Vicente Ferreira

Vicente Ferreira

Economista

A estratégia liberal de Milei para conter a inflação tem consistido em promover o colapso da economia e aumentar os níveis de pobreza e desigualdade. Descrever esta experiência como um sucesso é revelador das prioridades de quem o faz.

Se a consolidação orçamental for aplicada em vários países ao mesmo tempo, o impacto negativo no crescimento de uns afeta as trocas comerciais e o crescimento de outros (incluindo Portugal). E isso dificulta, em vez de promover, a redução sustentada da dívida.

Adiar os investimentos necessários é uma escolha que tem saído cara. O desinvestimento traduz-se não apenas na perda de qualidade dos serviços públicos, mas também na ausência de uma estratégia de desenvolvimento económico e territorial que não responda apenas aos incentivos do mercado.

Os primeiros dados sobre a distribuição dos votos entre Democratas e Republicanos sugerem que houve uma viragem assinalável para os segundos entre os eleitores com menos rendimentos. Como evoluíram as condições de vida dessas eleitoras e desses eleitores em 2021 – 2023.

Além da redução do IRC, há outros benefícios para as empresas que não têm tido tanto destaque: a isenção de TSU e IRS nos prémios de desempenho e a majoração da despesa das empresas com seguros de saúde privados. O problema destas medidas é maior do que pode parecer.

As principais beneficiadas da redução do IRC serão as grandes empresas que têm acumulado lucros generosos nos últimos anos. Tendo em conta o programa que os partidos do governo levaram a eleições no início do ano, não se pode dizer que seja surpreendente.

Apesar de o Banco Central Europeu (BCE) já ter reduzido as taxas de juro há três meses, a verdade é que isso ainda não se reflete no bolso das pessoas. O problema da política monetária do BCE é que, na prática, tende a beneficiar os mais ricos.

O que a inflação dos últimos três anos nos mostra é que todas as decisões que os bancos centrais tomam são discutíveis. A política monetária é política. Mas quando os bancos centrais são independentes do poder político, o debate democrático é afastado. A quem serve essa independência?

A maioria dos partidos tem defendido a independência do BCE, com base na premissa de que a política monetária não deve ser definida pelo poder político. Mas raramente se discute o quão frágil - e pouco democrática - é esta ideia.

Além de funcionarem como entrave ao investimento público verde, as novas regras orçamentais europeias também podem acentuar a tendência de divergência entre os países mais desenvolvidos da UE e os restantes.