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Mãe, guardas o meu quarto?

Os cortes deste governo vão muito para lá dos números dos dados oficiais publicados em tabelas em que as nossas vidas são meros números e gorduras a eliminar.

Mãe, quando for estudar para fora guardas o meu quarto?

Foi assim que o meu filho de sete anos começou uma conversa no outro dia. Guardas o meu quarto?

Os cortes deste governo vão muito para lá dos valores dos dados oficiais publicados em tabelas em que as nossas vidas são meros números e gorduras a eliminar.

O melhor amigo do meu filho emigrou com os pais no ano passado. Na escola, refletem-se as histórias das vidas de quem vai perdendo esperança no futuro.

Os números dizem-nos que o mesmo Portugal que tinha 20% de analfabetos em Abril de 1974, em 40 anos superou os resultados da maioria dos países mais ricos da Europa, encontrando-se na média europeia. Mas este caminho não é certo, não é seguro e arrisca-se a voltar para trás.

São diárias as notícias de crianças que abandonam os estudos por não poderem pagar o passe, dos orçamentos familiares que de tão magros não chegam para pagar a alimentação e de pais que por mais que lutem não conseguem vencer o desemprego em que se encontram. De estudantes do superior que desistem do curso por não poderem pagar as propinas. De projectos de vida adiados. Mãe, guardas o meu quarto?

A escola, lugar de sonhos e de construção de projectos, onde antes se alimentava a sede de conhecimento, tornou-se agora também no local onde se alimenta a barriga. Os cortes deste Governo na educação vão muito para lá dos edifícios que ficaram por acabar, das fotocópias que não se tiram, do aquecimento que não existe, da brutalidade de professores atirados para o desemprego, das turmas a abarrotar. Vamos ser francos, quem é que consegue aprender o quadrado da hipotenusa com a barriga a dar horas? Quem é que assimila os séculos de história mundial quando a batalha para a sua própria sobrevivência é diária?

A violência dos cortes deste governo vê-se na pergunta de uma criança que tem consciência que este país não é para novos, nem para velhos, nem para ninguém a não ser para aqueles que alimentam esta loucura. Aqueles que preferem retalhar o Estado Social e o equilíbrio entre gerações que levou 40 anos a ser construído. Que destrói vidas, que expulsa pessoas, que regressa à caridadezinha e que retira a igualdade da equação. Que insiste num caminho sem futuro e sem esperança.

Na naturalidade e certeza de quem aos sete anos pergunta: mãe, quando eu for estudar para fora guardas o meu quarto?


 

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