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150 anos depois, a batalha em França é pela memória da Comuna

As comemorações dos 150 anos foram polémicas reavivando a batalha pela memória. Monumentos como o Sacré-Coeur, construído para expiar os “ pecados dos federados” também não a deixam esquecer. E movimentos sociais como os coletes amarelos levantam questões sobre se serão herdeiros da Comuna.
Muro dos Federados. Foto: Rama/Wikimedia Commons.
Muro dos Federados. Foto: Rama/Wikimedia Commons.

De um lado, o muro dos Federados no cemitério de Père-Lachaise. Do outro, a Basílica do Sacré-Coeur. Dois locais emblemáticos que inscrevem em permanência a Comuna de Paris de 1871 na cidade. “A Comuna não morreu”, dizia a célebre canção. As polémicas que a rodeiam certamente que não.

Há quem insista na batalha da memória todos os anos. A 18 de março, os Amigos e Amigas da Comuna de Paris organizam sempre uma visita ao muro dos Federados, onde foram fuzilados e lançados numa vala comum 147 dos últimos resistentes, e ao cemitério de Montparnasse onde foi construido em 1971 um monumento aos defensores da Comuna.

Este ano, aniversário redondo, a polémica subiu de tom. A Câmara de Paris, presidida pela socialista Anne Hidalgo decidiu comemorar com 50 eventos, durante os 72 dias que a revolta popular durou, os 150 anos da Comuna de Paris. A 18 de março, a própria presidente marcou presença na praça Louise Michel, onde foram coladas 50 figuras em tamanho real representando os communards e do programa consta que irá plantar uma árvore em sua memória em Montmart.

O seu adjunto, Laurence Patrice, do Partido Comunista Francês, organizador do evento, citado pelo 20 Minutes, sublinha que a Comuna foi “uma experiência de democracia participativa”, de “grande modernidade”, nomeadamente devido “ao lugar das mulheres, à liberdade de amar, à melhoria das condições de trabalho e de vida para os mais modestos, ao acolhimento aos estrangeiros”. Para além das comemorações, o seu partido conta-se entre aqueles que querem mudar o nome de uma estação de metro em homenagem: Belleville, passaria a ser Belleville – Comuna de Paris 1871.

A França Insubmissa também olha para o evento histórico com simpatia. Citada pelo mesmo órgão de comunicação social, a conselheira parisiense Danielle Simonnet identifica-se “plenamente” com as suas ideias “a sua abordagem insurrecional, o seu patriotismo republicano e uma democracia ao serviço da igualdade e da liberdade”. E não deixa de mandar uma alfinetada nos socialistas que acusa de partilhar com a direita “um desprezo de classe” contra os mais desfavorecidos.

A direita está longe de concordar com esta avaliação do passado e reagiu fortemente. Rudolph Granier, dos Les Républicans, o partido fundado por Nicolas Sarkozy em 2015 como sucessor da UMP de Chirac, é um dos mais vocais, declarando ao Le Figaro que não se deveria “dançar ao som dos assassinatos e dos incêndios”. Ainda segundo ele, na Europe1 a Comuna é “um momento de uma violência rara”, “um banho de sangue, a destruição de Paris”, fazendo eco dos “mitos negros” que os conservadores alimentaram para diabolizar o governo dos trabalhadores.

Para além disso, a três de fevereiro passado, Granier já se tinha insurgido contra a atribuição de uma subvenção municipal à Associação dos Amigos e Amigas da Comuna alegando que esta “glorifica os acontecimentos mais violentos da Comuna” escreve o Le Monde.

Curiosamente, tanto o partido do atual presidente Emmanuel Macron, o La République En Marche, quanto a extrema-direita de Marine Le Pen parecem não querer entrar na contenda histórica. O que o Libération vê como uma tentativa de se distanciarem da clivagem tradicional esquerda-direita.

Sacré-Couer, a Basílica da “expiação”

Muitos dos dez milhões de turistas que visitavam a Basílica do Sacré-Coeur todos os anos, antes da pandemia, nem imaginavam que este local é outro ponto de discórdia desta guerra dr memória. O segundo monumento mais visitado de Paris pontua a colina de Montmartre e começou a ser construído em 1873, explicitamente para “expiar os crimes dos federados”. Só ficou oficialmente terminada em 1919. Seis arquitetos e muita história depois.

O prefeito de Ile-de-France, um cargo de nomeação presidencial, Marc Guillaume, através do seu departamento de cultura propôs a classificação oficial do edifício como monumento histórico. A ministra da Cultura, Roselyne Bachelot, concorda.

Mas nem todos são da mesma opinião. Em janeiro passado, sob proposta do grupo ecologista e com os votos da esquerda foi aprovado um voto que propõe adiar esta classificação de forma a “respeitar as comemorações” e porque o edifício foi “construído com o sangue dos Communards”.

Este é um “peditório” para o qual os Amigos da Comuna não dão. O historiador Roger Martelli, co-presidente da instituição, admite ao Le Point que a inscrito do Sacré-Coeur na lista de monumentos históricos “é indiferente”. Vê nela apenas “um piscar de olho que o poder faz a uma certa direita”.

Há ainda os mais radicais. Em 2017, uma proposta anónima no debate do orçamento participativo de Paris propunha a destruição da Basílica. Foi invalidada mas tornou-se viral.

Nas redes sociais, através de uma conta com o nome de uma Communard de 1871, o (ou a) suposto autor diz que foi uma brincadeira que demorou dez minutos a fazer. Foi afinal levada bem a sério por muita gente.

Coletes amarelos, herdeiros da Comuna?

Para além da clivagem esquerda-direita, a Comuna é chamada à colação por vários movimentos sociais. No Nuit Debout em 2016, nos Coletes Amarelos mais recentemente, nas ZAD, zonas a defender, bloqueios de longa duração e acampamentos que tentam parar projetos de construção, nomeadamente por razões ambientais, há quem faça uso do imaginário de 1871.

Mais do que o de maio de 1968 até. Julian Coman no Guardian lembra o cartaz de um trabalhador dos caminhos de ferro há algum tempo numa manifestação. Dizia algo como “não queremos saber de maio de 1968. Queremos 1871.” Ao mesmo meio de comunicação social, a historiadora Mathilde Larrère explica que a Comuna “nunca se tornou parte de uma memória coletiva consensual”. As tentativas de recuperação do maio de 68 pelo mainstream, assim como o enquadramento de alguns dos seus protagonistas nas elites políticas e culturais do país também podem ajudar a uma maior rejeição deste momento e a uma identificação de mais radicalidade no projeto dos communards.

Porque é que pode haver identificação entre Coletes Amarelos e Comuna? Esta investigadora da época responde: “A Comuna colocava questões sobre o poder centralizado, sobre a democracia representativa e a soberania popular. Os gilets jaunes colocam as mesmas questões, apesar de num contexto diferente. Estamos realmente bem servidos por os nossos representantes eleitos e pela nossa democracia representativa? Haverá outras formas através das quais a soberania popular pode ser exercida? Estes temas têm sido recolocados e é por isso também que, do outro lado do espetro, há uma recusa em respeitar a memória da Comuna.”

Já a historiadora Ludivine Bantigny, ao France 24, liga este recrudescimento à “efervescência à volta dos “comuns”, que advoga uma democracia direta através de assembleias populares”, ao facto do “capitalismo e neoliberalismo” serem “cada vez mais contestados” e da Comuna ter mensagens atuais sobre “o lugar das mulheres, a democracia, a arte, a cultura, o trabalho, a partilha de tarefas...”

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Neste dossier:

Comuna de Paris, os 72 dias que mudaram o mundo

Os 150 anos da Comuna de Paris são o pretexto para analisar a primeira experiência de autogoverno operário, os debates que suscitou, as esperanças que alimentou e a forma como continua a ser uma inspiração. Dossier organizado por Carlos Carujo.

A chamada Geração de 70 foi influenciada pela Comuna de Paris.

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Paris demonstrou que era necessário perseguir o objetivo de construir uma sociedade radicalmente diferente da capitalista. Ainda que “o tempo das cerejas” nunca tenha chegado para os seus protagonistas, a Comuna encarnou a ideia abstrata e a transformação concreta ao mesmo tempo. Por Marcello Musto.

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Muro dos Federados. Foto: Rama/Wikimedia Commons.

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