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Aumentar salários alimenta inflação? Uma desculpa errada

Em resposta ao Bloco, António Costa recusou aumentos salariais sob o argumento de que "são consumidos pela inflação". O primeiro-ministro fala de uma "espiral que depois ninguém sabe como é que se controla”. Os patrões aplaudem, mas a ideia é errada.
António Costa e Mariana Vieira da Silva. Foto Tiago Petinga/Lusa

Essa tem sido a linha de argumentação do Governo. António Costa afastou aumentos salariais em 2022 além dos previstos no Orçamento do Estado elaborado no final do ano passado. O primeiro-ministro rejeitou as críticas sobre a ausência de uma resposta mais abrangente à escalada dos preços. O ministro das Finanças, Fernando Medina, foi mais longe e disse que os aumentos salariais traduzir-se-iam em maiores aumentos dos preços e, por isso, na perda de poder de compra para a maioria das pessoas. Essa é também a posição das confederações patronais. O presidente da CIP, António Saraiva, declarou que “é utópico pensar que as empresas ou o próprio Estado […] podem de um momento para o outro aumentar salários para manter o poder de compra”.

O pressuposto é que o mercado é o meio mais adequado para a definição dos salários e a tese é popular, ao centro e à direita. De acordo com esta lógica, a definição administrativa de aumentos salariais acima do que resultaria do funcionamento do mercado obriga os empresários a aumentar os preços na mesma proporção, de forma a preservar as margens de lucro esperadas. O resultado é um novo aumento do nível geral de preços – ou seja, mais inflação. Assim, um aumento dos salários teria uma repercussão imediata nos preços que as empresas praticam e acabaria por não resultar em maior poder de compra para as pessoas.

No entanto, há pelo menos quatro problemas associados a esta teoria acerca de uma espiral salários-preços:

1. A experiência histórica não confirma

A experiência histórica não nos permite afirmar que existe uma relação de causalidade direta entre aumentos salariais e aumentos do nível geral de preços. É essa a conclusão de um estudo levado a cabo por economistas da Reserva Federal norte-americana (Hess and Schweitzer, 2000). Esta relação é bastante mais complexa e depende de outros fatores, como a origem da inflação (se se deve sobretudo a um aumento rápido da procura ou a problemas do lado da oferta), o poder negocial dos trabalhadores, o grau de concentração e o poder de mercado das empresas, as respostas da política orçamental e monetária, entre outros. Os aumentos salariais não se traduzem necessariamente em aumentos dos preços na mesma proporção.

2. Costa omite aumento da produtividade

Segundo as previsões macroeconómicas do Governo, a produtividade crescerá 3,5% em 2022. Apesar dessa evolução positiva, os salários reais terão uma redução de 0,8%. O que isto implica é uma transferência de rendimento do trabalho para o capital, que, longe de ser inevitável, resulta da opção política do Governo.

3. O governo pode intervir sobre as margens de lucro para impedir mais inflação

A teoria da espiral salários-preços assume que as empresas repercutem integralmente os aumentos salariais nos preços que praticam, de forma a preservar as suas margens de lucro. Essa é uma tendência sobre a qual o Governo pode atuar. Existem ferramentas para mitigar aumentos de preços, como a limitação das margens de lucro, sobretudo em setores que estejam a registar ganhos extraordinários com a crise. Ao não o fazer, o Governo português está mais uma vez a assumir que os salários são as únicas variáveis de ajustamento em períodos de crise.

4. Fomentar a procura suporta o crescimento económico

Os neoliberais partem do pressuposto de que, pelo menos no longo prazo, o crescimento económico depende sobretudo de fatores do lado da oferta e não é influenciado pela evolução da procura agregada. Ora, uma economia assente na promoção do pleno emprego e do crescimento sustentado dos salários cria incentivos para as empresas investirem na produção de forma a serem capazes de responder à maior procura pelos seus bens e serviços. Nesse sentido, uma política de promoção dos rendimentos tem o potencial de impulsionar o investimento privado e o crescimento económico. Pelo contrário, uma política orçamental que origine uma queda acentuada do poder de compra da maior parte das pessoas leva à estagnação ou ao recuo da procura agregada no país, o que por sua vez se traduz numa redução da atividade económica e do emprego.

(...)

Neste dossier:

Respostas da esquerda ao aumento da inflação

No momento em que a inflação bate recordes das últimas décadas e o Governo se recusa a atualizar salários para evitar a perda do poder de compra, divulgamos aqui os conteúdos do relatório "Inflação: uma crítica de esquerda aos argumentos e medidas do Governo", apresentado pelo Bloco de Esquerda a 6 de maio de 2022.

Enquanto a luz aumenta, barragens continuarão a ter lucros excessivos

A alta de preços da eletricidade é potenciada pelo mercado elétrico europeu, desenhado para garantir a rentabilidade do setor energético privatizado e liberalizado. Mesmo com as correções negociadas pelo governo em Bruxelas, as barragens continuarão a beneficiar de lucros excessivos que o governo não quer tributar.

Hecatombe nos salários: mais pobreza, mais concentração da riqueza

Em Portugal, os trabalhadores perderam salário em 2021 e 2022. E mesmo o aumento do salário mínimo em 6% não compensa o aumento de preços dos bens essenciais. Por efeito da inflação, o salário vai acabar mais cedo em cada mês e a parte dos salários na distribuição da riqueza nacional vai diminuir.

Inflação em recorde de trinta anos

Em abril, a taxa de inflação atingiu os 7,2%, o valor mais alto em trinta anos. É preciso recuar a 1993 para encontrar um mês em que a subida dos preços tenha sido tão acentuada.

Uma resposta de esquerda à inflação

Dar prioridade à proteção dos salários, limitar as margens de lucro excessivas e tributar lucros extraordinários são medidas que deviam integrar a política orçamental. Mas também é preciso um mecanismo de controlo de preços, a começar pela energia e distribuição alimentar.

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Na origem do surto de inflação, a especulação com a energia

O aumento dos preços sentido desde o início de 2021 não resulta de maior procura por aumento do rendimento disponível dos trabalhadores (este aumento foi quase nulo na Europa). A origem da inflação está na especulação, que fez disparar os preços na produção e comercialização de combustíveis, bem como nos mercados de carbono.

Inflação nas empresas: a lei dos mais fortes

O aumento da inflação produz efeitos diferentes. Para os grandes grupos que dominam setores como a energia e a distribuição de bens essenciais, ela é uma oportunidade para aumentar lucros. Em 2021, a remuneração dos gestores das maiores empresas cotadas aumentou 47%, em média.

Bancos centrais e taxa de juro: o caso da inflação financeira

A crise financeira de 2008 revelou como o critério da inflação pode ser enganador para aferir o sobreaquecimento da economia. O período que antecedeu a crise, com baixa inflação e baixos juros, foi também marcado pela acumulação de dívida financeira assente em ativos altamente inflacionados.