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Maria Teresa Horta: a censura de “O delator”

"É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.", pode ler-se num parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

O delator (1962)

Maria Teresa Horta publicou a peça O delator na antologia Novíssimo teatro português (1965). Vendo os seus textos impedidos de chegarem ao palco, não raras vezes os autores tentavam guardar o seu repertório textual em livro, fosse para garantir alguma forma de existência das suas criações, fosse para garantir memória futura. Este livro de 1962 é um desses casos e a peça O delator viria a contar com dupla censura: em 1964, o guião da peça viria a ser censurado pela PIDE; em 1965, era o livro Novíssimo teatro português que chegava às mãos do poder censório, contando a peça de Maria Teresa Horta com nova censura. Ainda assim, o texto conseguiu ir a cena duas vezes, no Bairro do Castelo, em Lisboa, por um grupo de amadores. De resto, os efeitos dos mecanismos censórios fizeram-se sentir e a peça foi impedida de ir a cena.

No enredo da peça, um grupo de jovens revolucionários planeia um ataque a um regime autoritário. Acredita-se que há um delator, o que vem a confirmar-se, e essa crença funciona como mote para que sejam discutidos motivos revolucionários, o papel da revolução e o objectivo da revolução, para além do papel do indivíduo, e das suas motivações individuais, dentro desta. Jaime, uma das personagens, respondendo a Miguel, outra das personagens, que afirma ter o direito de escolher com quem luta, afirma:

JAIME

Uma revolução não se faz por desporto, ou heroísmo, Miguel. Na revolução, cada um de nós só conta num conjunto, nunca individualmente. Não se faz o que gostamos, mas o que for melhor para essa revolução. Queres a liberdade, a razão, o direito, apenas para ti? (p. 109)

De facto, Miguel, que vem a ser confirmado como delator, está nos planos revolucionários por amor a Inês, que simboliza a abnegação dos projectos revolucionários, desejando afastá-la de Raimundo. Quando lhe sugere fugirem os dois do país para “um sítio onde não sejam precisas revoluções” (p. 127), esta enfurece-se:

INÊS

(gritando) Eu não quero revoluções para me entreter, nem colaboro com elas por obrigação, amo-as neste país, agora, porque há homens que precisam delas, aqui. Apenas uma e tudo poderia ser diferente... não as provoco sem serem necessárias nem fujo quando é necessário lutar!” (p. 127)

Esta peça, curta (23 páginas), é particularmente incisiva: não só fala da necessidade da revolução para benefício de um povo inteiro, enquanto necessidade histórica de milhares, como ainda mostra que esta não pode ser instrumentalizada, que os interesses individuais não podem sobrepor-se aos colectivos nem podem comprometê-los. A traição à revolução, esta sobreposição dos interesses individuais aos colectivos, é apresentada como algo pérfido, egoísta, auto-centrado, imoral. No final, com a traição de Miguel, a revolução fica comprometida, comprometendo-se o futuro de milhares de pessoas. No mesmo movimento, o seu intento não é cumprido: Inês não lhe perdoa a traição, vira-lhe as costas.

A censura de O delator

Como consta no Processo 7596 no arquivo do SNI/SGE da Torre do Tombo, a peça O delator foi recebida pela PIDE no dia 16 de Junho de 1964. Dias mais tarde, a 6 de Julho de 1964, havia sido proposta uma decisão de proibição:

Ainda que pudesse propor para maiores de 17 anos esta peça, com os cortes indicados no texto a pgs. 13, atentando apenas à sua contextura moral, julgo que se deve notar que se trata de uma revolução social, contra, digo, que não se localiza ou por outra que se evita localizar, e que portanto poderia ser até em Portugal. Depois, … que o diálogo expressa uma linguagem marxista e a9jda q8e 9a ser exibido na Sociedade Musical Fraternidade Operária de Grândola, em meio de trabalhadores rurais onde são frequentes certas agitações sociais. Nestes termos, se bem que considere melhor, a leitura desta peça por outro membro da Comissão, julgo que será melhor reprová-la.

Na página 13, salientada pelo censor literário, foi feito um rectângulo à volta do seguinte excerto:

MIGUEL

Mas então porque não me impedes quanto te beijo?

(Começa a desapertar-lhe o fato.)

MIGUEL

Abre-se como uma concha, assim... quero-te totalmente nua...

(O fato cai, beija-a nos ombros e leva-a para cima do sofá, acariciando-a nos seios.)

A proposta de proibição foi aceite no dia 9 de Julho do mesmo ano, tendo o segundo censor feito o seguinte comentário:

É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.

No dia 11 de Julho de 1964, foi feito um pedido de licença de representação da peça no salão de festas do Grupo Cénico da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Grândola:

Exmo Senhor INSPECTOR CHEFE DOS ESPECTÁCULOS

LISBOA

O Grupo Cénico da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, de Grândola, vem requerer a V. Exa. Se digne conceder-lhe licença de representação no seu salão de festas, da peça de Teatro, original de Maria Teresa Horta, O Delator.

Espera Deferimento

Grândola, 11 de Junho de 1964

Pel'A Direcção

José da Conceição

(Vice-Presidente)

Na mesma data, o pedido foi rejeitado:

1842/64/CV

Exmo. Senhor

Delegado da Inspecção dos Espectáculos

GRANDOLA

A fim de informar o Presidente da Direcção do Grupo Cénico da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, comunico a V. Exª. que a Comissão de Exame e Classificação dos Espectáculos deliberou reprovar a peça “O DELATOR” de Maria Teresa Horta, pelo que a referida peça não pode ser representada.

Junto devolvem-se dois selos fiscais de 5$00 por desnecessários.

Inspecção dos Espectáculos, 11 de Julho de 1964

A Bem da Nação

O INSPECTOR CHEFE

De acordo com o relatório, a parte salientada, da página 13, seria suficiente para que a peça, não sendo proibida, pudesse estar ao alcance de maiores de 17. Contudo, a identificação do seu carácter revolucionário determinou-lhe de imediato a proibição. Para mais, a “linguagem marxista” faria de imediato com que estivesse de estar longe do público e o lugar onde seria representada, a Sociedade Musical Fraternidade Operária de Grândola, reforçava, na perspectiva do censor, intuitos marxistas, já que ali costumava haver “agitações sociais”. Contudo, o censor não fica totalmente convencido da necessidade de proibição da obra, recomendando que esta passe pelas mãos de outro censor, que, como vimos, reitera a necessidade de proibição, considerando O delator “uma peça nitidamente marxista”.

Para saber mais sobre as obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE, clique aqui.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
(...)

Resto dossier

As obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE

Nas últimas semanas, estivemos a olhar para a história da censura literária em Portugal, focando-nos nas obras das autoras que a PIDE censurou. Neste dossier, podemos ver análises de todas essas obras - um total de 21, escritas por 9 autoras. Dossier organizado por Ana Bárbara Pedrosa.

Escritoras portuguesas e Estado Novo: 9 autoras e 21 obras censuradas

No decorrer do Estado Novo, foram censuradas 21 obras de 9 autoras portuguesas. Salta à vista o número reduzido e a variedade de percursos destas obras, que têm ainda valores literários muito diferentes. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Três Marias: a censura de “Novas Cartas Portuguesas”

"Algumas das passagens são francamente chocantes por imorais (...) Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referencia, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução do processo-crime." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “Minha Senhora de Mim” (1971)

"Minha Senhora de Mim (1971) compõe-se de 59 poemas. Neles, a autora usa a forma poética das cantigas de amigo medievais, usando a literatura canónica – e, portanto, a tradição literária – para desafiar um status quo." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “O delator”

"É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.", pode ler-se num parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de "Quem move as árvores" (1970)

"As relações dialógicas são constantes na obra de Fiama: se em O Testamento vimos que vida e peça se confundem, dialogando, em Quem move as árvores há um paralelismo temporal com alcance no passado, entre a época da monarquia e o Estado Novo. Em nenhum dos casos o povo escolhe, o poder é imposto." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de três peças num volume

"Auto da Família, consiste numa versão ou visão desprimorosa e desrespeitosa do Natal de Cristo, apresentando Maria e José como dois criminosos que, depois de terem morto, para os comerem, a vaca e a mula do presépio, abandonam o filho à porta do lavrador, proprietário da estrebaria onde os deixara alojar." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Museu”

O tom absurdista da peça dificulta a sua análise, na medida em que, para além de não haver grandes relações dialógicas até nos próprios diálogos, se torna difícil descortinar as intenções da autora. No entanto, são mostrados dois grupos numa relação conflitual, em que um está submisso ao outro, recebendo acriticamente as suas instruções, viabilizando acontecimentos que servem os interesses do segundo. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Testamento”

"A peça de Pais Brandão sugere que não pode haver espectadores na vida, que toda a gente tem de intervir em tudo o que à vida pública diz respeito, e é por isso que peça e vida se confundem, mostrando a autora que em tudo há relações dialógicas". Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O Encoberto”

"Trata-se do desenvolvimento em estilo de 'paródia' de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de 'Natália Correia', com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar", pode ler-se no relatório da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A Pécora”

Nesta peça, Natália Correia denunciou os poderes da Igreja e a relação estabelecida entre esta e o Estado, assim como o comércio religioso. Ao mesmo tempo, o povo tem consciência do seu poder colectivo. O Estado Novo não gostou. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O vinho e a lira”

"Como a função destes Serviços não é de índole literária não cabe aqui a apreciação do valor literário desta obra que me parece nulo. Todavia há que assinalar as suas intenções e expressões que considero muito más.", pode ler-se no parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de "O Homúnculo"

O Homúnculo contaria com a rápida censura, sendo de imediato apreendida, e, pasme-se, com a admiração de Salazar. No cenário, a autora denuncia ainda os pactos implícitos e explícitos entre os vários poderes que estruturavam a ditadura salazarista. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “O adolescente”

As orelhas da capa do livro faziam propaganda a dois livros proibidos. Assim, a PIDE proibiu também a circulação deste romance. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A comunicação”

Este é um texto em que a autora apresenta uma ambiguidade entre poesia e teatro. A PIDE considerou que “o estilo irreverente e por vezes pornográfico da linguagem em frequentes passagens de algumas das quadras” obrigava à “reprovação da peça”, já que a sua “Indispensável sequência” impossibilitava “quaisquer cortes de saneamento”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Pigalle”

Como em "Falsos Preconceitos", o romance parece inicialmente querer contrastar uma moral retrógrada portuguesa com uma França livre e moderna. Acaba por mostrar uma França imoral, perversa, desta vez palco de negócios de tráfico e redes de prostituição. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Falsos preconceitos”

A PIDE considerou que “dada a imoralidade que o livro revela”, “não é de molde a ser autorizada a sua circulação no País”, e isto apesar de a obra ser de tal forma reaccionária que, afinal, se colocaria ao serviço do que o regime apregoava. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria da Glória: a proibição de “A Magrizela”

Nesta obra, não apenas há muitas situações sexuais como há muitas variantes que hão-de ter sido ainda mais problemáticas para os censores: sexualidade infantil, necrofilia (praticada por crianças), atracção sexual de uma criança pelo pai adoptivo, relações eróticas homossexuais, relações eróticas grupais, várias relações extra-conjugais. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Vinte anos de manicómio!”

O romance não foi censurado assim que foi publicado. É que, "como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.  O livro tem “um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Famintos”

A PIDE censurou a obra “Famintos”, de Carmen de Figueiredo, considerando que esta se “refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: ephemerajpp.com

Maria Archer: a proibição de "Casa sem pão"

"Casa sem pão" (1957) foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE e deu azo não apenas ao processo mais longo sobre qualquer uma das suas obras, mas também ao processo mais longo que tratamos neste dossier. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: cvc.instituto-camoes.pt

Maria Archer: a proibição de "Ida e volta duma caixa de cigarros"

A PIDE censurou a obra "Ida e volta duma caixa de cigarros", de Maria Archer, considerando que este “não atingiu o alcance moral” e que a autora “compraz-se na volúpia do pormenor sensual”. Por Ana Bárbara Pedrosa.