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No Metro de Lisboa falta tudo

A política de desinvestimento que foi iniciada pelo anterior Governo e a preparação da Empresa para a concessão a privados, levou o Metropolitano a um nível de degradação, nunca antes sentido. Por Pedro Peres.
Foto de Paulete Matos.

E esta, que já foi por diversos anos, considerada a melhor Empresa de Transportes, pelos seus utentes, é hoje, um dos maiores alvos de críticas e de reclamações dos mesmos que a elegeram.

Quando nos perguntam como chegámos aqui, a primeira coisa que me apetece responder, é por incompetência dos nossos governantes, que em vez de defenderem um transporte público de qualidade, defendem cegamente a entrega a privados, com a consequente perseguição do lucro sem se preocuparem com a oferta, o conforto e a segurança dos utentes, em detrimento de investirem numa forte e fiável gestão pública.

Neste momento, no Metro, falta tudo. Faltam meios humanos, pois foram muitos os que foram “convidados” a rescindir os seus contratos de trabalho. Para terem uma ideia, temos menos 50 maquinistas, logo a oferta não pode ser a mesma. Prometeram, em Abril, já com este Governo, a entrada de 30 trabalhadores, para que se pudesse reduzir a falta de maquinistas. Este processo estaria concluído até ao final do ano passado, mas continuamos à espera. Nas áreas da manutenção também faltam as pessoas, os meios e as peças para a manutenção do material circulante, consequência da redução de custos a que obrigaram a Empresa, o que a par com o natural desgaste do material coloca em risco o normal funcionamento do serviço.

Aos trabalhadores falta já a paciência, porque estão cansados, desgastados, passaram por processos muito complicados de mudança, por perseguições, provocações e ameaças e para colmatarem as faltas de pessoal são obrigados a trabalhar mais horas, sem condições, nem meios. Agora estão no seu limite e as administrações continuam a olhar para os números e esquecem-se das pessoas.

Pelos utentes, falta o respeito que eles nos merecem, falta a limpeza das estações e dos comboios, falta a manutenção das escadas rolantes, dos elevadores, faltam comboios e os tempos de espera aumentam, faltam condições na linha verde para se circular com comboios de 6 carruagens, mas, podiam fazê-lo, com comboios de 4 carruagens que já minimizava o impacto. Faltaram os bilhetes nas máquinas, essa situação pelo menos já foi resolvida, mas mais uma vez, foram os trabalhadores que vestiram a camisola da Empresa, para que os impactos negativos fossem amenizados.

Se a isto tudo, juntarmos a expansão da rede (abertura da Reboleira, já concretizada e o prolongamento da linha amarela, prometida pelo Governo), o aumento da procura, em parte como consequência do aumento do turismo, podemos compreender que nem com mais 30 trabalhadores anunciados e ainda não contratados se resolverão todos os problemas que para nós (trabalhadores) e para a população, são urgentes.

Depois, falta ao Governo e às Administrações olhar para as Empresas lembrando-se que elas são feitas das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas, pois só quem tem esta visão das Empresas pode melhorar, inovar, mudar, criar.

No Metro o motor propulsor do comboio serão sempre os trabalhadores e gostávamos que quer o Governo quer os Administradores nunca o esquecessem, pois só assim é possível fazer um bom trabalho.

* Pedro Peres é Membro da Comissão de Trabalhadores do Metropolitano de Lisboa.

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