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Inflação nas empresas: a lei dos mais fortes

O aumento da inflação produz efeitos diferentes. Para os grandes grupos que dominam setores como a energia e a distribuição de bens essenciais, ela é uma oportunidade para aumentar lucros. Em 2021, a remuneração dos gestores das maiores empresas cotadas aumentou 47%, em média.
Foto Susanne Nilsson/Flickr

No universo das empresas, os processos inflacionários beneficiam as empresas com mais poder (monopolístico ou oligopolístico) de mercado, que têm mais margem de discricionariedade para fixarem os preços dos seus bens e serviços e que, por isso, conseguem obter lucros extraordinários. Estas empresas tiram partido das situações de constrangimento extraordinário da oferta e do ruído e incerteza em torno da evolução dos preços para aumentarem as suas margens.

Nos EUA, é possível observar um aumento acentuado dos lucros das empresas (após impostos) ao longo dos últimos meses.

Em setores fortemente concentrados, como o da energia ou o da grande distribuição, o poder de fixação de preços encontra-se nas mãos de um pequeno grupo de grandes empresas, não raras vezes em conluio. Isso ajuda a explicar, por exemplo, os lucros extraordinários registados pelos supermercados durante a crise. No ano passado, em Portugal, a Jerónimo Martins (dona do Pingo Doce) registou lucros de 463 milhões de euros, quase 50% acima do que obtivera em 2020, ao passo que a Sonae (dona do Continente) teve um resultado líquido de 268 milhões de euros, quase o quádruplo do obtido no ano anterior. Note-se que, apesar dos lucros extraordinários, ambas integram o top-10 das empresas que mais apoios públicos receberam pelo encargo associado ao aumento do Salário Mínimo Nacional.

Dividendos para os acionistas, aumentos chorudos para os administradores

É uma tendência que se verificou um pouco por todos os países. Os principais beneficiados foram os CEOs e acionistas: um relatório publicado pela Oxfam mostra que 98% dos lucros líquidos obtidos por oito grandes supermercados nestes dois países (incluindo o Walmart, nos EUA, o Tesco, no Reino Unido, ou o Delhaize, nos Países Baixos) nos primeiros oito meses da pandemia foram distribuídos aos acionistas, através de dividendos ou operações de recompra das próprias ações. A grande distribuição aumentou os dividendos pagos aos acionistas em 123% neste período, face ao ano anterior.

Em Portugal, as empresas do antigo PSI-20 vão entregar aos acionistas perto de 2,5 mil milhões de euros em 2022, por conta dos lucros de 2021. É um valor recorde, que se traduz também no aumento dos salários (nas suas várias componentes) das administrações das grandes empresas portuguesas. Em 2021, a variação da remuneração das comissões executivas dos conselhos de administração foi de 47%, sendo que os seus presidentes receberam em média mais 89%.

Em contrapartida, as micro e pequenas empresas que operam em mercados mais concorrenciais, que veem a sua estrutura de custos pressionada pelos insumos energéticos e outros, tendem a perder em termos relativos, podendo nalguns casos ver a sua viabilidade ameaçada.

O impacto nas dívidas e nos devedores

Tende a beneficiar com a inflação quem esteja contratualmente vinculado a pagamentos estabelecidos em termos nominais. Desde que i) as prestações devidas não estejam direta ou indiretamente indexadas à inflação; que ii) o aumento da taxa de juro não compense todo o efeito da inflação; e que iii) os rendimentos sejam atualizados, os devedores serão beneficiados na medida da redução do valor real da sua dívida em prestações periódicas. As premissas referidas são, no entanto, cruciais: para a maioria das famílias portuguesas com empréstimos à habitação, por exemplo, se os contratos estiverem indexados à Euribor e se os salários não forem devidamente atualizados, as vantagens são reduzidas ou inexistentes.

Em todo o caso, este efeito de alívio dos devedores pode ser bastante vantajoso em termos macroeconómicos, sobretudo no caso de uma economia altamente endividada como é a portuguesa. O endividamento total do setor não financeiro português ultrapassa atualmente os 350% do PIB, cerca de 777 mil milhões de euros, repartidos entre 429 mil milhões de euros de dívida do setor privado e 349 mil milhões de euros de dívida das administrações públicas (BPStat, fevereiro de 2022). Alguma inflação, desde que a um nível relativamente moderado, pode ter um efeito macroeconómico positivo, na medida em que impulsiona o crescimento nominal da economia, reduz a dimensão da dívida em termos relativos e, por essa via, reduz o constrangimento macroeconómico associado ao endividamento excessivo.

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Neste dossier:

Respostas da esquerda ao aumento da inflação

No momento em que a inflação bate recordes das últimas décadas e o Governo se recusa a atualizar salários para evitar a perda do poder de compra, divulgamos aqui os conteúdos do relatório "Inflação: uma crítica de esquerda aos argumentos e medidas do Governo", apresentado pelo Bloco de Esquerda a 6 de maio de 2022.

Enquanto a luz aumenta, barragens continuarão a ter lucros excessivos

A alta de preços da eletricidade é potenciada pelo mercado elétrico europeu, desenhado para garantir a rentabilidade do setor energético privatizado e liberalizado. Mesmo com as correções negociadas pelo governo em Bruxelas, as barragens continuarão a beneficiar de lucros excessivos que o governo não quer tributar.

Hecatombe nos salários: mais pobreza, mais concentração da riqueza

Em Portugal, os trabalhadores perderam salário em 2021 e 2022. E mesmo o aumento do salário mínimo em 6% não compensa o aumento de preços dos bens essenciais. Por efeito da inflação, o salário vai acabar mais cedo em cada mês e a parte dos salários na distribuição da riqueza nacional vai diminuir.

Inflação em recorde de trinta anos

Em abril, a taxa de inflação atingiu os 7,2%, o valor mais alto em trinta anos. É preciso recuar a 1993 para encontrar um mês em que a subida dos preços tenha sido tão acentuada.

Uma resposta de esquerda à inflação

Dar prioridade à proteção dos salários, limitar as margens de lucro excessivas e tributar lucros extraordinários são medidas que deviam integrar a política orçamental. Mas também é preciso um mecanismo de controlo de preços, a começar pela energia e distribuição alimentar.

Aumentar salários alimenta inflação? Uma desculpa errada

Em resposta ao Bloco, António Costa recusou aumentos salariais sob o argumento de que "são consumidos pela inflação". O primeiro-ministro fala de uma "espiral que depois ninguém sabe como é que se controla”. Os patrões aplaudem, mas a ideia é errada.

Na origem do surto de inflação, a especulação com a energia

O aumento dos preços sentido desde o início de 2021 não resulta de maior procura por aumento do rendimento disponível dos trabalhadores (este aumento foi quase nulo na Europa). A origem da inflação está na especulação, que fez disparar os preços na produção e comercialização de combustíveis, bem como nos mercados de carbono.

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Bancos centrais e taxa de juro: o caso da inflação financeira

A crise financeira de 2008 revelou como o critério da inflação pode ser enganador para aferir o sobreaquecimento da economia. O período que antecedeu a crise, com baixa inflação e baixos juros, foi também marcado pela acumulação de dívida financeira assente em ativos altamente inflacionados.