Inflação nas empresas: a lei dos mais fortes

O aumento da inflação produz efeitos diferentes. Para os grandes grupos que dominam setores como a energia e a distribuição de bens essenciais, ela é uma oportunidade para aumentar lucros. Em 2021, a remuneração dos gestores das maiores empresas cotadas aumentou 47%, em média.

06 de maio 2022 - 21:34
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Foto Susanne Nilsson/Flickr

No universo das empresas, os processos inflacionários beneficiam as empresas com mais poder (monopolístico ou oligopolístico) de mercado, que têm mais margem de discricionariedade para fixarem os preços dos seus bens e serviços e que, por isso, conseguem obter lucros extraordinários. Estas empresas tiram partido das situações de constrangimento extraordinário da oferta e do ruído e incerteza em torno da evolução dos preços para aumentarem as suas margens.

Nos EUA, é possível observar um aumento acentuado dos lucros das empresas (após impostos) ao longo dos últimos meses.

Em setores fortemente concentrados, como o da energia ou o da grande distribuição, o poder de fixação de preços encontra-se nas mãos de um pequeno grupo de grandes empresas, não raras vezes em conluio. Isso ajuda a explicar, por exemplo, os lucros extraordinários registados pelos supermercados durante a crise. No ano passado, em Portugal, a Jerónimo Martins (dona do Pingo Doce) registou lucros de 463 milhões de euros, quase 50% acima do que obtivera em 2020, ao passo que a Sonae (dona do Continente) teve um resultado líquido de 268 milhões de euros, quase o quádruplo do obtido no ano anterior. Note-se que, apesar dos lucros extraordinários, ambas integram o top-10 das empresas que mais apoios públicos receberam pelo encargo associado ao aumento do Salário Mínimo Nacional.

Dividendos para os acionistas, aumentos chorudos para os administradores

É uma tendência que se verificou um pouco por todos os países. Os principais beneficiados foram os CEOs e acionistas: um relatório publicado pela Oxfam mostra que 98% dos lucros líquidos obtidos por oito grandes supermercados nestes dois países (incluindo o Walmart, nos EUA, o Tesco, no Reino Unido, ou o Delhaize, nos Países Baixos) nos primeiros oito meses da pandemia foram distribuídos aos acionistas, através de dividendos ou operações de recompra das próprias ações. A grande distribuição aumentou os dividendos pagos aos acionistas em 123% neste período, face ao ano anterior.

Em Portugal, as empresas do antigo PSI-20 vão entregar aos acionistas perto de 2,5 mil milhões de euros em 2022, por conta dos lucros de 2021. É um valor recorde, que se traduz também no aumento dos salários (nas suas várias componentes) das administrações das grandes empresas portuguesas. Em 2021, a variação da remuneração das comissões executivas dos conselhos de administração foi de 47%, sendo que os seus presidentes receberam em média mais 89%.

Em contrapartida, as micro e pequenas empresas que operam em mercados mais concorrenciais, que veem a sua estrutura de custos pressionada pelos insumos energéticos e outros, tendem a perder em termos relativos, podendo nalguns casos ver a sua viabilidade ameaçada.

O impacto nas dívidas e nos devedores

Tende a beneficiar com a inflação quem esteja contratualmente vinculado a pagamentos estabelecidos em termos nominais. Desde que i) as prestações devidas não estejam direta ou indiretamente indexadas à inflação; que ii) o aumento da taxa de juro não compense todo o efeito da inflação; e que iii) os rendimentos sejam atualizados, os devedores serão beneficiados na medida da redução do valor real da sua dívida em prestações periódicas. As premissas referidas são, no entanto, cruciais: para a maioria das famílias portuguesas com empréstimos à habitação, por exemplo, se os contratos estiverem indexados à Euribor e se os salários não forem devidamente atualizados, as vantagens são reduzidas ou inexistentes.

Em todo o caso, este efeito de alívio dos devedores pode ser bastante vantajoso em termos macroeconómicos, sobretudo no caso de uma economia altamente endividada como é a portuguesa. O endividamento total do setor não financeiro português ultrapassa atualmente os 350% do PIB, cerca de 777 mil milhões de euros, repartidos entre 429 mil milhões de euros de dívida do setor privado e 349 mil milhões de euros de dívida das administrações públicas (BPStat, fevereiro de 2022). Alguma inflação, desde que a um nível relativamente moderado, pode ter um efeito macroeconómico positivo, na medida em que impulsiona o crescimento nominal da economia, reduz a dimensão da dívida em termos relativos e, por essa via, reduz o constrangimento macroeconómico associado ao endividamento excessivo.

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