Como vivi o 11 de setembro de 1973 e os dias seguintes

Fugindo da repressão dos ditadores brasileiros depois do golpe militar de 1964, o jovem Waldo Mermelstein, então com 18 anos, foi para Santiago do Chile estudar economia e engajou-se intensamente nas lutas sociais, militando no MIR. Aqui, o seu relato do dia 11 e seguintes. Por Waldo Mermelstein.

09 de setembro 2023 - 20:57
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Durante quase um ano participei do processo chileno de forma intensa, ao ter que sair do Brasil pelas condições impostas pela ditadura.

Tinha 19 anos quando cheguei e comecei a estudar na Universidade do Chile (existia uma quota de 10% das vagas para estudantes estrangeiros) e envolvi-me na militância no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), mais precisamente na sua organização para-partidária estudantil, a FER (Frente de Estudantes Revolucionários).

No dia do golpe, saí do apartamento onde morava, nas Torres de San Borja, no centro da cidade, para ir à Universidade, como combinado, desde o golpe fracassado de 29 de junho, para tentarmos resistir. Já não havia transporte público e fui caminhando. Logo encontrei um companheiro, Dirceu Messias, que tinha sido operário no Rio Grande do Sul. Ele ia para um Cordão Industrial e eu para a Escola de Economia. Soube depois que ele foi preso no estádio Nacional até dezembro, quando foi expulso para a França. Só voltou ao Brasil em 1979.

Soldados de lenços vermelhos

Passei pelo Palácio de la Moneda, onde estavam soldados à sua frente, exibindo lenços vermelhos no pescoço. Pensei “são nossos” mas, felizmente, não me aproximei para conversar, porque não eram.

Na escola de Economia da Universidade do Chile, onde estudava, existiam uns 50 estudantes, bem menos do que aquando do golpe fracassado de 29 de junho, o “Tancazo”. Com tão pouca gente e com a brutalidade do bombardeamento não havia o que fazer ali. Os polícias que tinham um quartel perto da escola vieram dizer-nos que tínhamos meia-hora para sair, o que tivemos que fazer. Eu e mais três companheiros do MIR fomos de carro para tentar chegar ao Cordão Industrial Vicuña Mackenna, mas as patrulhas de soldados no centro da cidade não nos deixaram passar e o toque de recolher começaria em poucos minutos. Fui para casa. No apartamento, estavam mais duas pessoas, um chileno cujos pais moravam no sul do país e já estavam presos e um sueco recém-chegado ao país que não entendia nada. À noite ouvíamos disparos, passavam as ambulâncias porque havia um hospital nas proximidades. Permanecemos lá durante dois dias, quando terminou o toque de recolher total.

Parecia um país diferente. Eu preparei-me para sair e cortei a barba para não ter o aspecto que correspondesse à caricatura de um extremista estrangeiro descrito pelos fascistas e pelos milicos [termo depreciativo para qualquer militar das forças armadas]. Nas ruas, as lojas exibiam todo tipo de produtos que não existia antes do golpe.

Encontro em frente ao Ministério da Defesa

Fui encontrar um companheiro do MIR da Universidade com quem tinha um ponto de encontro previamente marcado na frente do Ministério da Defesa (um lugar insólito), que me deu mais detalhes sobre o que tinha acontecido. Uma amiga sueca contou-me o horror que tinha ocorrido numa población (bairro periférico) onde ela fazia trabalho comunitário.

Foram cerca de vinte dias, tratando de não ser notado pelos soldados, houve alguns momentos em que escapei por pouco. Mas ainda pude encontrar os companheiros do MIR a quem deixei metade do dinheiro que tinha, além de Jorge Alberto Basso, que era dirigente do setor estudantil do MIR e infelizmente foi assassinado pela Operação Condor em Buenos Aires em 1976, sendo ignorado o seu paradeiro desde então.

Mesmo após o golpe, discretamente, as pessoas eram solidárias. Lembro-me de um facto que me marcou: estava a voltar para a minha casa, depois de ter ido dormir na casa de uns amigos do PC, mas o prédio estava interditado por militares que faziam uma batida e, imprudentemente, tentei passar a barreira. “Adonde va?”, perguntou o soldado. Mais imprudentemente, respondi com o meu melhor espanhol: “a mi casa”. Uma moça chilena, corajosamente, percebendo o perigo, pegou-me pela mão como se fosse minha namorada e tirou-me dali. Não sei o que teria acontecido se não fosse esse gesto tão simples.

Calculei que era melhor não procurar refúgio numa embaixada porque era jovem e pouco conhecido (só tinha sido enquadrado no Decreto-Lei 477) e poderia voltar ao Brasil. Procurei o meu passaporte que estava no Ministério do Interior, onde havia uma imensa fila. A atendente perguntou se pretendia voltar ao Chile e dei a resposta que imaginei a mais correta: “Não”.

Assim que as fronteiras foram abertas, no primeiro de outubro, fui para a Argentina num pequeno autocarro que estava lotado de pessoas. Houve uma operação militar que nos parou. O silêncio era total no autocarro, mas quando cruzamos a fronteira todos gritaram de felicidade.


Adaptação de português do Brasil (PT-BR) para português de Portugal (PT-PT) por Mariana Carneiro.