Cosmopolitismo ou Colonialismo: uma história lisboeta

porLeonor Rosas

16 de novembro 2022 - 10:28
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No mês em que, uma vez mais, Lisboa se enche de nómadas digitais e empreendedores, que se fala mais de unicórnios do que de habitação para quem cá vive, nunca é demais relembrar: a cidade é de quem nela vive, não de quem a quer vender.

O dinheiro, tal como o conhecemos numa economia capitalista, representa uma abstração económica, que se concretiza num valor de troca, ao qual as mercadorias podem ser igualadas. Neste sentido, tal como uma mercadoria é abstraída das suas utilidades reais e vendida e comprada com base num valor simbólico, também o espaço sofre um processo semelhante. As nossas cidades reais — de habitantes, trabalhadores, contradições sociais e políticas — são arrasadas para que se possa construir a cidade simbólica, passível de ser vendida no mercado homogeneizador do turismo de massas. Assim, o turista apresenta-se como consumidor, procurando adquirir um pacote de experiências pré-concebidas, sendo, tal como o antropólogo Pablo Alonso explica, os bens culturais transformados em commodities com base numa “aura” vendável. Olhemos, então, para Lisboa: que cidade simbólica se vende?

Cosmopolitismo. Desde os discursos duvidosos de presidentes da câmara e ministros na Web Summit que pretendiam ligar uma vocação civilizadora e descobridora portuguesa a um presente de empreendedorismo e cosmopolitismo, às descrições em sites turísticos lisboetas que propagandeiam uma cidade de “navegadores” e passando pela proposta de criação de uma “Marca Lisboa” - marcada pela ideia de uma “interculturalidade comerciável”, como explica Elsa Peralta - pela autarca socialista Simonetta Luz Afonso. Numa aliança entre narrativas oficiais persistentemente lusotropicais e o mercado desenfreado do turismo, o passado colonial, alvo de um longo processo cosmético, transforma-se em cosmopolitismo e multiculturalidade cool e em espírito de empreendedorismo e de contacto com diferentes culturas. Assim se vende a nossa cidade: silenciando memórias disruptivas, expulsando do centro aqueles que nela trabalhavam e viviam e criando um espaço que do seu passado colonial deixa apenas uma versão lustropical hipster. No mês em que, uma vez mais, Lisboa se enche de nómadas digitais e empreendedores, que se fala mais de unicórnios do que de habitação para quem cá vive, nunca é demais relembrar: a cidade é de quem nela vive, não de quem a quer vender.

O Chiado, uma das zonas prediletas da grande massa turística que visita Lisboa e praticamente deserto de moradores devido às rendas absurdas que aí são praticadas, é um desses espaços em que o passado colonial tem um de dois destinos: ou é transformado em cosmopolitismo vendável ou é apagado sob as camadas de significado impostas pelas dinâmicas de mercado. Rua Paiva de Andrade, Rua Vítor Cordón ou Rua António Maria Cardoso: por elas pululam restaurante in, habitações e negócios de luxo, hostels e alojamentos locais. As ruas da cidade, como folhas de um livro, escondem camadas textuais de significados, de históricas e de dinâmicas de poder. Debaixo das camadas aparentemente neutras e apolíticas impostas pela indústria turísticas surgem muitas outras. Na famigerada Rua António Maria Cardoso teve outrora lugar a sede da polícia política PIDE-DGS e, onde hoje há apartamentos e lojas de design de luxo, foram torturadas várias centenas de pessoas que resistiram ao fascismo. Entremos ainda mais profundamente nestas camadas: estas três ruas ganharam os seus nomes em 1890, momento difícil para o império colonial português depois do Ultimatum inglês, homenageando três “exploradores” do continente africano. Os três homens, com passados militares, fizeram a sua carreira e tiveram o seu reconhecimento graças às expedições que fizeram em território moçambicano, contribuindo para o controlo colonial do território. As camadas sobrepõem-se. Muito mais poderia ser dito sobre cada rua, cada placa toponímicas, cada conjunto de habitantes desta e de qualquer outra cidade. Por muito que o espaço seja embalado e comercializado como neutro, sabemos, como Doreen Massey explica que “the spatial is political” e que cada camada que se vai sedimentando é constituída por dinâmicas de poder e de subalternidade: por quem fala e por quem é silenciado. A camada mais recente - a do embrulho lusotropical moderno, do cosmopolitismo empreendedor e aberto ao mundo - nunca será suficiente para silenciar as camadas que estão por baixo. E os que estão por baixo.

Artigo publicado em Gerador a 14 de novembro de 2022

Leonor Rosas
Sobre o/a autor(a)

Leonor Rosas

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista
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