No universo das empresas, os processos inflacionários beneficiam as empresas com mais poder (monopolístico ou oligopolístico) de mercado, que têm mais margem de discricionariedade para fixarem os preços dos seus bens e serviços e que, por isso, conseguem obter lucros extraordinários. Estas empresas tiram partido das situações de constrangimento extraordinário da oferta e do ruído e incerteza em torno da evolução dos preços para aumentarem as suas margens.
Nos EUA, é possível observar um aumento acentuado dos lucros das empresas (após impostos) ao longo dos últimos meses.

Em setores fortemente concentrados, como o da energia ou o da grande distribuição, o poder de fixação de preços encontra-se nas mãos de um pequeno grupo de grandes empresas, não raras vezes em conluio. Isso ajuda a explicar, por exemplo, os lucros extraordinários registados pelos supermercados durante a crise. No ano passado, em Portugal, a Jerónimo Martins (dona do Pingo Doce) registou lucros de 463 milhões de euros, quase 50% acima do que obtivera em 2020, ao passo que a Sonae (dona do Continente) teve um resultado líquido de 268 milhões de euros, quase o quádruplo do obtido no ano anterior. Note-se que, apesar dos lucros extraordinários, ambas integram o top-10 das empresas que mais apoios públicos receberam pelo encargo associado ao aumento do Salário Mínimo Nacional.
Dividendos para os acionistas, aumentos chorudos para os administradores
É uma tendência que se verificou um pouco por todos os países. Os principais beneficiados foram os CEOs e acionistas: um relatório publicado pela Oxfam mostra que 98% dos lucros líquidos obtidos por oito grandes supermercados nestes dois países (incluindo o Walmart, nos EUA, o Tesco, no Reino Unido, ou o Delhaize, nos Países Baixos) nos primeiros oito meses da pandemia foram distribuídos aos acionistas, através de dividendos ou operações de recompra das próprias ações. A grande distribuição aumentou os dividendos pagos aos acionistas em 123% neste período, face ao ano anterior.
Em Portugal, as empresas do antigo PSI-20 vão entregar aos acionistas perto de 2,5 mil milhões de euros em 2022, por conta dos lucros de 2021. É um valor recorde, que se traduz também no aumento dos salários (nas suas várias componentes) das administrações das grandes empresas portuguesas. Em 2021, a variação da remuneração das comissões executivas dos conselhos de administração foi de 47%, sendo que os seus presidentes receberam em média mais 89%.

Em contrapartida, as micro e pequenas empresas que operam em mercados mais concorrenciais, que veem a sua estrutura de custos pressionada pelos insumos energéticos e outros, tendem a perder em termos relativos, podendo nalguns casos ver a sua viabilidade ameaçada.
O impacto nas dívidas e nos devedores
Tende a beneficiar com a inflação quem esteja contratualmente vinculado a pagamentos estabelecidos em termos nominais. Desde que i) as prestações devidas não estejam direta ou indiretamente indexadas à inflação; que ii) o aumento da taxa de juro não compense todo o efeito da inflação; e que iii) os rendimentos sejam atualizados, os devedores serão beneficiados na medida da redução do valor real da sua dívida em prestações periódicas. As premissas referidas são, no entanto, cruciais: para a maioria das famílias portuguesas com empréstimos à habitação, por exemplo, se os contratos estiverem indexados à Euribor e se os salários não forem devidamente atualizados, as vantagens são reduzidas ou inexistentes.
Em todo o caso, este efeito de alívio dos devedores pode ser bastante vantajoso em termos macroeconómicos, sobretudo no caso de uma economia altamente endividada como é a portuguesa. O endividamento total do setor não financeiro português ultrapassa atualmente os 350% do PIB, cerca de 777 mil milhões de euros, repartidos entre 429 mil milhões de euros de dívida do setor privado e 349 mil milhões de euros de dívida das administrações públicas (BPStat, fevereiro de 2022). Alguma inflação, desde que a um nível relativamente moderado, pode ter um efeito macroeconómico positivo, na medida em que impulsiona o crescimento nominal da economia, reduz a dimensão da dívida em termos relativos e, por essa via, reduz o constrangimento macroeconómico associado ao endividamento excessivo.