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Green New Deal: Emprego, meio ambiente e um planeta em crise

Neste artigo, Aviva Chomsky analisa o debate em torno da proposta do Green New Deal e da divisão alimentada pelos media conservadores entre a esquerda ecologista e a esquerda sindical.
Imagem publicada no site Nation of Change.

Quando falamos de calor, fenómenos meteorológicos extremos, incêndios florestais, e glaciares derretidos, o planeta entrou naquilo a que os media chamam cada vez mais de território “record”, à medida que o ritmo das alterações climáticas vai ultrapassando as previsões.  Numa situação destas, num país cujo presidente e administração estão firmemente determinados a fazer tudo o que possam para piorar as coisas, o Green New Deal (GND) parece oferecer pelo menos uma abertura modesta para fazer outro caminho.

É conhecida a proposta de resolução apresentada em fevereiro na Câmara dos Representantes por Alexandria Ocasio-Cortez (eleita pelo Partido Democrata por Nova Iorque) and Edward Markey (eleito pelo Partido Democrata por Massachussetts). Como era de esperar, a proposta foi fortemente atacada pela direita. Mas também suscitou alguma controvérsia no seio da esquerda. Pode achar-se que os sindicatos e organizações ambientais seriam os primeiros apoiantes de um investimento federal massivo em bons empregos e numa transição justa que se afaste dos combustíveis fósseis. Mas será que as organizações de trabalhadores apoiam mesmo ou se opõem ao Green New Deal? E as organizações ambientais? Se não tem a certeza das respostas a estas questões, não é a única pessoa.

Aquela proposta de 14 páginas apela a “uma nova mobilização nacional, social, industrial e económica numa escala nunca vista desde a II Guerra Mundial e a era do New Deal”. O seu objetivo: reduzir as emissões de carbono dos EUA a zero líquidos numa década, garantindo ao mesmo tempo um número significativo de novos empregos e proteção social para os trabalhadores norte-americanos. Pode lê-la e descobrir que ela procura ultrapassar as divisões históricas entre o mundo laboral e os movimentos ambientais ao fazer essa ligação entre os bons empregos e proteção dos trabalhadores aos evidentes e bem necessários objetivos ambientais.

Pelo caminho, a proposta do GND vai bem além dos objetivos modestos dos Acordos de Paris e outros acordos internacionais. Ela apoia metas específicas e executáveis para controlar as alterações climáticas, ao mesmo tempo que faz ligações entre os direitos sociais, laborais e ambientais. Ao reconhecer tão cruamente a urgência de fazer uma mudança sistémica num planeta a aquecer rapidamente, ela apela ao tipo de mobilização nacional que os norte-americanos não veem desde o fim da II Guerra Mundial. Assim descrita, parece algo que tanto o movimento laboral como o ambiental apoiariam naturalmente e sem pensar duas vezes. Mas há no entanto uma história de desconfiança e desentendimento real sobre vários pontos, com que ambos os movimentos se debatem nesta altura. E os media fazem a sua parte ao exagerar a oposição laboral à proposta, enquanto ignoram o que as organizações ambientais têm a dizer.

Uma das controvérsias deste Green New Deal centra-se no futuro papel reservado neste plano aos combustíveis fósseis. Algumas organizações ambientais acreditam que essas fontes de energia não têm lugar no futuro, que precisam ficar no solo e ponto final. Citam a ciência climática e a necessidade urgente de agir rapidamente e de forma drástica para eliminar as emissões de carbono como a base para essa conclusão. Mas acontece que o Green New Deal evita desafiar diretamente a indústria dos combustíveis fósseis. Na verdade, nem sequer usa o termo “combustíveis fósseis”.

Por outro lado, alguns sindicatos esperam que as novas tecnologias como a captura, utilização e armazenamento de carbono tornem esses combustíveis mais eficientes e muito mais limpos. Se o envio de mais carbono para a atmosfera pode ser significativamente reduzido ou compensado de alguma forma, dizem eles, os empregos nesses setores podem ser salvaguardados. E os sindicatos têm também outras preocupações. Eles tendem a olhar com ceticismo para as promessas do GND de uma “transição justa” para trabalhadores como os mineiros de carvão, dada a devastação que caiu sobre estes trabalhadores e as suas comunidades quando as minas fecharam portas no passado. E também temem que, sem o acompanhamento de proteções comerciais, as indústrias poluentes passem a exportar as suas emissões em vez de as reduzir.

Sendo mais uma declaração de princípios do que um plano detalhado, falta ao Green New Deal os pormenores e as respostas no que toca a alguns temas. O próprio roteiro para conseguir as suas metas, diz a proposta, “deve ser desenvolvido através de uma consulta transparente e participada, em colaboração e parceria com comunidades na linha de frente e vulneráveis, sindicatos, cooperativas de trabalhadores, grupos da sociedade civil, academia e empresas”. Tanto os sindicatos como as organizações ambientais já se estão a mobilizar para garantir que as suas vozes farão parte do processo.

A direita foi rápida a vir publicitar o Green New Deal em tom de escárnio como não apenas irrealista mas absolutamente anti-americano. Nestas circunstâncias, talvez não surpreenda que uma sondagem recente tenha referido que 69% de eleitores Republicanos, mas apenas 36% de Democratas, já “ouviu falar muito” sobre ele. Da mesma forma, 80% dos Republicanos já se “opõem fortemente” ao pleno, enquanto só 46% dos Democratas o “apoiam fortemente”. E 40% dos inquiridos disseram que ouviram coisas “sobretudo negativas” acerca dele, enquanto apenas 14% ouviram coisas “sobretudo positivas”. Mais uma razão para esta diferença: a Fox News dedicou mais tempo ao assunto do que qualquer outra cadeia de notícias televisivas. E o Presidente Trump naturalmente juntou-se à festa, twittando que o GND iria eliminar “Aviões, Carros, Vacas, Petróleo, Gás e Militares.” Estas alegações, por mais fantasiosas que sejam, já tiveram ampla difusão. Mas até os principais meios de comunicação tendem a enfatizar o assunto pela negativa.

Tanto os media “mainstream” como os de direita deram força à ideia de que os sindicatos estão em oposição vincada ao Green New Deal, muitas vezes exagerando e distorcendo a natureza do tipo de oposição que existe. Quanto às preocupações dos ambientalistas, os leitores terão de seguir as publicações online radicais ou procurar pelos sites das organizações verdes.

Os Media, o Movimento Laboral e o Green New Deal

O Washington Examiner, a Fox News e outros meios da direita exultaram de cada vez que representantes do movimento sindical, incluindo Richard Trumka, presidente da AFL-CIO, criticaram ou colocaram reservas sobre o Green New Deal, um tema sobre o qual o resto da imprensa mainstream também já publicou. Mas a posição do Trabalho é, contudo, bem mais complicada do que eles assinalaram.

Numa entrevista de uma hora no Economic Club of Washington em abril — publicada no Examiner com o título “AFL-CIO opõe-se ao Green New Deal” — Trumka dedicou na verdade menos de 30 segundos a responder a uma pergunta sobre o tema. Perguntado se apoiava o GND, respondeu “Não tal como está escrito neste momento… Não fizemos parte do processo e por isso o interesse dos trabalhadores não esteve inteiramente integrado nele. Por isso achamos que é preciso fazer muitas alterações para que os trabalhadores e os nossos empregos estejam protegidos nesse processo.” Não é bem uma rejeição de princípio.

A sua curta reação fez recordar uma carta enviada em março pelo Comité de Energia da AFL-CIO a Ocasio-Cortez e Markey, assinada pelos presidentes da United Mine Workers e a International Brotherhood of Electrical Workers. Entre outras coisas, contestava a falta de uma voz dos trabalhadores na preparação da iniciativa. Também chamava a atenção para a potecial perda de empregos, bem como o facto de que o GND “não se baseia numa abordagem fundada na engenharia” para as alterações climáticas, refletindo as esperanças sindicais de que melhores tecnologias possam permitir aos EUA cumprir metas ambientais enquanto extraem e queimam combustíveis fósseis (assim preservando empregos nesse setor da economia).

O senador do Wyoming John Barraso, aliado de longa data das indústrias do carvão, petróleo e gás, negacionista das alterações climáticas e com voto no Congresso consistentemente contra os sindicatos, deu conta da existência da carta num tweet, dizendo que “A AFL-CIO, que representa 12.5 milhões de trabalhadores e inclui 55 sindicatos, arrasa o #GreenNewDeal” Tanto os media de direita como os mainstream concordaram em grande medida com esta interpretação. O Washington Post, por exemplo, intitulou o seu artigo “AFL-CIO critica o Green New Deal”, enquanto o Examiner apelidou a federação como “a mais recente adversária” da proposta.

Dois factos ficaram, contudo, de fora nestas reportagens. Primeiro, os membros do Comité de energia da AFL-CIO vêm de apenas oito sindicatos, a maior parte dos quais profundamente dependentes da industria dos combustíveis fósseis. Nesse sentido, não representam a federação como um todo. Segundo, a própria carta era mais matizada do que a cobertura mediática sugeria e até os seus subscritores estavam longe da unanimidade. É verdade que um deles, Terry O’Sullivan, presidente do Laborers International Union of North America, afirmou estar definitivamente contra o GND, acrescentando que ele mostrava “exatamente como não abordar” a infraestrutura e as alterações climáticas. Ligar as duas, escreveu ele, levaria à “devastação social e económica”. Em contrapartida, num artigo ignorado pelos media e intitulado “O Trabalho luta pelo Green New Deal”, outro signatário, o presidente do United Steelworkers Leo Gerard, referia que a carta na verdade apoiava o GND. 

A carta do Comité de Energia apresentava a sua própria visão de como abordar a crise que aí vem:

“[o] desenvolvimento e aplicação de tecnologias como o solar, eólica, nuclear, hidroelétrica, captura e utilização de de carbono, armazenamento de baterias e ferrovia de alta velocidade que limitem ou eliminem as emissões de carbono. Sabemos que o aumento na produção de gás natural fez baixar as emissões no setor da energia e forneceu uma nova fonte de emprego na construção e fabrico. É preciso investir na eficiência energética nos setores comercial e industrial, reequipamento e modernização das escolas e edifícios públicos, e tornar as nossas comunidades seguras e resilientes. Todos esses investimentos devem ser acompanhados por fortes normas laborais e de contratação para aumentar o número de empregos sindicalizados das famílias de classe média.”

Muito deste discurso parece alinhar com a linguagem do GND, que também defende mais eficiência, reequipamento, modernização e garantias laborais. As diferenças parecem ser subtis, mas vale a pena falar delas. O Comité de Energia dá ênfase ao investimento em novas tecnologias de captura e armazenamento de carbono, enquanto o GND só defende “soluções comprovadas de baixa intensidade tecnológica que aumentem o armazenamento de carbono no solo, como a preservação de terras e a reflorestação”. Por razões óbvias, a captura, utilização e armazenamento de carbono é o caminho preferido pela própria indústria dos combustíveis fósseis: é uma tecnologia ambiciosa que requer investimento federal massivo nos grandes grupos energéticos e contém a promessa (por mais ilusória que seja) de que os combustíveis fósseis poderão continuar a ser extraídos e queimados. Muitas organizações ambientais defendem que o seu desenvolvimento não é apenas uma oferta às empresas dos combustíveis fósseis, mas uma fantasia que serve de manobra de diversão para nos distrair da verdadeira tarefa de acabar com o uso de petróleo, carvão e gás natural.

A carta do Comité de Energia também propunha o aumento do uso de gás natural como parte do caminho para baixar as emissões de carbono — é é verdade que o gás natural emite menos carbono do que a queima quer do carvão, quer do petróleo. De facto, até há pouco tempo, a passagem do carvão para o gás na alimentação das centrais de energia teve o seu papel na diminuição ligeira das emissões de gases com efeito estufa nos EUA. Ainda assim, o gás natural é um combustível fóssil, e quanto mais queimamos, mais contribuímos para as alterações climáticas. Não há hipótese de ele caber na categoria do GND de “fonte de energia limpa, renovável e de zero emissões”. E lembremo-nos que, mesmo ao longo de uma década de reduções, os Estados Unidos ainda emitiram muito mais gases com efeito estufa per capita do que a maior parte dos outros países, ou que, nos últimos dois anos, as seuas emissões de dióxido de carbono tenham voltado a aumentar. As nossas emissões per capita ainda estão muito acima das da Europa ou do Japão, para dar dois exemplos. Mudar para um combustível fóssil um pouco menos poluente enquanto se continua a queimar tanto carbono pouco fará para evitar a catástrofe das alterações climáticas. 

Estas divergências são verdadeiras. Mas a direita caricaturou a resposta da AFL-CIO para dar a imagem do GND como sendo uma proposta bizarra e contra os trabalhadores.

À esquerda, a organização ambiental Friend of the Earth também caricaturou a posição da AFL-CIO, escrevendo: “Como a posição do comité de energia, a AFL junta-se aos negacionistas do clima como os irmãos Koch, o Partido Republicano e as grandes petrolíferas. Apelamos à AFL e outros sindicatos a repensarem a sua posição”. Este tipo de linguagem apenas vem exacerbar a divisão entre o mundo do trabalho e o ambientalista, ao mesmo tempo que passa por cima das preocupações sindicais de que sejam os trabalhadores nas indústrias afetadas a pagar o verdadeiro preço da baixa das emissões de carbono.

Em vez disso, a Friends of the Earth podia ter ouvido as palavras de Richard Trumka na Cimeira de Ação Climática Global de 2018. A Federação, insistiu ele, não põe em dúvida a ciência climática.

“Aprendi alguma coisa sobre ciência quando trabalhei na mina. Quanto do patrão nos disse para ignorarmos os perigos mortais daquele ofício… aquelas vigas flácidas por cima das nossas cabeças… aquela tosse dos pulmões negros… a ciência disse-nos a verdade. E hoje, novamente, a ciência diz-nos a verdade: as alterações climáticas ameaçam os nossos trabalhadores, os nossos empregos e a nossa economia”.

Ele perguntou então: “O vosso plano para enfrentar as alterações climáticas está a pedir mais carifícios aos mineiros doentes e reformados do que pede a vocês e às vossas famílias? Se pedir, então precisam de pensar nisso outra vez”.

Ou, como disse Sara Nelson, presidente da Association of Flight Attendants e uma firme apoiante do Green New Deal:

“O ceticismo surge a partir da oposição a algo que é visto como um ataque aos seus empregos, às suas condições de vida, Às suas comunidades… Temos de conseguir mostrar às comunidades atingidas que falamos a sério quando dizemos “não deixar nenhum trabalhador para trás”.

Para os sindicatos, a tónica no comércio é também fundamental tanto na perspetiva laboral como ambiental. O presidente da United Steelworkers Leo Gerard explicou:

“A USW tem exigido agressivamente que as políticas do clime incluam fortes medida ao nível do comércio para assegurar que os empregos em indústrias intensivas em energia ou expostas à concorrência comercial não sejam dizimadas pelas grandes empresas norte-americanas que fogem às normas de controlo da poluição, deslocalizando as fábricas para países que ignoram a poluição”.

Porque hesitam os trabalhadores: uma história emaranhada

Embora um cético possa ler a posição de Gerard sobre comércio como uma visão que serve os seus interesses em salvaguardar empregos em tempo de crise planetária, esse é também um assunto fundamental do ponto de vista puramente climático. Para além da transição do carvão para o gás natural, um outro fator que contribuiu para a ligeira descida das emissões de dióxido de carbono dos EUA até há pouco tempo foi a desindustrialização e a deslocalização da produção industrial para o México, a China, ou o Vietname. Isto representa uma redução apenas ilusória das emissões de carbono. Claro que a atmosfera  não se importa se uma fábrica está localizada nos Estados Unidos ou na China, uma vez que são as emissões globais que estão a aquecer o nosso planeta.

Enquanto a liderança da AFL-CIO tem sido cautelosa sobre a proposta do Green New Deal, alguns sindicatos deram-lhe o seu apoio entusiástico, e entre eles estão os dos setores público e dos serviços. Com os seus dois milhões de membros, o Service Employees International Union, que agora não faz parte da AFL-CIO, subscreveu-o incondicionalmente na sua convenção no início de junho. A Association of Flight Attendants, com 50 mil membros, secundou essa posição, com a sua presidente, Sara Nelson, a afirmar que na sua indústria “não são as soluções para as alterações climáticas que acabam com os empregos. São as próprias alterações climáticas que acabam com os empregos”, dado que os fenómenos meteorológicos extremos e a turbulência crescente estão a deixar mais voos em terra e a tornar as viagens aéreas mais perigosas.

A federação do estado do Maine e uma série de conselhos sindicais seguiram-lhes o passo, tal como alguns sindicatos a nível local. Enquanto a International Brotherhood of Electrical Workers, por exemplo, tem sido relutante a apoiar o Green New Deal, pelo menos um dos seus ramos locais subscreveu-o. “Estamos a 100% com os empregos verdes”, declarou Lou Antonellis, o administrador da secção 103 em Boston. “Temos andado a promover a tecnologia verde há muito tempo”. (Para uma lista mais completa dos apoios sindicais, clique aqui).

Há um contexto — pensem nele como uma história profundamente emaranhada — por detrás da complexidade da resposta do mundo laboral ao Green New Deal. Para começar, o trabalho raramente fala a uma só voz nos Estados Unidos. Depois, o movimento sindical está agora claramente na defensiva. A fatia sindicalizada da força de trabalho caiu de um máximo de 35% nos anos 1950 para menos de 11% hoje em dia, graças a uma combinação de desindustrialização, automação, cortes, ataques ao setor público, e uma retaliação virulenta das grandes empresas contra os sindicatos que teve início nos anos 1970. O motor da produção em massa como os trabalhadores da idústria automóvel, metalomecânica e minas — setores em que é difícil imaginar um futuro livre de combustíveis fósseis — foi o mais atingido, e essa situação dá-nos algum contexto para as suas desconfianças acerca das propostas a propósito das alterações climáticas.

A posição débil das organizações de trabalhadores nos Estados Unidos também contribui para a oposição da AFL-CIO à noção de que os maiores estados poluidores do planeta têm de fazer as maiores reduções. Em resultado disso, a sua posição sobre os acordos internacionais do clima ficam muito aquém das do movimento sindical internacional. Por exemplo, a AFL-CIO opôs-se ao Protocolo de Quioto em 1997 porque este exigia maiores reduções aos grandes poluidores e desde então tem sempre apoiado o governo dos EUA quando este defende que os países ricos não podem ser obrigados a cumprir as normas de redução de emissões enquanto os países pobres não o fizerem também.

As organizações ambientais e o Green New Deal

Passa despercebido na cobertura mediática, mas as organizações ambientais também estão divididas quanto ao Green New Deal. Muitas delas consideram a proposta demasiado fraca. A sua linguagem, dizem, ainda permite a extração, utilização e xportação de combustíveis fósseis, bem como a expansão da energia nuclear.

Afinal, o GND não tem por meta as emissões zero, mas “zero líquido”. Traduzindo, isso significa que as emissões de dióxido de carbono podem continuar desde que algum tipo de sistema de compensação seja implementado. Apesar da AFL-CIO entender que o zero líquido já vai demasiado longe, muitas organizações ambientalistas criticam a falta de vontade do GND em preferir as “emissões zero”. De facto, até as próprias emissões zero suscitam reticências para alguns ambientalistas, que sublinham que a energia nuclear, apesar da sua natureza não renovável e das potenciais consequências devastadoras para o ambiente, continua a ser uma forma de produção de energia com emissões zero. Em vez disso, muitas organizações ambientalistas defendem uma transição para fontes de energia que sejam por um lado 100% renováveis e, por outro, com emissões zero.

Tal como os sindicatos, estas organizações ambientalistas radicais queixaram-se de ter sido postas de lado na discussão que levou à proposta do Green New Deal, não podendo assim pressionar para uma transição mais rápida para as 100% renováveis e o que chamam de “100% descarbonização”. Ao mesmo tempo que apelam, à semelhança dos sindicatos, a uma “transição justa”, a sua tónica é sobretudo colocada na situação dos indígenas e outras comunidades na linha da frente, afetadas pela extração de combustíveis fósseis, tal como os trabalhadores dessas indústrias. Mas ao contrário das críticas sindicais, esta posição ambientalista teve escassa atenção dos media mainstream.

Muitos dos 600 signatários de uma carta que resume a crítica dos ambientalistas radicais ao GND eram organizações pequenas, locais ou confessionais. Alguns dos maiores grupos ambientalistas como o Sierra Club, o National Resources Defense Council e o Environmental Defense Fund estiveram manifestamente ausentes das assinaturas. No entanto, outros grupos como o Greeenpeace, Friends of the Earth, 350.org, Sunrise Movement, Rainforest Action Network, Indigenous Environmental Network e Amazon Watch assinaram a carta. Tal como o fez o Labor Network for Sustainability, a voz mais radical do movimento sindical a trabalhar em prol da ação sobre alterações climáticas.

O Indigenous Environmental Network escreveu: 

“Continuamos preocupados que a menos que a proposta sofra algumas alterações, o Green New Deal continuará a permitir incentivos por parte das indústrias e dos governos para continuar a causar danos às comunidades indígenas. Além disso, como têm dito há muitas gerações as nossas comunidades que estão na linha da frente da crise climática, a forma mais direta e impactante de abordar o problema é a de deixar os combustíveis fósseis no solo. Não podemos continuar a deixar na mão da indústria dos combustíveis fósseis as escolhas que determinam as escolhas da economia e da energia deste país. E até que o Green New Deal se torne explícito nesta reivindicação e feche o ciclo dos incentivos nocivos, não podemos apoiar a resolução na sua globalidade”.

Outras organizações como a 350.org assinaram o Green New Deal com reservas. O Greenpeace aplaudiu-o, embora avisasse que “a indústria do petróleo, gás e carvão vai lutar com unhas e dentes enquanto continua a despejar poluição na nossa atmosfera. Para conseguirmos chegar ao futuro verde que queremos, as leis federais DEVEM também parar quaisquer grandes projetos de expansão de petróleo, gás e carvão como os oleodutos e novos furos”.

O futuro do GND

Apesar dos desafios colocados por setores tanto do movimento sindical como ambientalista, que os promotores pensavam contar entre os seus principais apoiantes, a resolução do Green New Deal de Markey e Ocasio-Cortez veio dar um grande contributo para um verdadeiro debate pela primeira vez na praça pública acerca da forma que poderá tomar uma política climática justa e eficaz. Para as organizações ambientalistas de base, os sindicatos, os coletivos não-governamentais, o Congresso e os media, à medida que se multiplicam as ondas de calor, que o Ártico vai ardendo, e os fenómenos meteorológicos extremos de todo o tipo se tornam notícia quase todos os dias, a questão de o que fazer emerge finalmente como um tema de debate, até mesmo na campanha presidencial de 2020. Nas discussões políticas, a urgência da crise climática é reconhecida pela primeira vez e está em cima da mesa a questão de como reduzir radicalmente as emissões de carbono, dando prioridade à justiça social em simultâneo. E são mesmo estes os debates que precisamos neste momento de emergência em que a civilização humana está em causa, pela primeira vez na nossa história.


Aviva Chomsky é uma historiadora norte-americana, professora da Universidade de Salem (Massachussets). 

Artigo publicado no portal Nation of Change, traduzido por Luís Branco para o esquerda.net. 

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