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Islândia, Winsconsin: Outra rebelião é possível

Os meios de comunicação ao serviço das plutocracias europeias estão a silenciar os movimentos de rebelião contra os poderes financeiros que estão a insurgir-se no seio das sociedades do Norte: na Islândia e no Wisconsin. Por José Antonio Pérez/ATTAC Madrid.
Foto LUSA/EPA/S Olafs

Albert Camus, Nobel da Literatura (1957), definiu rebelião como “o acto do homem informado que reflecte a consciência dos seus direitos”. Mas os meios de comunicação ao serviço das plutocracias europeias estão a silenciar os movimentos de rebelião contra os poderes financeiros que estão a insurgir-se no seio das sociedades do Norte: na Islândia e no Wisconsin. Não convém informar as pessoas, não vá acontecer que tomem consciência dos seus direitos e sigam o exemplo.

Em matéria de rebeliões contemporâneas, a atenção dos meios de comunicação centra-se nos acontecimentos, sem dúvida significativos, que estão a ocorrer nos países árabes, principalmente naqueles situados no Norte de África. No entanto, há outras rebeliões no seio do Primeiro Mundo que têm sido convenientemente silenciadas pelos média ao serviço das plutocracias europeias. Não convém que se siga o exemplo.

Islândia: A revolução silenciada

É a revolução da Islândia, a qual provocou a demissão do governo em bloco, a nacionalização da banca, o referendo para que povo decida sobre as decisões económicas transcendentais, a prisão dos responsáveis da crise, a revisão da constituição por todos os cidadãos e um projecto de blindagem da liberdade de informação e de expressão.

Não se falou sobre nada disto nos meios de comunicação europeus, nem nas repugnantes tertúlias radiofónicas de politiqueiros de meia tigela e de mercenários da informação. Deve ser por não interessar que um povo colha os frutos da sua soberania e faça frente ao cerco neoliberal, enquanto em Espanha a consequência da crise é um processo de socialização das perdas com cortes sociais, como o das pensões, e precarização das condições laborais. Em grandes rasgos, estes são os dados essenciais do processo que vive a Islândia:

No final de 2008, os efeitos da crise na economia islandesa são devastadores. Em Outubro, nacionaliza-se o principal banco do país, o Landsbanki. O governo britânico congela todos os activos da sua subsidiária IceSave, com 300 mil clientes britânicos e 910 milhões de euros investidos por administrações locais e entidades públicas do Reino Unido. Ao Landsbanki seguiram-se outros dois bancos principais, o Kaupthing e o Glitnir. Os seus principais clientes estão naquele país e na Holanda, clientes a quem os Estados têm de reembolsar as suas poupanças através de 3 700 milhões de euros de dinheiro público. Portanto, o conjunto das dívidas bancárias da Islândia corresponde a várias vezes o seu PIB. Por outro lado, a sua moeda desaba e a bolsa suspende a sua actividade depois de uma queda de 76%. O país está na bancarrota.

O governo solicita oficialmente ao Fundo Monetário Internacional (FMI) a aprovação de um empréstimo de 2 100 milhões de dólares, complementado por outros 2 500 milhões de alguns países nórdicos.

Os protestos cívicos em frente ao parlamento de Reykjavik vão aumentando. No dia 23 de Janeiro de 2009, convocam-se eleições antecipadas e três dias depois, as manifestações já são multitudinárias e provocam a demissão do primeiro-ministro, o conservador Geir H. Haarden, e de todo o seu governo em bloco. É o primeiro governo (e o único que eu saiba) que cai vítima da crise mundial.

No dia 25 de Abril, celebram-se eleições gerais das quais sai um governo de coligação formado pela Aliança Social-Democrata e pelo Movimento da Esquerda Verde, encabeçado pela no primeira-ministra Jóhanna Sigurðardóttir.

Ao longo de 2009 continua a péssima situação económica do país e ano encerra com uma caída do PIB de 7%.

Mediante uma lei amplamente discutida no parlamento propõe-se a devolução da dívida à Grã-Bertanha e à Holanda mediante o pagamento de 3 500 milhões de euros, soma que pagarão mensalmente todas as famílias islandesas durante os próximos 15 anos a 5,5% de juro. O povo volta para as ruas e solicita um referendo sobre a lei. Em Janeiro de 2010, o Presidente Ólafur Ragnar Grímsson, nega-se a ratificá-la e anuncia que haverá consulta popular.

Em Março celebra-se o referendo e o NÃO ao pagamento da dúvida é ganhador com 93% dos votos. A revolução islandesa consegue uma nova vitória de forma pacífica.

O FMI congela as ajudas económicas à Islândia à espera de que se resolva a devolução da dívida.

Depois de tudo isto, o governo iniciou uma investigação para apurar juridicamente as responsabilidades da crise. Começaram as detenções de vários banqueiros e altos executivos. A Interpol emitiu um mandato internacional de captura contra o ex-presidente do Kaupthing, Sigurdur e Einarsson.

Neste contexto de crise, elegeu-se uma assembleia constituinte no passado mês de Novembro para se redigir uma nova constituição que acolha as lições aprendidas com a crise e que substitua a actual que é uma cópia da constituição dinamarquesa. Para isso recorreu-se directamente ao povo soberano. Elegeram-se 25 cidadãos sem filiação política dos 522 que apresentaram candidatura, para a qual só era necessário ser maior de idade e ter o apoio de 30 pessoas. A assembleia constitucional iniciará o seu trabalho em Fevereiro de 2011 e apresentará um projecto de magna carta a partir das recomendações acordadas entre as diferentes assembleias que se realizarão por todo o país. Deverá ser aprovada pelo Parlamento actual e por aquele que se constitua nas próximas eleições.

Silenciada por praticamente a totalidade dos média, a informação que reproduzimos aqui está no blogue nosinmibici.com onde pode ampliar-se a informação, tanto da breve história da revolução islandesa, como das características do país que foi percorrido em bicicleta pelo autor do blogue.

O Winsconsin rebela-se contra a precariedade social

No passado dia 15 de Fevereiro, milhares de manifestantes saíram à rua na capital do Estado do Wisconsin para protestar contra um dos planos de cortes público mais agressivos e amparado pelo dogma da redução do défice. No dia 16, milhares de pessoas ocuparam o Capitólio da cidade de Madison, um feito histórico sem precedentes próximos tanto nos EUA como na Europa. Scott Walker, governador republicano desse Estado, lançou uma lei que piora os já precários seguros médicos do trabalhadores públicos, cortando as suas pensões e limitando os direitos de negociação colectiva a questões estritamente salariais, cerceando a capacidade de negociação dos sindicatos. Da mesma forma, liquida o direito de organização sindical e paritária para os funcionários públicos. Por último, o governador anunciou o despedimento imediato de 1 500 trabalhadores do sector público e outros 12 000 no sector educativo durante os próximos anos. Os professores estão em greve.

Desde então, sucedem-se manifestações diárias nos EUA, tanto no Wisconsin como em outros catorze Estados onde se tenta aplicar as mesmas medidas neoliberais. No Ohio, a votação de uma lei semelhante é iminente. Ali, milhares de manifestantes protestam em frente ao Capitólio da capital. No Indiana também se ocupou a sede governamental.

Após a aprovação da lei em 26 de Fevereiro, mais de cem mil pessoas concentraram-se em Madison sendo o maior número em 11 dias de manifestações. A polícia desobedeceu, nesse mesmo dia, à ordem do governador Scott Walker de desalojar centenas de activistas sindicais, trabalhadores públicos e estudantes que ocupam o interior da sede do governo de Madison. Entretanto, continuam as concentrações pacíficas em Nova Iorque, Chicago, Columbus, Los Angeles e Denver, entre outras cidades. Dezenas de milhares de pessoas continuam a protestar na rua em solidariedade por todos o país.


Artigo de José Antonio Pérez - ATTAC Madrid. Tradução de Sofia Gomes

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