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Sim, também queremos viver no Chiado e nas Avenidas Novas

Qualquer um de nós que tenha feito uma breve pesquisa pelos sites de arrendamento e compra de casa percebe facilmente que as e os jovens não estão a exigir um T2 no Chiado: queremos casas para viver na nossa cidade - no sítio onde crescemos e queremos continuar a viver.

“Não é um direito humano viver nas Avenidas Novas” ou “ninguém tem os seus direitos humanos violados por não poder alugar um T2 no Chiado”. Duas frases do deputado liberal Carlos Guimarães Pinto com as quais fomos presenteados no último mês. Este acrescentou ainda uma sugestão: que os jovens vão viver para o interior. Ora, qualquer um de nós que tenha feito uma breve pesquisa pelos sites de arrendamento e compra de casa percebe facilmente que as e os jovens não estão a exigir um T2 no Chiado: queremos casas para viver na nossa cidade - no sítio onde crescemos e queremos continuar a viver. Estas pesquisas online fazem-nos chegar a algumas conclusões: não é possível viver sozinho na cidade de Lisboa por menos do que a módica quantia de 500 ou 600 euros por um T0 e comprar uma casa decente é uma distante miragem. A sentença é óbvia: a geração mais jovem está condenada a viver em casa dos seus pais ou a partilhar casa - pagando 300 ou 400 euros apenas por um quarto - até muito tarde. Até já os concelhos periféricos de Lisboa - Almada, Amadora, Sintra, Oeiras - viram os preços da habitação tornarem-se absolutamente proibitivos. Perguntamo-nos: onde querem, então, os liberais que os e as jovens vivam? Não na cidade de Lisboa, nem nos seus concelhos vizinhos, com certeza. Essa querem-na para as classes altas e para os turistas.

Aproveitemos, então, as tristes declarações da Iniciativa Liberal para tecer algumas considerações sobre o avanço do capitalismo no espaço das nossas cidades. O dinheiro, tal como o conhecemos numa economia capitalista, representa uma abstração económica, que se concretiza num valor de troca, ao qual as mercadorias podem ser igualadas. Como Marx explicou há já algum tempo, pode-se estabelecer que uma quantidade de um produto equivale a uma dada quantidade de outro, mas estes dois valores devem ser redutíveis a um terceiro, a um valor de troca, que se concretiza no dinheiro e que, por sua vez, pode voltar a ser trocado por outra mercadoria. Nesta senda, o geógrafo David Harvey explica que a própria existência do dinheiro como mediador da troca de mercadorias alterou o espaço e moldou os processos de urbanização e a vida das cidades contemporâneas, sobrepondo as necessidades do capital a tudo o resto. Ademais, Harvey acrescenta que a troca de mercadorias e a monetarização da economia acabaram por eliminar as verdadeiras qualidades e caraterísticas do local, transformando-o numa mera parte de um “enorme todo” de trocas capitalistas. Neste sentido, tal como a mercadoria é abstraída da sua utilidade real (ou do seu custo de produção) e é vendida e comprada com base num valor simbólico, também o espaço sofre um processo semelhante.

A cidade real é destruída para que se possa construir a cidade simbólica, uma abstração para o mercado da turistificação. Não importa quem cá vive, trabalha ou estuda: o que realmente se quer é um produto vendável no vasto cardápio disponível para o turista-consumidor que procura uma experiência única nas profecias autorrealizadas oferecidas pela indústria do turismo. Por isso, os centros das cidades querem-se esvaziados de qualquer forma de vida que possa alterar a fantasia que o turista quer comprar: as pessoas de classes mais baixas, os estudantes e quem vive dos rendimentos do seu trabalho são, por isso, empurrados para zonas periféricas cada vez mais longínquas. Como explicou a geógrafa Sharon Zukin, as nossas cidades são transformadas em “paisagens do poder económico”: espaços desenhados para os caprichos do capitalismo “super moderno” onde as pessoas comuns não cabem. O acesso à cultura, aos espaços verdes e aos espaços lúdicos fica reservado para a minoria capaz de suportar o peso das rendas astronómicas.

No entanto, as contradições do sistema tornam-se demasiado agudas. Turismo, especulação imobiliária, liberalização absoluta da habitação. Os resultados estão à vista: bairros históricos que trocaram moradores por hostels, airbnb 's e hóteis de charme, uma geração inteira a quem o futuro foi roubado e cidades desenhadas à medida da elite financeira. Talvez esteja na altura de experimentar uma solução alternativa: rendas controladas, habitação pública e limitações para o licenciamento da hotelaria e alojamento local. Parafraseando Lefebvre, temos direito à cidade. A toda ela: às Avenidas Novas, ao Chiado, ao Castelo, a Alfama, à Mouraria, a Arroios, Benfica, aos Olivais ou à Penha de França.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista
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