Leonor Rosas

Leonor Rosas

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista

O dia das mulheres não é - e nunca foi - dia de receber flores e presentes cor de rosa ou uma celebração apolítica de supostas virtudes femininas. Pelo contrário, é - e sempre foi - uma jornada de luta das mulheres subalternizadas, violentadas, vítimas de preconceito e de discriminações múltiplas.

No meio de grandes e relevantes discussões que têm tido lugar na cidade de Lisboa - desde o problema da especulação imobiliária à questão das Jornadas Mundiais da Juventude - importa não deixar cair o debate sobre as representações imperiais e coloniais no espaço público.

António Gramsci escreveu um texto no jornal “Avanti!” intitulado “Eu odeio o dia de Ano Novo”. Nele, explica que detesta a transformação da passagem do tempo e do espírito humano num produto comerciável que impõe quebras e continuidades.

Nestes países [europeus], amplos setores da sociedade iniciaram uma discussão sobre a pertinência das devoluções, o contexto do roubo dos objetos e a violência da colonização europeia no continente africano. Precisamos desesperadamente que esse debate chegue a Portugal.

No mês em que, uma vez mais, Lisboa se enche de nómadas digitais e empreendedores, que se fala mais de unicórnios do que de habitação para quem cá vive, nunca é demais relembrar: a cidade é de quem nela vive, não de quem a quer vender.

Só há uma resposta para as políticas do ódio e da pobreza que figuras como Bolsonaro, Le Pen, Ventura ou Meloni representam: uma política de esquerda consequente, que reconstrua o Estado Social e o alicerce numa economia que funcione para todos e não só para alguns.

O que escondem os 100 anos de Adriano Moreira, figura aparentemente consensual da direita portuguesa e da academia?

A memória do Holocausto e da violência desencadeada pelo fascismo contra dezenas de milhões de pessoas, particularmente judeus, não pode servir como retórica justificativa de uma ocupação colonial e de um projeto de limpeza étnica.

Paremos de centrar a conversa em queixas infundadas do comentariado branco e conservador. Está na hora de falar sobre as civilizações que a colonização europeia apagou e exterminou da face da terra e cujos vestígios quer hoje tornar em mercadorias.

Qualquer um de nós que tenha feito uma breve pesquisa pelos sites de arrendamento e compra de casa percebe facilmente que as e os jovens não estão a exigir um T2 no Chiado: queremos casas para viver na nossa cidade - no sítio onde crescemos e queremos continuar a viver.