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“As pessoas não devem ter de pagar pelas loucuras dos bancos”

“A Europa não enfrenta só uma crise económica: esta é uma crise política. Os Governos não podem continuar a arrastar-se atrás dos mercados”. Entrevista a Ólafur Ragnar Grímsson, Presidente da Islândia. Por Claudi Pérez/El País.
Ólafur Ragnar Grímsson, Presidente da Islândia. Foto Wikimedia Commons.

Persona é um velho vocábulo que significa máscara. As diversas máscaras deste homem alto e forte que é Ólafur Ragnar Grímsson (Isafjodur, 1943) não deixam ninguém indiferente. O presidente da Islândia provoca grandes adesões (está há 15 anos no cargo), mas também a oposição cerrada de uma parte dos islandeses. Grímsson, que foi politólogo, líder socialista e até editor de jornais, desempenhou um papel extraordinário durante a crise. Apesar de ser visto como uma figura decorativa, recusou-se por duas vezes a sancionar uma lei que obriga os islandeses a pagamentos ao Reino Unido e à Holanda pela falência de um dos seus bancos, no denominado caso Icesave.

“Grímsson foi fundamental para evitar que Icesave se transformasse numa condenação para uma geração de islandeses, pelo menos”, garante o economista Jon Danielsson. Mas esta é uma região de extremos, tal como a sua gente. Guderburg Bergsson, um dos gigantes da literatura islandesa, atribui-lhe “grande parte da culpa” do pesadelo dos últimos anos devido a algumas dessas máscaras. “Grímsson virou a casaca várias vezes, perdeu-a e arranjou outra que voltou a perder por ser oportunista. E imediatamente arranjou mais uma. Os seus anos na presidência são o reflexo de uma nação parecida com ele, confusa e isolada”, ataca.

Grímsson recebe o El País em sua casa, numa biblioteca luminosa – talvez devido às janelas enormes, talvez aos muitos livros de poesia que se amontoam nas prateleiras – e, antes de pôr o gravador a trabalhar, interessa-se por Espanha e Portugal, cujo primeiro-ministro, José Sócrates, acusado por alguns de “socialista neoliberal”. O presidente arranca com uma sentença que, com ligeiras variações, repetirá algumas vezes ao longo da entrevista: “A Europa não enfrenta só uma crise económica: esta é uma crise política. Os Governos não podem continuar a arrastar-se atrás dos mercados”.

Relativamente a Icesave, não parece disposto a dar o braço a torcer. Não estará a assumir um papel que não lhe corresponde?

Até agora não tinha sido usada essa prerrogativa, mas vivemos tempos de grandes desafios. O que é fundamental é que a Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro, e que esta não é apenas uma crise económica: é uma crise política. Uma das razões pelas quais a Islândia está a recuperar rapidamente é a formidável resposta democrática, e não só financeira, que o país está a dar. Os islandeses provocaram uma mudança de Governo, activaram uma investigação e vão mudar a Constituição. Os referendos inscrevem-se nessa vaga. As anteriores condições de pagamento eram muito injustas. As novas são melhores, mas se os islandeses vão ter de suportar uma dívida dos seus bancos devem ter o direito de decidir.

Há dois anos o euro parecia um paraíso para divisas pequenas como a coroa. Agora o vento mudou e, mesmo assim, o Governo quer que a Islândia entre na UE. E o senhor?

Os recursos energéticos, a pesca, o turismo, tudo isso foi fundamental para sairmos da crise; as divisas também o foram. A forte desvalorização é um paradoxo: por um lado ficamos mais pobres mas, por outro, aumenta a competitividade da indústria.

Com o euro, essa vantagem desapareceria.

É evidente que a moeda foi parte da solução e que a Grécia e a Irlanda não tiveram esse recurso. Mas a conveniência ou não da entrada na UE dependerá das negociações. Verifica-se uma contradição interessante: as sondagens revelam que uma maioria deseja que as negociações continuem. E uma maioria ainda mais esmagadora está contra esta entrada.

A Islândia deixou cair os seus bancos e persegue os banqueiros. Vê aí um modelo islandês de saída da crise?

Talvez não tivesse havido outra opção além dessa: os bancos eram tão grandes que não havia maneira de os resgatar. Mas não interessa se havia ou não opções. A Islândia não aceita a noção de o cidadão comum ter de pagar toda a factura das loucuras dos bancos, como aconteceu com essas nacionalizações feitas noutros lugares pela porta do cavalo. Volto ao argumento inicial: a solução para a crise não é simplesmente económica.

Estabeleceram controlo de capitais, subiram os impostos e diminuíram as despesas de carácter social, o que desencadeou o descontentamento popular. Esse descontentamento é dirigido contra os bancos ou contra os políticos?

É difícil de dizer. Apesar do controlo, o país continua a funcionar bem e o impacto fiscal é inegável, mas era necessário e está a fazer-se razoavelmente bem. As crises são dolorosas.

Irá alguém para a cadeia?

Não sou eu quem deve dizê-lo.

Há anos o senhor falava do “capitalismo viking”, de um grupo de jovens banqueiros “prontos para conquistar o mundo”. Mudou o seu ponto de vista?

Talvez tudo tenha acontecido depressa demais e não tenhamos sabido ver os riscos. Não os souberam ver também as agências de notação financeira ou as autoridades europeias. Houve vozes críticas. Tal como muitos outros, não as soube ouvir. Mas é preciso aprender com tudo isto.


Entrevista realizada por Claudi Pérez El País, 7 de Abril de 2011. Tradução Helena Pitta.
 

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