Mariana Carneiro.