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Kollontai na obra de Jaime Brasil (1932)

O ex-secretário-geral dos Profissionais de Imprensa de Lisboa foi uma das primeiras pessoas em Portugal a prestar atenção atenção à obra de Kollontai no âmbito da sua intervenção em defesa da educação sexual.
Kollontai e Jaime Brasil.
Kollontai e Jaime Brasil.

Nota introdutória: A partir de uma conferência que realizou na Universidade Popular Portuguesa, em 1931, Jaime Brasil desenvolveu uma importante intervenção em prol da educação sexual, publicando no espaço de apenas dois anos um total de cinco livros sobre a matéria e prefaciando ainda mais um outro volume sobre Liberdade sexual das mulheres.

No contexto do Portugal da época, foi uma intervenção bastante inovadora.

Jaime Brasil era um anarquista, tinha colaborado no jornal sindicalista A Batalha e tinha sido secretário-geral do Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa.

Viria a colaborar também no jornal O Diabo e a ser preso político antifascista.

O texto que se segue é um excerto do seu livro A questão sexual, publicado em Lisboa, em 1932, pela Casa Editora Nunes de Carvalho. Nele. Jaime Brasil divulgou e comentou o pensamento de Alexandra Kollontai (pags. 466/469).

 

Vemos mulheres perfeitamente integradas na ideologia marxista, embora por vezes, em desacordo com os dirigentes soviéticos – como Alexandra Kollontai, a grande pensadora russa tão caluniada por uns homúnculos que nunca leram as suas obras – escrever, num ensaio sobre o amor na sociedade comunista:

“A nova sociedade comunista é edificada sobre o princípio da camaradagem, da solidariedade. Que é, porém, a solidariedade? Não devemos entender somente, por solidariedade a consciência da comunidade de interesses; a solidariedade é constituída também pelos laços sentimentais e espirituais, estabelecidos entre os componentes duma colectividade trabalhadora. O regime social edificado sobre princípios da solidariedade e da colaboração exige, sem dúvida, que a sociedade em questão possua, desenvolvida em alto grau, a capacidade de potencial de amor, isto é, a capacidade para as sensações de simpatia.

Se estas sensações faltam, o sentimento de camaradagem não podem consolidar-se. Por isto, procura a ideologia proletária educar e reforçar em cada um dos membros da classe operária sentimentos de simpatia, ante os sofrimentos e as necessidades dos seus camaradas de classe. Também tende a ideologia proletária a compreender as aspirações dos demais e a desenvolver a consciência da sua união com os outros membros da colectividade. Todas estas «sensações de simpatia», delicadeza, sensibilidade, afecto, derivam duma fonte comum: da capacidade para amar, não de amor num sentido propriamente sexual, mas do amor no sentido mais amplo da palavra”.

A escritora revolucionária distingue o amor físico – «Eros sem asas» – desse amor ideal e pleno, e aconselha o proletariado a não se enfeudar ao primeiro, para poder atingir o segundo. A propósito escreve: «A hipocrisia moral da cultura burguesa que obrigava o deus Eros a visitar, apenas, os «pares unidos legalmente», arrancava-lhe sem piedade as penas mais belas das suas asas de brilhantes cores. Fora do matrimónio só podia existir, para a ideologia burguesa, o Eros sem asas, o Eros despojado das suas plumas vivamente coloridas: a atracção passageira entre os sexos, sob a forma de carícias compradas (prostituição) ou de carícias roubadas (adultério).

“A moral da classe operária, pelo contrário, repele, francamente, a forma exterior que estabelece as relações de amor entre os sexos. Para o conseguimento das tarefas do proletariado é completamente igual que o amor tome a forma duma união estável ou que não tenha mais importância do que a duma união passageira. A ideologia da classe operária não pode fixar limites formais ao amor.

Noutro passo acrescenta:

“O ideal do amor-camaradagem, forjado pela ideologia proletária para substituir o «exclusivo» e «absorvente» amor conjugal da moral burguesa, baseia-se no reconhecimento de direitos recíprocos, na arte de saber respeitar, inclusive no amor, a personalidade do outro, num firme apoio mútuo e na comunidade das aspirações colectivas”.

Considera Alexandra Kollontai o amor-camaradagem necessário para o período de transição em que se vive e estabelece para ele as seguintes condições:

“1ª – Igualdade nas relações mútuas, quer dizer, desaparecimento da suficiência masculina e da servil submissão da individualidade da mulher no amor;

2ª – reconhecimento mútuo e recíproco dos direitos de cada um, sem pretender nenhum dos seres, unidos por relações de amor, a posse absoluta de coração e da alma do ser amado (desaparição do sentimento de propriedade fomentado pela civilização burguesa);

3ª – Sensibilidade fraternal, ou seja a arte de assimilar e compreender o trabalho psíquico, que se realiza na alma do ser amado (a civilização burguesa só exigia que possuísse esta sensibilidade no amor, a mulher).

Conclui:

“A tarefa da ideologia proletária não é, pois, separar das suas relações sociais o «Eros alado». Consiste simplesmente em encher o seu carcaz de novas flechas; consiste em fazer que se desenvolva o sentimento do amor entre os sexos, baseado na mais poderosa força psíquica nova: a solidariedade fraternal”.

(...)

Neste dossier:

150 anos de Alexandra Kollontai

Primeira mulher a dirigir um ministério no mundo após a revolução russa, dirigiu a Oposição Operária e mais tarde ficou em silêncio durante o estalinismo. Foi também a primeira mulher a ser embaixadora. As suas ideias sobre feminismo, sexualidade e amor ainda são discutidas ardentemente. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Alexandra Kollontai.

Alexandra Kollontai: revolução, feminismo, amor e liberdade

Revolucionária aguerrida, interessou-se por problemas como a revolução da vida quotidiana e dos hábitos, a luta contra a opressão das mulheres, a construção de uma nova moral e relação entre sexos. Desprezada e adorada na sua época, a sua elegância lendária encontra-se no seu pensamento e nos seus escritos. Por Patricia Latour.

As mulheres de 1917

As mulheres não foram apenas a “centelha” da Revolução Russa, mas a força motriz que a impulsionou. Por Megan Trudell.

Marcha de mulheres em Petrogrado em 1917.

Uma celebração militante, por Alexandra Kollontai

O Dia Internacional da Mulher é um dia de solidariedade internacional e um dia para rever a força e organização das mulheres proletárias. Artigo de Alexandra Kollontai, escrito em 1920.

Alexandra Kollontai.

Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada: Os anos da revolução

Kollontai lembra o período que imediatamente anterior à revolução de Outubro até ao que se seguiu à sua saída do governo: “as minhas ideias sobre sexo e moral, foram amargamente combatidas por muitos camaradas do partido de ambos os sexos, assim foram ainda outras diferenças de opinião a respeito dos princípios políticos”.

Kollontai, Comissária do Povo para a Proteção Social numa revolução feminista

O primeiro governo bolchevique afirmou o desejo de criar uma rede de creches, jardins de infância, lavandarias e cantinas para libertar as mulheres das tarefas domésticas. Decidiu a não ingerência do Estado nas relações sexuais entre os indivíduos e aboliu as penas de prisão por homossexualidade. Por Jean-Jacques Marie.

Performance de estudantes na noite do livro. Por Varvara Stepanova.

A revolução russa e o sexo

A política sexual dos bolcheviques iniciais é um legado rico. O amor-camaradagem de Kollontai traz-nos um ideal de “liberdade completa, igualdade e amizade genuína”. A sua visão de uma sexualidade livre pressupunha uma infraestrutura socializada abrangente que libertasse as mulheres do trabalho doméstico. Por Peter Drucker.

Imagem do filme Reds.

Romance revolucionário

Porque é que prazeres extravagantes e sentimentos intensos deveriam ficar reservados apenas para a burguesia pergunta Hannah Proctor a propósito da conceção de amor Kollontai. Um sentimento que a revolucionária russa pensava poder revelar “novas facetas de emoção que possuem beleza, força e esplendor sem precedentes”.

Cartaz dos irmãos Stenberg.

Luzes e sombras da contribuição de Alexandra Kollontai para a libertação das mulheres

A partir das Conferências de 1921 na Universidade Sverdlov, Jacqueline Heinen avalia forças e fraquezas do pensamento de Kollontai. Isto não implica subestimar a importância do seu combate porque de todos os dirigentes revolucionários do princípio do século foi quem nos legou a obra mais rica sobre a questão das mulheres.

Alexandra Kollontai.

Alexandra Kollontai, de revolucionária a estalinista

António Louçã analisa as contradições da vida da revolucionária e faz um balanço crítico das várias metamorfoses da sua atividade política desde os tempos antes da revolução de Outubro até ao período em que se torna embaixadora.

Kollontai e a Oposição Operária

Mais conhecida pela sua intervenção no debate sobre a “questão das mulheres” e pela sua ação feminista, Kollontai foi também uma das dirigentes de uma corrente minoritária no seu partido tendo protagonizado um dos debates centrais da política soviética no início dos anos vinte, o “debate sindical”.

Alexandra Kollontai em 1946.

Kollontai nas memórias de Gromiko: “a primeira mulher embaixadora”

“Mulher inteligente e com uma língua afiada, que sabia debater com habilidade e fazia-o em vários idiomas” assim era invocada a primeira mulher à frente de uma embaixada nas memórias daquele que foi cerca de 30 anos ministro dos Negócios Estrangeiros do regime soviético num documento histórico trazido por Miguel Pereira.

Kollontai e Jaime Brasil.

Kollontai na obra de Jaime Brasil (1932)

O ex-secretário-geral dos Profissionais de Imprensa de Lisboa foi uma das primeiras pessoas em Portugal a prestar atenção atenção à obra de Kollontai no âmbito da sua intervenção em defesa da educação sexual.

Capa da tradução portuguesa do livro de Kollontai.

Prefácio a Kollontai, de Ferreira de Castro

Em 1933, a primeira edição portuguesa conhecida de uma obra de Kollontai foi prefaciada por um dos maiores escritores portugueses da época, José Ferreira de Castro. Divulgamos aqui esse documento histórico na íntegra.