Rita Gorgulho

Rita Gorgulho

Designer e professora

Este ano todos os meninos têm de ler, interpretar, caracterizar sete livros. Todos têm metas de prazer automático a cumprir. Mas as escolas públicas não têm os livros, nem sequer dinheiro para as fotocópias.

Ingrata que sou e me assumo, não quero mais este remédio, que não cura mas mata.

Estes pais tiveram a coragem de partilhar a história dos seus filhos com o ministro. Enviaram-lhe mais de 100 mensagens contando quem são, mostrando que como qualquer criança têm nome, rosto, amigos e que gostam de ir à escola.

Falam-me de “liberdade de escolha” no ensino, mas a liberdade passa por a escola poder proporcionar a todos o mesmo acesso à educação, com a mesma qualidade; é todos poderem ir mais além, independentemente de serem do campo ou da cidade, do litoral ou do interior, do norte ou do sul.

Obstáculos parece-me ser aquilo com que as crianças mais estão habituadas a lidar. Começam logo no 1º ano, ao partilhar a sala com 25 colegas de turma. A partir do 2º ano, começam a padecer de uma maleita transversal a todos os ciclos: o examinês.

Sr. primeiro ministro, o país precisa das greves que for preciso para o senhor perceber que este não é o caminho, e que queremos tudo a que todos temos direito: paz, pão, saúde, educação.

É mais difícil lutar contra um sistema que se encontra espalhado por todo o mundo. Mas não estamos sozinhos – não é só em Portugal que se juntam vozes contra estes (des)governos. Dia 1 de Junho, serão mais de 100 as cidades europeias a exigir o fim desta política que governa contra as pessoas.

Dois anos volvidos, parece que caminhamos a passos largos para a implosão; não do Ministério, mas da escola pública. Crato também quer cortar nas Atividades de Enriquecimento Curricular, tornando-as num encargo financeiro suportado pelas famílias.

Estuda. Escolhe o que queres fazer e trabalha para isso. Enquanto crescia era o que eu e muitos da minha geração ouvíamos. Mas, a garantia dada pela democracia e pela constituição que teríamos direitos além de deveres, foi sendo corrompida.

Os cortes deste governo vão muito para lá dos números dos dados oficiais publicados em tabelas em que as nossas vidas são meros números e gorduras a eliminar.