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Vamos falar de apropriação cultural?

Paremos de centrar a conversa em queixas infundadas do comentariado branco e conservador. Está na hora de falar sobre as civilizações que a colonização europeia apagou e exterminou da face da terra e cujos vestígios quer hoje tornar em mercadorias.

Nas últimas semanas, a controvérsia sobre apropriação cultural e a suposta mistura entre a cultura portuguesa e africana - derivada da colonização - tem agitado o debate público. O tema não é novo. O establishment europeu e norte-americano agita-se sempre que ativistas e movimentos sociais, sobretudo de pessoas racializadas, criticam a utilização de símbolos culturais de povos colonizados por pessoas brancas. Mesmo quando debatemos a apropriação de formas culturais africanas, asiáticas, sul-americanas ou caribenhas, o foco parece continuar a ser o mesmo: as pessoas brancas. Talvez esteja na altura de apontar noutra direção e desencobrir as raízes da violência colonial e do seu projeto de apagamento e destruição das raízes culturais dos povos que procurou submeter.

Em 2018, os académicos Bénédicte Savoy e Felwine Sarr, num relatório que advoga a devolução das obras africanas roubadas expostas nos museus franceses às antigas colónias, determinam que 90% do património material da África subsariana se encontra fora do continente, em grande parte, na Europa. Na segunda metade do século XIX, a espoliação de objetos africanos representava uma parte central do projeto colonial e genocida europeu: a exploração dos recursos humanos, naturais e culturais das colónias eram simbióticas. Ao mesmo tempo que se rotulavam as formas culturais africanas como inferiores - dedicando-se antropólogos e cientistas a explicar que se encontrariam num estado primário do longo caminho para a civilização -, civilizações inteiras foram dizimadas, levando consigo ricas histórias, culturas e formas artísticas. O genocídio físico e cultural dos povos africanos culminava no armazenamento nos museus, coleções e gabinetes de curiosidade europeus dos vestígios materiais das civilizações que a ação colonizadora europeia visava, no melhor dos casos, vergar, e no pior, exterminar. Considerando-se no direito de exterminar os povos “inferiores”, os europeus aniquilaram as suas culturas e apropriaram-se dos vestígios materiais que delas restaram. Antropólogos, exploradores e aventureiros europeus - pintados como corajosos homens de camisa branca, calções caqui e chapéu de palha que abriam caminho à civilização de catana na mão - saquearam esculturas, pinturas e objetos do quotidiano dos povos colonizados. Vestígios materiais como os famosos bronzes do Benim tornaram-se representantes, ainda hoje, da vitória do genocídio e da apropriação cultural dos bens culturais alheios para proveito dos consumidores europeus.

Tal como as tropas portuguesas passearam pelas ruas de Lisboa, o derrotado rei Ngungunhane do Império de Gaza depois de uma infame “missão de pacificação” em Moçambique, também o que resta das formas culturais dos povos indígenas brutalizados é disposto como mercadoria, como entretenimento dos vencedores, pronto a ser comprado e vendido num mercado que valoriza a autenticidade e a originalidade de civilizações perdidas. Culturas inteiras destruídas, os únicos vestígios materiais cuja existência foi permitida materializaram-se sob a forma de mercadorias ou do interior da vitrine dos grandes museus das capitais europeias. Penas de índio para usar na cabeça no carnaval, padrões africanos para enfeitar roupas de marcas de luxo, caricaturas das civilizações mesoamericanas para servir de vilões num filme de ação de Hollywood. É este o paradigma da apropriação cultural do Ocidente, do retrato de uma vitória sobre os povos colonizados que se perpetua e ecoa até aos nossos dias.

Paremos de centrar a conversa em queixas infundadas do comentariado branco e conservador. Está na hora de falar sobre as civilizações que a colonização europeia apagou e exterminou da face da terra e cujos vestígios quer hoje tornar em mercadorias - vendáveis pelo seu caráter “exótico” ou “autêntico” que liga o consumidor ao que já não existe. Um pouco à semelhança do modus operandi que encheu os museus europeus. O foco não são as pessoas brancas: não centremos nestas a conversa que deve ser sobre os legados da violência da colonização. Que saibamos dar palco às pessoas racializadas e descendentes de pessoas colonizadas que lutam pelo reconhecimento das suas formas e expressões culturais, longamente esmagadas pelo colonialismo e pelo racismo. O genocídio é mais do que a eliminação física de outro povo: é também a sua destruição cultural. Está na hora de falar a sério de apropriação cultural, isto é, de reparações e devoluções.

Artigo publicado em Gerador, a 25 de julho de 2022

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista
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