Máquinas de guerra: Blackwater, Monsanto e Bill Gates

O maior exército mercenário do mundo, Blackwater vendeu serviços clandestinos de espionagem à transnacional Monsanto. Artigo de Silvia Ribeiro, La Jornada, publicado em 2010.

23 de março 2014 - 7:52
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Uma informação de Jeremy Scahill publicada em The Nation (Blackwater's Black Ops, 15/9/2010) revelou que o maior exército mercenário do mundo, Blackwater [renomeada, em 2011, Academi] vendeu serviços clandestinos de espionagem à transnacional Monsanto.

A Blackwater mudou de nome em 2009 [e, posteriormente, em 2011], depois de ficar famosa no mundo pelas denúncias sobre os seus abusos no Iraque, incluindo massacre de civis. Continua a ser o maior empreiteiro privado do Departamento de Estado dos Estados Unidos em "serviços de segurança", isto é, para praticar o terrorismo de Estado dando ao governo a possibilidade de o negar.

Muitos militares e ex-oficiais da CIA trabalham para a Blackwater ou alguma das empresas vinculadas que criou para desviar a atenção de sua má fama e gerar mais lucros vendendo os seus nefastos serviços - que vão desde informação e espionagem até à infiltração, intrigas políticas e treino paramilitar - a outros governos, bancos e empresas transnacionais. Segundo Scahill, os negócios com transnacionais - como Monsanto, Chevron, e gigantes financeiros como Barclays e Deutsche Bank - são canalizadas através de duas empresas que são propriedade de Erik Prince, dono de Blackwater: Total Intelligence Solutions e Terrorism Research Center. Estas compartilham oficiais e diretores de Blackwater.

Um deles, Cofer Black, conhecido pela sua brutalidade, sendo um dos diretores da CIA, foi quem fez contacto com a Monsanto em 2008 como diretor da Total Intelligence, marcando o contrato com a companhia, para espiar e infiltrar organizações de ativistas pelos direitos dos animais, contra os transgénicos e outras sujas atividades do gigante biotecnológico.

Contactado por Scahill, o executivo da Monsanto Kevin Wilson negou-se a falar, mas posteriormente confirmou à The Nation que tinham contratado a Total Intelligence em 2008 e 2009, somente para fazer acompanhamento de "informação pública" dos seus opositores. Disse ainda, que a Total Intelligence era uma "entidade totalmente separada de Blackwater".

No entanto, Scahill conta com cópias dos correios eletrónicos de Cofer Black posteriores à reunião com Wilson da Monsanto, onde explica a outros ex agentes da CIA, usando os seus endereços eletrónicos de Blackwater, que a discussão com Wilson foi que Total Intelligence se converteria no "braço de inteligência de Monsanto", espiando ativistas e outras ações, incluído "que os nossos funcionários se integrem legalmente nesses grupos". Monsanto pagou à Total Intelligence 127 mil dólares em 2008 e 105 mil dólares em 2009.

Não admira que uma empresa de "ciências da morte" como a Monsanto, que se dedicou desde as suas origens a produzir tóxicos e espalhar venenos, desde o Agente Laranja até os PCB (policlorobifenilos), agro tóxicos, hormónios e sementes transgénicas, se associe com outra empresa de capangas.

Quase ao mesmo tempo que a publicação deste artigo em The Nation, a Via Campesina denunciou a compra de 500 mil ações da Monsanto, por mais de 23 milhões de dólares pela Fundação Bill e Melinda Gates, que com isto acabou de sacar a sua máscara de "filantrópica". Outra associação que não surpreende.

Trata-se de um casamento entre os dois monopólios mais brutais da história do industrialismo: Bill Gates controla mais de 90 por cento do mercado de programas patenteados de computação e a Monsanto cerca de 90 por cento do mercado mundial de sementes transgénicas e a maioria do mercado global de sementes comerciais. Não existem em nenhum outro rubro industrial monopólios tão vastos, cuja própria existência é uma negação do cacarejado princípio de "concorrência de mercado" do capitalismo. Tanto Gates como Monsanto são muito agressivos na defesa dos seus ilegítimos monopólios.

Ainda que Bill Gates tente dizer que a Fundação não está unida às suas atividades comerciais, tudo o que esta faz demonstra o contrário: grande parte das suas doações acabam por favorecer os investimentos comerciais do magnata, além de que, na realidade, não "doa" nada, mas, em lugar de pagar impostos ao tesouro público, investe os seus lucros onde se vê economicamente favorecido, incluída a propaganda das suas supostas boas intenções. Ao invés, as suas "doações" financiam projetos tão destruidores como a geoengenharia ou a substituição de medicinas naturais e comunitárias por medicamentos patenteados de alta tecnologia nas zonas mais pobres do mundo. Que coincidência, o ex secretário de Saúde Julio Frenk e Ernesto Zedillo são conselheiros da Fundação.

Tal como a Monsanto, Gates dedica-se também a tratar de destruir a agricultura camponesa em todo o planeta, principalmente através da chamada "Aliança para uma Revolução Verde em África" (AGRA). Esta funciona como cavalo de Troia para despojar os camponeses africanos pobres das suas sementes tradicionais, substituindo-as por sementes das empresas primeiro, e finalmente por transgénicos. Para isso, a Fundação contratou em 2006, justamente a Robert Horsch, um diretor de Monsanto. Agora Gates, perspetivando maiores lucros, foi direto à fonte.

Blackwater, Monsanto e Gates são três faces da mesma figura: a máquina de guerra contra o planeta e a maioria da gente que o habita, quer sejam camponeses e camponesas, indígenas, comunidades locais, gente que quer compartilhar informação e conhecimentos ou qualquer outro que não quer estar na égide de lucro e destruição do capitalismo.

 

Fonte: La Jornada.

Tradução: Diário Liberdade.

Publicado em 12 outubro 2010

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