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Kollontai nas memórias de Gromiko: “a primeira mulher embaixadora”

“Mulher inteligente e com uma língua afiada, que sabia debater com habilidade e fazia-o em vários idiomas” assim era invocada a primeira mulher à frente de uma embaixada nas memórias daquele que foi cerca de 30 anos ministro dos Negócios Estrangeiros do regime soviético num documento histórico trazido por Miguel Pereira.
Alexandra Kollontai em 1946.
Alexandra Kollontai em 1946.

Em Espanha a primeira mulher a ser embaixadora foi a socialista Isabel Oyarzabal, em 1936, sob o governo da Frente Popular, no tempo da República.

Nos Estados Unidos da América só em 1949 é que uma mulher assumiu essa função: Eugenie Anderson.

Em França aconteceu só em 1972, com Marcelle Campana.

E em Portugal uma coisa dessas só foi possível depois do 25 de Abril, quando Maria de Lourdes Pintasilgo foi nomeada embaixadora junto da UNESCO – em 1975.

Pois antes delas todas, a primeira foi Alexandra Kollontai, em 1923, como embaixadora da URSS na Noruega. Numa altura em que muitos governos ainda não reconheciam a URSS.

Aliás, em 1926, quando o México estabeleceu relações diplomáticas com a URSS, foi Kollontai que para lá seguiu como embaixadora, conseguindo colocar as relações dos dois países numa “tendência ascendente que continuou desde então” - segundo sublinharia mais tarde Andrei Gromiko (ministro dos negócios estrangeiros da URSS entre 1957 e 1985).1

Na Suécia, país neutral, Kollontai foi uma embaixadora em tempo de guerra – a 2ª Guerra Mundial.

Andrei Gromiko ainda a conheceu pessoalmente, já no final da vida dela. Convívio que recordaria mais tarde, no seu livro de Memórias:

Sublinhando que Kollontai havia sido “a primeira mulher no mundo a ser embaixadora”, Gromiko, considerou que “ela teve um sucesso notável, tendo em conta que nem todos os países se conseguiam acostumar à ideia de ter na sua capital a embaixada de uma grande nação socialista”. Mas lá se habituaram, mudança que, a seu ver, “foi facilitada pelo facto de a União Soviética ser representada por uma mulher, ainda por cima uma mulher que conhecera Lenine. Mulher inteligente e com uma língua afiada, que sabia debater com habilidade, e fazia-o em vários idiomas”.

Conhecia-a em Moscovo, por volta de 1949-50”, recordava Gromiko. “Ela estava doente, paralisada e numa cadeira de rodas. A minha família e eu estávamos alojados no mesmo sanatório que ela, e demo-nos muito bem”. Para, “um homem então relativamente novo, na casa dos quarenta, ela representava a história viva da revolução, uma lutadora do partido que tinha falado e trocado correspondência com Lenine, e só por isso já impunha respeito”.

Kollontai já seria “então uma pálida sombra da sua antiga exuberância”, mas Gromiko recordava particularmente uma conversa: “perguntei-lhe acerca do México mas não disse muito do seu trabalho por lá: era mais faladora acerca do seu tempo na Suécia, onde tinha estado os últimos quinze anos”.

Segundo Gromiko, Kollontai falou assim:

Imagine, Andrei Andreevich, cheguei a ser declarada persona non grata na Suécia e expulsa pela polícia. Aconteceu antes da revolução, quando o nosso partido ainda estava na clandestinidade e os sociais-democratas russos eram temidos como uma praga em algumas capitais.

Mas os anos passaram e subitamente o governo soviético estava a pedir a aprovação como embaixadora da mesma Kollontai que tinha sido expulsa de Estocolmo. Ou os suecos já não se lembravam do meu nome, ou pensavam que se tratava de outra pessoa, ou sabiam perfeitamente bem mas não queriam prejudicar as suas relações com a União Soviética por minha causa. Não sei. Provavelmente por este último motivo, mas de qualquer modo, deram a sua aprovação e lá estava eu sendo recebida pelo rei, pelo primeiro-ministro e pelo ministro dos negócios estrangeiros.

Falei-lhes muitas vezes para não deixarem que as frequentes provocações nazis os levassem a quebrar a sua neutralidade. E nunca deixei de pensar no nosso povo, morrendo, ali do outro lado do Báltico...”2

Por Miguel Pereira.

Notas:

1Gromyko, Andrei (1990), Memoirs, New York: Doubleday, p. 266

2ibidem, pp. 313/4

(...)

Neste dossier:

150 anos de Alexandra Kollontai

Primeira mulher a dirigir um ministério no mundo após a revolução russa, dirigiu a Oposição Operária e mais tarde ficou em silêncio durante o estalinismo. Foi também a primeira mulher a ser embaixadora. As suas ideias sobre feminismo, sexualidade e amor ainda são discutidas ardentemente. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Alexandra Kollontai.

Alexandra Kollontai: revolução, feminismo, amor e liberdade

Revolucionária aguerrida, interessou-se por problemas como a revolução da vida quotidiana e dos hábitos, a luta contra a opressão das mulheres, a construção de uma nova moral e relação entre sexos. Desprezada e adorada na sua época, a sua elegância lendária encontra-se no seu pensamento e nos seus escritos. Por Patricia Latour.

As mulheres de 1917

As mulheres não foram apenas a “centelha” da Revolução Russa, mas a força motriz que a impulsionou. Por Megan Trudell.

Marcha de mulheres em Petrogrado em 1917.

Uma celebração militante, por Alexandra Kollontai

O Dia Internacional da Mulher é um dia de solidariedade internacional e um dia para rever a força e organização das mulheres proletárias. Artigo de Alexandra Kollontai, escrito em 1920.

Alexandra Kollontai.

Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada: Os anos da revolução

Kollontai lembra o período que imediatamente anterior à revolução de Outubro até ao que se seguiu à sua saída do governo: “as minhas ideias sobre sexo e moral, foram amargamente combatidas por muitos camaradas do partido de ambos os sexos, assim foram ainda outras diferenças de opinião a respeito dos princípios políticos”.

Kollontai, Comissária do Povo para a Proteção Social numa revolução feminista

O primeiro governo bolchevique afirmou o desejo de criar uma rede de creches, jardins de infância, lavandarias e cantinas para libertar as mulheres das tarefas domésticas. Decidiu a não ingerência do Estado nas relações sexuais entre os indivíduos e aboliu as penas de prisão por homossexualidade. Por Jean-Jacques Marie.

Performance de estudantes na noite do livro. Por Varvara Stepanova.

A revolução russa e o sexo

A política sexual dos bolcheviques iniciais é um legado rico. O amor-camaradagem de Kollontai traz-nos um ideal de “liberdade completa, igualdade e amizade genuína”. A sua visão de uma sexualidade livre pressupunha uma infraestrutura socializada abrangente que libertasse as mulheres do trabalho doméstico. Por Peter Drucker.

Imagem do filme Reds.

Romance revolucionário

Porque é que prazeres extravagantes e sentimentos intensos deveriam ficar reservados apenas para a burguesia pergunta Hannah Proctor a propósito da conceção de amor Kollontai. Um sentimento que a revolucionária russa pensava poder revelar “novas facetas de emoção que possuem beleza, força e esplendor sem precedentes”.

Cartaz dos irmãos Stenberg.

Luzes e sombras da contribuição de Alexandra Kollontai para a libertação das mulheres

A partir das Conferências de 1921 na Universidade Sverdlov, Jacqueline Heinen avalia forças e fraquezas do pensamento de Kollontai. Isto não implica subestimar a importância do seu combate porque de todos os dirigentes revolucionários do princípio do século foi quem nos legou a obra mais rica sobre a questão das mulheres.

Alexandra Kollontai.

Alexandra Kollontai, de revolucionária a estalinista

António Louçã analisa as contradições da vida da revolucionária e faz um balanço crítico das várias metamorfoses da sua atividade política desde os tempos antes da revolução de Outubro até ao período em que se torna embaixadora.

Kollontai e a Oposição Operária

Mais conhecida pela sua intervenção no debate sobre a “questão das mulheres” e pela sua ação feminista, Kollontai foi também uma das dirigentes de uma corrente minoritária no seu partido tendo protagonizado um dos debates centrais da política soviética no início dos anos vinte, o “debate sindical”.

Alexandra Kollontai em 1946.

Kollontai nas memórias de Gromiko: “a primeira mulher embaixadora”

“Mulher inteligente e com uma língua afiada, que sabia debater com habilidade e fazia-o em vários idiomas” assim era invocada a primeira mulher à frente de uma embaixada nas memórias daquele que foi cerca de 30 anos ministro dos Negócios Estrangeiros do regime soviético num documento histórico trazido por Miguel Pereira.

Kollontai e Jaime Brasil.

Kollontai na obra de Jaime Brasil (1932)

O ex-secretário-geral dos Profissionais de Imprensa de Lisboa foi uma das primeiras pessoas em Portugal a prestar atenção atenção à obra de Kollontai no âmbito da sua intervenção em defesa da educação sexual.

Capa da tradução portuguesa do livro de Kollontai.

Prefácio a Kollontai, de Ferreira de Castro

Em 1933, a primeira edição portuguesa conhecida de uma obra de Kollontai foi prefaciada por um dos maiores escritores portugueses da época, José Ferreira de Castro. Divulgamos aqui esse documento histórico na íntegra.