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“O cansaço é um companhia permanente dos trabalhadores”

Salvo algumas exceções (saúde, telecomunicações, vigilância, etc.) o trabalho por turnos acontece porque o trabalhador é mais barato do que a máquina que ele vai operar. Por Roberto Tavares.
Os trabalhadores de tratamento e distribuição dos CTT queixam-se de não ter tempo para ver os filhos
Os trabalhadores de tratamento e distribuição dos CTT queixam-se de não ter tempo para ver os filhos

Para o caso concreto do tratamento e distribuição de correio, criaram a necessidade junto do cliente de que o correio tem de chegar no dia seguinte. Os turnos servem para que as máquinas de divisão de correio e as ligações rodoviárias não parem durante as 24 horas do dia, originado que existam 57 horários diferentes, existam dias em que os trabalhadores estão 18 horas fora de casa, existam ainda casos em que os trabalhadores e trabalhadoras com algumas limitações físicas são empurrados para estes postos, aumentando assim as dificuldades de deslocação e a estabilidade de que tanto precisariam.

O sono e o cansaço são sempre relatados quando o contacto é feito junto de quem ocupa estes postos de trabalho.

Para Roberto Tavares, "é imprescindível reduzir a carga horária dos turnos"

Em pequenas e simples análises do mundo CTT é fácil verificar que há um maior número de baixas e acidentes de trabalho, assim como reformas antecipadas, nos locais onde existem horários por turnos. Na maioria dos locais de trabalho sem turnos, o trabalho é muito físico e com elevada influência dos perigos externos (clima, trânsito rodoviário, carregar pesos, cães, etc.), ao contrário dos locais de trabalho com turnos, em que na sua grande maioria são em ambiente fechado e com menor influência de fatores externos.

Quebra de laços familiares

Existem ainda socialmente dois problemas detetados na maioria dos trabalhadores e trabalhadoras em trabalhos por turnos: a família e o envolvimento social. A queixa de maior parte dos trabalhadores e trabalhadoras é de não ver os filhos acordados durante a semana e quando vê, é no caminho casa-escola ou vice- versa. O domingo acaba pelas 14/15horas para poder descansar um pouco ou então roubam uma noite de sono nas semanas em que estas começam à segunda- feira pelas 00h00. Há maior quebra de ligação com a família e os amigos porque estão a trabalhar quando os outros descansam e descansam quando os outros trabalham.

Muitos trabalhadores e trabalhadoras têm ainda queixas ao nível dos voluntariados, pela dificuldade em assistir às reuniões e atividades nas entidades onde prestam a sua colaboração cívica (bombeiros, grupos desportivos, associações de pai, entre outros).

É imprescindível que se retire algum tempo de trabalho para descansar e  reduzir a carga horária dos turnos. O ideal nos dias de hoje será as 30 horas para os turnos tendo em atenção que temos de ter a jornada normal nas 35 horas.

Ao nível das justificações médicas, e serviços públicos, alargar o numero de horas, porque se os trabalhadores e trabalhadoras estiverem no centro de saúde ou nas finanças durante o dia é óbvio que não estará em condições para um turno noturno, por vezes sem uma única hora de descanso.

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Roberto Tavares é delegado sindical do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT)

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Resto dossier

Trabalho por turnos: Vidas em contraluz

Dossier organizado por Pedro Ferreira.

Responder aos trabalhadores por turnos: reconhecimento e novos direitos

Dois em cada 10 trabalhadores em Portugal trabalham por turnos e a tendência é que sejam cada vez mais. Por José Soeiro.

Isabel Soares da Silva. Foto do site da Universidade do Minho

Trabalho por turnos (*)

A concepção típica de trabalho por turnos envolve a sucessão de equipas de trabalho de modo a estender o período de laboração, incluindo o seu prolongamento até às 24 horas diárias. Por Isabel Soares da Silva.

O Bloco com a sua iniciativa legislativa pretende pôr fim à proliferação da anarquia na organização do trabalho por turnos. Foto do site trabalhando.pt

Vidas condicionadas

O trabalho por turnos e noturno tem vindo a aumentar e está cada vez mais presente nas organizações laborais. A disputa dos mercados e por novos mercados e a concorrência económica estão a gerar uma brutal competição e disputa mundial. Por José Casimiro.

O cansaço, o stress e o isolamento são alguns dos problemas relacionados com o trabalho por turnos. Foto Anadem

“Vivemos ao contrário dos outros”

Depoimentos de trabalhadores de vários setores que fazem trabalho noturno ou por turnos e que falam dos seus problemas familiares, de saúde e do isolamento social a que ficam sujeitos devido aos horários de laboração.

 

 

O recurso a horários de trabalho organizados em turnos é uma forma cada vez mais utilizada pelas empresas para suprir as suas necessidades produtivas. Foto Pressar

Trabalho por turnos: E agora?

Quando se abordam temas relativos à prestação de trabalho em condições de desgaste rápido, é comum indicar a profissão de mineiro como a mais representativa profissão de desgaste rápido, e isto porque, desde há séculos, que esta é associada a uma taxa de morbilidade e mortalidade muito elevada. Por Filipe.M. Santos.

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Cada vez mais pessoas laboram em regime noturno, por turnos ou até em folgas rotativas

Um dever social indelével

A apresentação potestativa (1) pelo Bloco do seu Projeto de Lei sobre trabalho noturno e por turnos sinaliza a clara escolha de um lado: o Bloco é um partido das e dos trabalhadores. Por Vítor Franco.

"Existem profissões de risco em que o desgaste físico e psicológico passa despercebido a quem dita uma lei em que a idade da reforma é aos 67 anos"

“Enquanto os meus filhos cresciam, eu trabalhava ou dormia”

Num momento em que a idade da reforma aumentou consideravelmente é preciso denunciar casos que passam invisíveis à sensibilidade política e humana. Por Raul Matos.