Kollontai na obra de Jaime Brasil (1932)

O ex-secretário-geral dos Profissionais de Imprensa de Lisboa foi uma das primeiras pessoas em Portugal a prestar atenção atenção à obra de Kollontai no âmbito da sua intervenção em defesa da educação sexual.

27 de março 2022 - 20:20
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Kollontai e Jaime Brasil.

Nota introdutória: A partir de uma conferência que realizou na Universidade Popular Portuguesa, em 1931, Jaime Brasil desenvolveu uma importante intervenção em prol da educação sexual, publicando no espaço de apenas dois anos um total de cinco livros sobre a matéria e prefaciando ainda mais um outro volume sobre Liberdade sexual das mulheres.

No contexto do Portugal da época, foi uma intervenção bastante inovadora.

Jaime Brasil era um anarquista, tinha colaborado no jornal sindicalista A Batalha e tinha sido secretário-geral do Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa.

Viria a colaborar também no jornal O Diabo e a ser preso político antifascista.

O texto que se segue é um excerto do seu livro A questão sexual, publicado em Lisboa, em 1932, pela Casa Editora Nunes de Carvalho. Nele. Jaime Brasil divulgou e comentou o pensamento de Alexandra Kollontai (pags. 466/469).

 

Vemos mulheres perfeitamente integradas na ideologia marxista, embora por vezes, em desacordo com os dirigentes soviéticos – como Alexandra Kollontai, a grande pensadora russa tão caluniada por uns homúnculos que nunca leram as suas obras – escrever, num ensaio sobre o amor na sociedade comunista:

“A nova sociedade comunista é edificada sobre o princípio da camaradagem, da solidariedade. Que é, porém, a solidariedade? Não devemos entender somente, por solidariedade a consciência da comunidade de interesses; a solidariedade é constituída também pelos laços sentimentais e espirituais, estabelecidos entre os componentes duma colectividade trabalhadora. O regime social edificado sobre princípios da solidariedade e da colaboração exige, sem dúvida, que a sociedade em questão possua, desenvolvida em alto grau, a capacidade de potencial de amor, isto é, a capacidade para as sensações de simpatia.

Se estas sensações faltam, o sentimento de camaradagem não podem consolidar-se. Por isto, procura a ideologia proletária educar e reforçar em cada um dos membros da classe operária sentimentos de simpatia, ante os sofrimentos e as necessidades dos seus camaradas de classe. Também tende a ideologia proletária a compreender as aspirações dos demais e a desenvolver a consciência da sua união com os outros membros da colectividade. Todas estas «sensações de simpatia», delicadeza, sensibilidade, afecto, derivam duma fonte comum: da capacidade para amar, não de amor num sentido propriamente sexual, mas do amor no sentido mais amplo da palavra”.

A escritora revolucionária distingue o amor físico – «Eros sem asas» – desse amor ideal e pleno, e aconselha o proletariado a não se enfeudar ao primeiro, para poder atingir o segundo. A propósito escreve: «A hipocrisia moral da cultura burguesa que obrigava o deus Eros a visitar, apenas, os «pares unidos legalmente», arrancava-lhe sem piedade as penas mais belas das suas asas de brilhantes cores. Fora do matrimónio só podia existir, para a ideologia burguesa, o Eros sem asas, o Eros despojado das suas plumas vivamente coloridas: a atracção passageira entre os sexos, sob a forma de carícias compradas (prostituição) ou de carícias roubadas (adultério).

“A moral da classe operária, pelo contrário, repele, francamente, a forma exterior que estabelece as relações de amor entre os sexos. Para o conseguimento das tarefas do proletariado é completamente igual que o amor tome a forma duma união estável ou que não tenha mais importância do que a duma união passageira. A ideologia da classe operária não pode fixar limites formais ao amor.

Noutro passo acrescenta:

“O ideal do amor-camaradagem, forjado pela ideologia proletária para substituir o «exclusivo» e «absorvente» amor conjugal da moral burguesa, baseia-se no reconhecimento de direitos recíprocos, na arte de saber respeitar, inclusive no amor, a personalidade do outro, num firme apoio mútuo e na comunidade das aspirações colectivas”.

Considera Alexandra Kollontai o amor-camaradagem necessário para o período de transição em que se vive e estabelece para ele as seguintes condições:

“1ª – Igualdade nas relações mútuas, quer dizer, desaparecimento da suficiência masculina e da servil submissão da individualidade da mulher no amor;

2ª – reconhecimento mútuo e recíproco dos direitos de cada um, sem pretender nenhum dos seres, unidos por relações de amor, a posse absoluta de coração e da alma do ser amado (desaparição do sentimento de propriedade fomentado pela civilização burguesa);

3ª – Sensibilidade fraternal, ou seja a arte de assimilar e compreender o trabalho psíquico, que se realiza na alma do ser amado (a civilização burguesa só exigia que possuísse esta sensibilidade no amor, a mulher).

Conclui:

“A tarefa da ideologia proletária não é, pois, separar das suas relações sociais o «Eros alado». Consiste simplesmente em encher o seu carcaz de novas flechas; consiste em fazer que se desenvolva o sentimento do amor entre os sexos, baseado na mais poderosa força psíquica nova: a solidariedade fraternal”.

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