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Carmen de Figueiredo: a proibição de “Famintos”

A PIDE censurou a obra “Famintos”, de Carmen de Figueiredo, considerando que esta se “refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo foi uma escritora portuguesa do século XX, agora quase desconhecida, e isto apesar da sua produção extensa: 15 romances, três livros de contos, uma novela), mais de 12 mil contos na imprensa portuguesa. Para além disso, fundou a “Mosaicos-Revista”, onde foi editora e directora.

A autora viu dois dos seus romances proibidos pela PIDE. Os ficheiros da polícia política na Torre do Tombo não incluem uma ficha sua, o que poderia permitir-nos aceder a alguns dados biográficos, tais como a data de nascimento. Contudo, é possível, nos arquivos do Secretariado Nacional de Informação, aceder aos documentos que registam os processos de censura dos romances Famintos (1950) e Vinte Anos de Manicómio! (195-).

Não é fácil encontrar os livros de Carmen de Figueiredo, podendo quase exclusivamente ser encontrados em alfarrabistas ou websites de revenda. Entre outros pontos, irevemos tentar entender como ou se a acção da PIDE foi um factor contributivo para que as obras desta autora, ou mesmo a autora, tenham sido apagadas do conhecimento público.

Famintos (1950) conheceu duas edições em editoras1. A primeira data de 1950 e foi feita pela Editorial Domingos Barreira, no Porto. A segunda é do ano de 1975, com a chancela da Porto Editora.

O enredo gira à volta da figura de António Luís, que, sendo casado com Ana Lúcia (Aninhas), filha de D. Lídia, é ainda pai de Maria Teresa e Manuela. Felizes até ao nascimento das filhas, gémeas, o casal vê-se mergulhado numa crise que o assolou depois do parto. Afinal, este último provocara a Ana Lúcia uma apatia mental que a fizera votar todo o mundo ao seu redor ao esquecimento. Incapaz de assistir à situação (“ficara assim aparvalhada, tatebitate, de olhar distante, mortiço”, p. 13) e perante a recusa da sogra de internar a filha, António Luís resolve virar as costas, partindo para Manaus, onde estivera em novo. Sendo aí assolado por febres, acaba por voltar para junto da esposa. Ana Lúcia, contudo, não o reconhece, e ele lamenta não ter sido mais firme, não ter insistido no internamento, contra a vontade da sogra, que não cedia graças às “histórias horrorosas que ouvia contar, acerca de pessoas encarceradas nesses miseráveis antros de loucura” (p. 62). No final da narrativa, sendo as gémeas já adultas, Manuela morre. Ana Lúcia, que, nessa altura, já tinha permitido a António Luís aproximar-se, e que se encontrava então grávida, fica num estado de depressão:

Aninhas sofria. No seu psíquico operava-se um trabalho lento, depressivo para ela. Se do contacto carnal renascera a mulher, fechada durante anos na torre duma indiferença apavorante, constrangedora, agora, no crescimento desse fruto do seu amor, ela sentia como que uma vaga de nostalgia a subvertê-la de novo. Realmente, nunca compreendera porque é que Teresinha e Manuela lhe chamavam mãe. Este era o seu pensamento fixo: – as filhas, que não sabia porque eram suas filhas... (p. 229)

Num momento clarividente, que aparece na narrativa quase em desígnio insondável, acaba por alegrar-se com o nascimento da filha, crendo que substitui a que perdera:

– Luís, perdemos uma mas Deus ofertou-nos outra Manuela... Uma candeia acesa para alumiar de risos a nossa velhice... (p. 232)

De forma paralela a esta história, são descritas as condições miseráveis em que viviam trabalhadores, ao lado de descrições eróticas que, por vezes, são incestuosas e homossexuais. As descrições da pobreza e da exploração, até da degenerescência social, que afectam os trabalhadores rurais, e até da forma como estes acabam por desencontrar-se de qualquer potencial rumo para as suas vidas, revelam conflitos entre classes, e de uma forma que está ao serviço do programa ideológico que foi o mote do neo-realismo. Estas, por si, já afrontariam a moral do regime. Contudo, foram as descrições sexuais os motes da proibição.

Censura de Famintos

A proibição de Famintos surgiu dias após a proibição de Vinte Anos de Manicómio!2, apesar de as obras terem sido publicadas em sentido inverso. O relatório que a esta obra concerne (Censura, cx. 733, dos arquivos do SNI da Torre do Tombo3) dita o seguinte:

Exmo. Sr. Director dos Serviços de Censura

Lisboa

Nº17/L.

Porto, 12 de Fevereiro de 1952

Em cumprimento de ordem telefónica, fiz a leitura do livro “FAMINTOS”, da autoria de Carmen de Figueiredo, que junto tenho a honra de remeter a V. Exª. com o seguinte parecer:

Trata-se de uma obra que se refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras.

Com pretensão a obra realista, relata casos amorais e até amores incestuosos, com descrição de imoralidades doentias, como poderá verificar-se pela leitura das passagens constantes das páginas: 454-475-486-717 a 7389-8310-8411-9212-9913-10014-10715-10916/11017-11818-13919-14620-16221-17822-18023-18724-20225-215-21626-21727-22128.

Pelo exposto proponho a proibição dêste livro.

Informo V. Exª. Que ordenei à livraria “PORTO-EDITORA”, sita na Praça D. Filipa de Lencastre nº42, desta cidade, detentora da propriedade literária da referida obra, para que providenciase sôbre a sua retirada da venda ao público, até ulterior resolução de V. Exª.

Aproveito o ensejo para apresentar a V.Exª. Cumprimentos muito respeitosos.

A Bem da Nação

O Presidente

Esta proposta do censor da PIDE foi confirmada por despacho no dia 13 de Fevereiro de 1952.

Sob o ponto de vista da polícia política, o romance de Figueiredo incluía “caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Num contexto em que o sexo era um tabu, as descrições apresentadas em notas de rodapé bastavam para que a circulação do livro fosse impedida. Para mais, tinham contornos que agravariam o escândalo da PIDE: a homossexualidade e o incesto. Por estes motivos, o livro não poderia passar incólume pelos serviços censórios, embora seja de notar que circulou até que a autora tenha chamado a atenção com Vinte Anos de Manicómio!.

Para saber mais sobre as obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE, clique aqui.

 

1Em entrevista dada ao jornal madrileno Digame, no dia 4 de Dezembro de 1951, a autora afirma que o livro já aí teria conhecido três edições, o que nos leva a crer que se referia a edições de autora.

2A autora, em 1997, afirma ter em seu poder as ordens de proibição de Salazar: “Também dois dos meus mais poderosos romances foram proibidos, por ordem de Sua Excelência, Doutor Oliveira Salazar. - “Vinte Anos de Manicómio” - proibido em 30/01/52 Of.º à Pide Nº 387 – L. - 31/01/52. - “Famintos” - Proibido em 13/02/52. Of.º 267 – L. de 13/02.52. (Estes documentos, tenho-os em meu poder).” (Figueiredo, 1997: 182).

3Com o código de referência PT/TT/SNI-DSC/19/137.

4 “(...) cosidos os rostos, donde escorre a cor roxa que não engana, pelas bebedeiras consecutivas, que transformam um homem em farrapo alucinado, apodrecido o sangue e nervos descontrolados – elementos principais da degenerescência da loucura e do crime, pobres e miseráveis elementos, carregados para mais de perigosas taras ancestrais, que infelizmente continuam a enodoar as sociedades, - só esses, rodilhões espúrios que negam a família, atascadas as almas vis em álcool peçonhento, após a ceia saiam, encafuando-se nas tabernas, donde mais tarde, pela horta-morta rolavam aos tropeções, vomitando injúrias desconexas.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 45)

5 “(...) onde as rendas das míseras de desconfortáveis habitações eram mais acessíveis a seus ganhos pelintras, palmilhavam as congostas, falando alto dos seus dramas de famintos incompreendidos, dizendo à noite a revolta que lhes desiquilibrava [sic] os nervos tensos pela labuta árdua e constante, trabalhados de desespero, quando chegados aos tugúrios os filhos lhes pediam o pão que não podiam dar-lhes. E essas vidas ignoradas de famintos, assim se arrastavam sob a noite duma vida inteira de trabalhos, dúvidas e exaustações.

Só os bem empregados se fixavam na vila, nesse coração azougado de pequeno burgo, atafulhado de gente ávida, tracejadas a almas pelos fios dourados de secretas e altíssimas miragens. Lá, era o ventre onde se geravam anceios [sic] grandiosos e mesquinhas intrigas, numa amálgama fantástica de ódios, perseguições e vinganças aos que subiam na escala dos valores sociais; na frente subservientes e mesureiros, bajulavam a torto e a direito, para apunhalar torpemente pelas costas. Nesse ventre miserável, pálida miniatura dos grandes centros citadinos, não faltava a alfurja como máscara de trágicas mandíbulas, camuflada numa farmácia modesta, de fachada corroída pela lepra do tempo, e em cujos escaninhos escorria e alastrava o líquido corrosivo dos mais perigosos venenos.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 47)

6 “(...) acompanhado por essas vozes estranhas, vindas de bocas torturadas, arrepanhadas pelo rictus selvagem que a miséria imprime como selo agressivo, nas faces glábras desses entes que só conhecem privações e desconforto. (…) Eles lá seguiam, atalhos fora, discutindo os míseros salários, fazendo comparações de mesquinho desenho, sempre à espera da hora redentora que lhes abra as portas douradas dum viver mais humano e equitativo, perdido no escuro, o recorte fantástico das suas sombras.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 48)

7 “Aninhas imperturbável, sustentava esse olhar do marido, afiado como espada rebrilhante, tinto pela febre da lascívia, ardente como brasa de fogueira ateada, a retratar inteira a ideia da posse mil vezes sonhada e desejada. Porém, nem o mais leve estremeção sacudia as linhas puras daquele corpo de mulher jovem. Entretanto, a impetuosidade forte do macho, renascia em Luís; o desejo, violento como grito de crime, esmagava-lhe a consciência, crescia dentro de si. Dominava-o a obsessão permanente de possuir Ana Lúcia. Já lá iam quase treze anos de renúncia extrema e aflitiva.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 71/72)

8 “E ele a adorar, a desejar a mulher, sem se atrever a possuir, a violar a carne magnífica da própria esposa!” (FIGUEIREDO, 1950, p. 72)

9 “Seca e mirrada, Altina não consegui impressionar; além do mais, aquela fama suja que correra como farrapos de fumo solto, muitos anos antes, é certo, mas presente na sua memória de homem, acerca do seu prazer invertido de garota destrambelhada, fazia-lhe sentir repugnância e nojo pela mulher que conseguira – assim se espalhara o boato! – prender nas malhas do seu amor anómalo outras raparigas de temperamentos duvidosos. Mesmo que ela lhe despertasse simpatia sexual, a lembrança antiga de tal incidente na vida da Pardal-sem-Rabo destruiria imediatamente esse rubro desejo da carne.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 73)

10 “Manuel Tendeiro enfeitiçara-a. Casado e com um rebanho de filharada, nem por isso deixava de a procurar todas as noites.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 83)

11 “A mulher parecia adorar a brutalidade agressiva de Manuel, pois que logo a seguir se entregava inteira e nua, numa onda forte e ardente de estrangulador desejo. Era a fêmea, na revelação total do seu instinto exacerbado por longos anos de àspera [sic] renúncia” (FIGUEIREDO, 1950, p. 84)

12 “(...) pela primeira vez, ele reconhecia na sobrinha mais nova uma interessante mulher (…) todo o elançado correcto e belo do seu corpo apetecido de virgem, deslumbraram o padre” (FIGUEIREDO, 1950, p. 92)

13“(...) a impressão nítida de que um corpo estranho tacteava as suas carnes tapadas com as roupas, o fez estremecer” (FIGUEIREDO, 1950, p. 99)

14 “(...) saltara do leito, e fazendo levantar a mulher implorativa, faminta dum amor impossível, um amor que ele não podia dar-lhe” (FIGUEIREDO, 1950, p. 100)

15 “Sabia ela, entretanto, todos os subtis segredos da volúpia amorosa. E, nas horas vermelhas de bárbara luxúria carnal, quando toda se entregava, à vista do rebanho pasmado, fazia enlouquecer os moinantes, enlouquecendo também.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 107)

16 “por engano concebera, sabia-se lá de quem, se o homem era um safadito amaneirado” (FIGUEIREDO, 1950, p. 109)

17 “- Você está tonta mulher! Eu não quero malhar com os ossos numa cadeia. De quatro meses? Ah! não é a filha da minha mãe que a estas horas vai agatanhar este “útaro” mais fechado que laranja.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 110)

18 “Dizem que o desejo do homem morde mais que sarna, num alastrar de herpes por todo o sangue...” (FIGUEIREDO, 1950, p. 118)

19 “Ai, ser padre sem castração, eis o grande crime, crime que não era dele, mas das leis absurdas que regem os cânones...” (FIGUEIREDO, 1950, p. 139)

20 “um marotão, um lambre-cricas” (FIGUEIREDO, 1950, p. 146)

21 “Nu, avançou, tacteando febrilmente os móveis, sem saber o que desejava, sem adivinhar o que ia fazer.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 162)

22 “quando, com a boca queimada por desejos ásperos, procurava ávido a saliência bicuda dos fartos peitos da amante, para lá sorver, no requinte bárbaro da posse completada, toda a seiva perturbante de prazer que a mulher lhe ofertava no cálice rubro do corpo magnífico.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 178)

23 “- Ora vai mas é à realíssima pata que te pariu, minha vaca! Nem depois de morta a deixas em paz! Olha que não te comeu nada, que tiveste sempre a taça cheia!” (FIGUEIREDO, 1950, p. 180)

24 “(...) logo passante dias quisera abusar da pura virgindade da Marcelina como afinal fazia a todas as outras. A pequena apanhada no celeiro, gritara, gritara, acabando por desprender-se dos braços que a cingiam como tenazes em brasa, fugindo desgrenhada, correndo alucinadamente, ferindo-se nas pedras, rasgando nas silveiras que saltava esbaforida” (FIGUEIREDO, 1950, p. 187)

25 “Tinha-te a me lado, dormíamos juntas, Amparo insinuava sensações espantosas. Pobre de mim, só as vislumbrava em ti... Abraçava-te, e sentia logo o que Amparito me segredava nos corredores, metendo-me ouvidos dentro o seu hálito escaldante; e não só nos corredores, era também nos intervalos, no recreio e na própria retrete, onde ia ter comido, iludindo as professoras” (FIGUEIREDO, 1950, p. 202)

26 “Beijaram-se em religioso silêncio, tombando de seguida, enfebrecidos, presos ao mesmo abraço, confundidos no cacho humano dum desejo vermelho, sobre a palha perfumada, enquanto os olhos semi-cerrados gritavam alto a rebeldia da carne. Estrangulados de emoção, vencidos pelo mesmo desejo bruto e másculo que é afirmação de vida no instante crucial da posse, os corpos misturaram-se com o feno, enterrando-se com volúpia na sua macieza, como se de colchão de penas se tratasse.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 215/216)

27 “(...) o traço das formas esculturais de seus corpos jovens, sensuais e ávidos, por onde a selva forte do desejo corria em caudais de prazer, estoirando os próprios poros.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 217)

28 “Num ímpeto selvagem, começou a despi-la, beijando-a sofregamente, apaixonadamente. Ela contorcia-se, púdica, dobrando-se nervosamente pelos rins.” (FIGUEIREDO, 1950, p. 221)

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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Resto dossier

As obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE

Nas últimas semanas, estivemos a olhar para a história da censura literária em Portugal, focando-nos nas obras das autoras que a PIDE censurou. Neste dossier, podemos ver análises de todas essas obras - um total de 21, escritas por 9 autoras. Dossier organizado por Ana Bárbara Pedrosa.

Escritoras portuguesas e Estado Novo: 9 autoras e 21 obras censuradas

No decorrer do Estado Novo, foram censuradas 21 obras de 9 autoras portuguesas. Salta à vista o número reduzido e a variedade de percursos destas obras, que têm ainda valores literários muito diferentes. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Três Marias: a censura de “Novas Cartas Portuguesas”

"Algumas das passagens são francamente chocantes por imorais (...) Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referencia, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução do processo-crime." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “Minha Senhora de Mim” (1971)

"Minha Senhora de Mim (1971) compõe-se de 59 poemas. Neles, a autora usa a forma poética das cantigas de amigo medievais, usando a literatura canónica – e, portanto, a tradição literária – para desafiar um status quo." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “O delator”

"É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.", pode ler-se num parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de "Quem move as árvores" (1970)

"As relações dialógicas são constantes na obra de Fiama: se em O Testamento vimos que vida e peça se confundem, dialogando, em Quem move as árvores há um paralelismo temporal com alcance no passado, entre a época da monarquia e o Estado Novo. Em nenhum dos casos o povo escolhe, o poder é imposto." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de três peças num volume

"Auto da Família, consiste numa versão ou visão desprimorosa e desrespeitosa do Natal de Cristo, apresentando Maria e José como dois criminosos que, depois de terem morto, para os comerem, a vaca e a mula do presépio, abandonam o filho à porta do lavrador, proprietário da estrebaria onde os deixara alojar." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Museu”

O tom absurdista da peça dificulta a sua análise, na medida em que, para além de não haver grandes relações dialógicas até nos próprios diálogos, se torna difícil descortinar as intenções da autora. No entanto, são mostrados dois grupos numa relação conflitual, em que um está submisso ao outro, recebendo acriticamente as suas instruções, viabilizando acontecimentos que servem os interesses do segundo. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Testamento”

"A peça de Pais Brandão sugere que não pode haver espectadores na vida, que toda a gente tem de intervir em tudo o que à vida pública diz respeito, e é por isso que peça e vida se confundem, mostrando a autora que em tudo há relações dialógicas". Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O Encoberto”

"Trata-se do desenvolvimento em estilo de 'paródia' de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de 'Natália Correia', com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar", pode ler-se no relatório da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A Pécora”

Nesta peça, Natália Correia denunciou os poderes da Igreja e a relação estabelecida entre esta e o Estado, assim como o comércio religioso. Ao mesmo tempo, o povo tem consciência do seu poder colectivo. O Estado Novo não gostou. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O vinho e a lira”

"Como a função destes Serviços não é de índole literária não cabe aqui a apreciação do valor literário desta obra que me parece nulo. Todavia há que assinalar as suas intenções e expressões que considero muito más.", pode ler-se no parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de "O Homúnculo"

O Homúnculo contaria com a rápida censura, sendo de imediato apreendida, e, pasme-se, com a admiração de Salazar. No cenário, a autora denuncia ainda os pactos implícitos e explícitos entre os vários poderes que estruturavam a ditadura salazarista. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “O adolescente”

As orelhas da capa do livro faziam propaganda a dois livros proibidos. Assim, a PIDE proibiu também a circulação deste romance. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A comunicação”

Este é um texto em que a autora apresenta uma ambiguidade entre poesia e teatro. A PIDE considerou que “o estilo irreverente e por vezes pornográfico da linguagem em frequentes passagens de algumas das quadras” obrigava à “reprovação da peça”, já que a sua “Indispensável sequência” impossibilitava “quaisquer cortes de saneamento”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Pigalle”

Como em "Falsos Preconceitos", o romance parece inicialmente querer contrastar uma moral retrógrada portuguesa com uma França livre e moderna. Acaba por mostrar uma França imoral, perversa, desta vez palco de negócios de tráfico e redes de prostituição. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Falsos preconceitos”

A PIDE considerou que “dada a imoralidade que o livro revela”, “não é de molde a ser autorizada a sua circulação no País”, e isto apesar de a obra ser de tal forma reaccionária que, afinal, se colocaria ao serviço do que o regime apregoava. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria da Glória: a proibição de “A Magrizela”

Nesta obra, não apenas há muitas situações sexuais como há muitas variantes que hão-de ter sido ainda mais problemáticas para os censores: sexualidade infantil, necrofilia (praticada por crianças), atracção sexual de uma criança pelo pai adoptivo, relações eróticas homossexuais, relações eróticas grupais, várias relações extra-conjugais. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Vinte anos de manicómio!”

O romance não foi censurado assim que foi publicado. É que, "como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.  O livro tem “um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Famintos”

A PIDE censurou a obra “Famintos”, de Carmen de Figueiredo, considerando que esta se “refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: ephemerajpp.com

Maria Archer: a proibição de "Casa sem pão"

"Casa sem pão" (1957) foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE e deu azo não apenas ao processo mais longo sobre qualquer uma das suas obras, mas também ao processo mais longo que tratamos neste dossier. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: cvc.instituto-camoes.pt

Maria Archer: a proibição de "Ida e volta duma caixa de cigarros"

A PIDE censurou a obra "Ida e volta duma caixa de cigarros", de Maria Archer, considerando que este “não atingiu o alcance moral” e que a autora “compraz-se na volúpia do pormenor sensual”. Por Ana Bárbara Pedrosa.