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Uma greve não faz a diferença

Sr. primeiro ministro, o país precisa das greves que for preciso para o senhor perceber que este não é o caminho, e que queremos tudo a que todos temos direito: paz, pão, saúde, educação.

Para a grande maioria da população que vive em Portugal, os dias estão cada vez mais difíceis. É difícil “esticar” o ordenado até ao fim do mês. É difícil pagar a casa. É difícil conseguir emprego. É difícil ter filhos. É difícil pôr comida na mesa. É difícil ir ao hospital e pagar taxas moderadoras cada vez mais altas. É difícil ter um plano de vida com perspetivas de futuro. E é também cada vez mais difícil lutar: o medo de perder o emprego ou sofrer represálias é enorme. Nunca houve um panorama tão negro nos últimos anos e as pessoas sentem-se encurraladas entre a vontade de mudança e a força para concretizá-la.

Passos Coelho (até hoje, o único primeiro ministro a conseguir a proeza de ter quatro greves gerais) teve a lata de dizer à população que o país precisa de menos greves e de mais trabalho. Sr. Primeiro ministro, acha que se as pessoas estivessem bem, com trabalho digno, satisfeitas e com perspetivas de vida, iriam na quarta greve geral em dois anos? Ninguém faz greve por ter trabalho, imensos direitos e bons salários. Faz-se greve porque se quer trabalhar, e trabalhar em condições; faz-se greve porque a austeridade não é caminho e está a destruir milhares e milhares de vidas. Sr. primeiro ministro, a sociedade evoluiu e, não vamos deixar que a faça regredir até sermos um país de escravos.

Olhe para os professores, Sr. primeiro ministro: lutaram unidos, e obrigaram o ministério a sentar-se à mesa. Obrigaram-no a negociar... anátema para quem tem como objectivo arrasar o estado social! Ao obrigar o Ministério da Educação a recuar, os professores conseguiram manter a dignidade na profissão e salvaguardar postos de trabalho para o próximo ano letivo. Venceram a guerra? Não. Ganharam uma batalha, e mostraram que as lutas servem mesmo para alguma coisa. E ontem, quem fez greve e deixou o medo em casa não perdeu um dia de salário, ganhou mais uma batalha para derrubar um governo que quer tirar-nos a esperança. Quem diz que uma greve não faz a diferença está errado, porque uma greve não é um fim em si: cada protesto, cada manifestação, cada concentração consegue abalar um bocadinho mais quem está no poder. Uma greve é uma demonstração de descontentamento, uma exigência de respeito, uma exigência por uma vida digna.

É por tudo isto que uma greve faz toda a diferença: a diferença entre aceitar com resignação que não há saída e mostrar-lhes que queremos mais, e que exigimos que se demitam. Sr. primeiro ministro, o país precisa das greves que for preciso para o senhor perceber que este não é o caminho, e que queremos tudo a que todos temos direito: paz, pão, saúde, educação.

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