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Comuna de Paris, os 72 dias que mudaram o mundo

Os 150 anos da Comuna de Paris são o pretexto para analisar a primeira experiência de autogoverno operário, os debates que suscitou, as esperanças que alimentou e a forma como continua a ser uma inspiração. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Apesar da brevidade da experiência, 150 anos depois, a Comuna de Paris continua a ser uma fonte de inspiração, de debate, de polémica. Caso para dizer, como a velha canção de então, que ela não morreu, apesar de ter sido esmagada brutalmente na sua época.

Neste dossier, olhamos para a sua cronologia para seguir, passo a passo, antecedentes, incidências e sequelas daquele que foi o primeiro momento de autogoverno operário.

Marcello Musto sintetiza-nos os seus momentos decisivos e as propostas políticas e sociais que procurou implementar em nome da justiça social, pensando-a como tendo feito viver uma alternativa de sociedade, sinónimo da própria ideia de revolução.

Eric Toussaint prefere salientar um aspeto concreto, decisivo para entender o seu destino: a sua relação com o Banco de França e com a dívida. Avaliando como um erro não ter tomado conta daquela instituição conclui que um governo popular não pode ficar paralisado diante do mundo financeiro e deve tomar medidas radicais.

Seguimos também, com Michael Löwy outros debates políticos e estratégicos que suscitou, como a pensaram Marx, Trotsky e Lenine mas também como permanece “de uma espantosa atualidade” para as novas gerações.

O mesmo defende Kristin Ross que estudou o seu imaginário político. Para além de encontrar ecos dela em movimentos que vão desde as acampadas de Madrid ao Occupy Wall Street, esta autora pensa que a Comuna antecipou visões contemporâneas sobre arte e ambiente, ao promover a “beleza pública” enquanto direito a viver num ambiente agradável e ao valorizar a natureza para além das regras do mercado.

Também de arte nos fala Pedro Rodrigues, mais concretamente de música, numa viagem pelas canções da Comuna que nos permite compreender aspetos diferentes dos acontecimentos, entender a ressonância e a sua originalidade histórica da Comuna.

Por sua vez, a historiadora Mathilde Larrère destaca o papel das mulheres no movimento insurrecional. Como participaram desde o seu início mas têm sido invisibilizadas. Elas, que na altura foram alvo das maiores calúnias por parte dos adversários da Comuna e que até no seio do movimento operário da época tiveram de enfrentar a hostilidade de muitos grupos.

E é também no feminino que damos também voz a algumas das vozes da Comuna. Seguimos os quadros desgarrados das barricadas que nos trazem as memórias da lendária Louise Michel. E divulgamos o panfleto escrito em nome dos operários de Paris pela communard André Léo dirigido aos camponeses franceses.

Plural na sua constituição, juntando neojacobinos, republicanos radicais e socialistas de várias matizes, a ela dedicaram-se também de corpo e alma os membros da Primeira Internacional franceses e os dois enviados de Londres. Yves Lenoir conta-nos a história da AIT em França nesses tempos e sublinha a importância dos internacionalistas para as medidas sociais da Comuna.

E os ecos do que ia acontecendo em Paris chegaram na altura até Portugal, inspirando uma certa elite intelectual jovem, por um lado, e despertando a ira da imprensa monárquica, conservadora e clerical por outro, explica Tiago Rego Ramalho.

Estes ecos da Comuna prolongam-se até à atualidade. Ainda hoje, a batalha pela memória se faz sentir em França. Em ano de aniversário redondo, os 150 anos reavivaram polémicas antigas como as que andam à volta da Basílica do Sacré-Coeur, construída para expiar os “ pecados dos federados”. E, com a Câmara de Paris, nas mãos de uma coligação liderada pelo PS a decidir assinalar o evento, criou-se uma nova polémica sobre as comemorações. Ao mesmo tempo que se discutia se os novos movimentos sociais como os coletes amarelos se podem considerar como seus herdeiros.

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Neste dossier:

Comuna de Paris, os 72 dias que mudaram o mundo

Os 150 anos da Comuna de Paris são o pretexto para analisar a primeira experiência de autogoverno operário, os debates que suscitou, as esperanças que alimentou e a forma como continua a ser uma inspiração. Dossier organizado por Carlos Carujo.

A chamada Geração de 70 foi influenciada pela Comuna de Paris.

A Receção da Comuna de Paris de 1871 em Portugal

A insurreição parisiense teve enorme impacto numa certa elite intelectual jovem que se afirmaria nas letras e na política. Do outro lado, a imprensa monárquica, conservadora e clerical abominou-a, vulgarizando as figuras como um bando de revoltosos que queriam acabar com a ordem. Por Tiago Rego Ramalho.

Ilustração sobre a resistência à apropriação dos canhões de Montmartre por Thiers, o momento que despoletou a revolta que originou a Comuna. Foto de Wikimedia Commons.

A alternativa possível da Comuna de Paris

Paris demonstrou que era necessário perseguir o objetivo de construir uma sociedade radicalmente diferente da capitalista. Ainda que “o tempo das cerejas” nunca tenha chegado para os seus protagonistas, a Comuna encarnou a ideia abstrata e a transformação concreta ao mesmo tempo. Por Marcello Musto.

Barricada no cruzamento das avenidas Voltaire e Richard-Lenoir. Biblioteca histórica da Cidade de Paris/Wikimedia Commons.

A cronologia da Comuna de Paris

Data a data, uma compilação dos principais acontecimentos desde a guerra franco-prussiana, à vitória da Comuna até ao seu rescaldo.

Banco de França. Imagem da instituição.

A Comuna de Paris, a banca e a dívida

Um governo popular não pode ficar paralisado diante do mundo financeiro, deve tomar medidas radicais em relação ao banco central, bancos privados e dívidas. Se não o fizer, está condenado ao fracasso. Por Eric Toussaint.

Ilustração sobre a Comuna de Paris. Fonte: Site da Gauche Anticapitaliste.

A Comuna de Paris e os debates que suscitou

Marx, Trotsky, Lenine foram alguns dos que pensaram sobre a Comuna de Paris. Mas esta primeira tentativa de emancipação social dos oprimidos permanece de uma espantosa atualidade e merece alimentar a reflexão das novas gerações. Por Michael Löwy.

Pormenor da capa de Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune de  Kristin Ross.

Comuna de Paris: rebelde, polémica e atual

No seu livro Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune, Kristin Ross sugere que esta revolta antecipou visões contemporâneas sobre Arte e Ecologia e que as diferenças entre marxistas e anarquistas eram menores que se pensa.

Ilustração de foto de Eugene Pottier, membro da Comuna e autor de várias músicas sobre ela.

«Ela não morreu»: as canções e a Comuna de Paris

Uma pequena viagem pelas canções da Comuna de Paris, para ler e para ouvir, permite compreender aspetos diferentes dos acontecimentos, entender a ressonância e a originalidade histórica da Comuna, a sua coragem e a sua atualidade. Por Pedro Rodrigues.

Mulheres na barricada da Place Blanche na Semana Sangrenta. Litografia do Museu de Carnavalet/Imagem Wikimedia Commons.

Mulheres na Comuna: “eram mais monstruosas porque sendo mulheres transgrediam tudo”

Estiveram no despoletar do movimento e até ao final nas últimas barricadas mas têm sido invisibilizadas. Os seus nomes esquecidos e os seus contributos menorizados. E no seio do movimento operário da época enfrentavam hostilidade de muitos grupos. Entrevista à historiadora Mathilde Larrère.

Louise Michel.

Memórias da Comuna

Figura lendária da Comuna de Paris, Louise Michel traz-nos, neste excerto, quadros desgarrados das barricadas: de insensatez, de crueldade, de cobardia. Mas também e sobretudo da coragem dos “federados”.

La paye des moissonneurs, Léon-Augustin Lhermitte, 1882.

A Comuna fala aos camponeses: Irmão, enganam-te!

A Comuna não foi só Paris mas todas as outras experiências comunais foram rapidamente derrotadas. Os operários da capital não pararam de tentar contactar com o resto do país. Este texto, tornado panfleto, que apelava à solidariedade dos camponeses, é disso exemplo.

Congresso de Genebra da AIT.

A Comuna e a Primeira Internacional

Antes da Comuna, os líderes franceses da AIT eram perseguidos mas as secções da organização contavam com milhares de membros. Durante a insurreição, os seus membros vão desempenhar um papel importante na obra social realizada pela Comuna. Por Yves Lenoir.

Muro dos Federados. Foto: Rama/Wikimedia Commons.

150 anos depois, a batalha em França é pela memória da Comuna

As comemorações dos 150 anos foram polémicas reavivando a batalha pela memória. Monumentos como o Sacré-Coeur, construído para expiar os “ pecados dos federados” também não a deixam esquecer. E movimentos sociais como os coletes amarelos levantam questões sobre se serão herdeiros da Comuna.