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Parabéns Nuno Crato, implosão quase concluída

Dois anos volvidos, parece que caminhamos a passos largos para a implosão; não do Ministério, mas da escola pública. Crato também quer cortar nas Atividades de Enriquecimento Curricular, tornando-as num encargo financeiro suportado pelas famílias.

Em 2010, quando ainda não era ministro da educação, Nuno Crato afirmou, numa entrevista à Ecclesia: “O Ministério da Educação deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que não tivesse a Educação como pertença mas tivesse a Educação como missão.”

Dois anos volvidos, parece que caminhamos a passos largos para a implosão; não do Ministério, que esse continua lá, mais burocrático do que nunca, mas do sistema de educação – da escola pública. Foram dois anos a destruir sem qualquer pudor, e com contradições gritantes: aumento do número de alunos por sala em todos os ciclos de ensino, reorganização da rede escolar e aposta em mega-agrupamentos, corte cego em auxiliares, despedimento de professores numa base puramente economicista, diminuição de zonas nos Quadros de Zona Pedagógica. Foram dois anos que viraram as vidas de milhares de professores do avesso.

E os alunos? Será que Crato também quer implodi-los? É que, neste processo, não foram só os professores que viram as suas vidas devassadas. Não vê o ministro que o regresso do exame da quarta classe é uma medida que envergonha qualquer país civilizado? Que não é no final de um ano que se decreta que no próximo o programa afinal vai ser outro… que ainda não está pronto? Onde está o badalado rigor de Nuno Crato, quando nem sequer é claro na lei se os alunos do quarto ano que tenham negativa neste exame têm de cumprir a pena de prisão prevista: aulas até 5 de Julho, num prolongamento de agonia apenas para cumprir uma prova cujo interesse não vai além do Excel do senhor ministro.

Nuno Crato também quer cortar nas Atividades de Enriquecimento Curricular, tornando-as num encargo financeiro suportado pelas famílias. Atualmente, são estas atividades que permitem que os alunos cujos pais não pagam Atividades de Tempos Livres permaneçam na escola até às 17h30 com acesso a um ensino efetivamente gratuito. É clarinho que, para Crato, a escola paga é um sonho a concretizar. É por isso que se mantém o financiamento grosseiro a colégios privados, baseado na falácia da falta de oferta pública – casos concretos como os colégios do grupo GPS, que, só em 2012, arrecadou cerca de 25 milhões de euros de financiamento do Estado. É muito simples: cortar no público, dar aos privados.

O objetivo de Crato não podia ser mais claro: não quer a implosão do Ministério, mas da escola pública, da escola para todos, essa realidade perigosa que permite que qualquer um tenha acesso ao saber… onde o filho do doutor estuda lado a lado com o filho da porteira. É que o saber deve estar reservado só a alguns, porque isto do saber pode ser coisa perigosa…

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