José Manuel Pureza

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda

Agora que passamos da crise sanitária para a crise social gigantesca, o bloco central quer ter um parlamento dócil que não dê eco aos protestos de quem é sempre preterido.

Em Portugal como em França, em Espanha, na Itália, na Áustria ou nos países nórdicos, a direita tradicional está a incorporar o essencial do programa da extrema direita.

A quebra do consenso de excecionalidade e o regresso da política são indicadores de recuperação da saúde democrática. Porque eles serão sinais de que o constrangimento do medo foi substituído pela liberdade da escolha.

Lá como cá ninguém se diz racista. Mas há um racismo instalado que se exprime numa inferiorização de facto em função da cor da pele nos traços mais correntes da vida social.

De mãos dadas com o novo normal, há esse velho normal da desigualdade. E é nesse velho normal que se está a disputar o que vai ser a vacina contra a Covid-19.

O problema dos ciganos é o “os”, esse “os” generalizador que é sempre instrumento de estigmatização coletiva e de desdiferenciação do que é heterogéneo. A estratégia da extrema direita começa aí, nesse uso de amálgamas para estigmatizar grupos inteiros.

Em abril de 1974 desobedecemos aos especialistas e escrevemos na pedra que é o povo que manda. Aquele dia foi isso. E, por causa dele, este dia é-o também.

Há uma parte do país, que se exprimiu nestes dias com exaltação e imensa boçalidade, para a qual a sociedade se divide entre a virtude e o vício, entre a humanidade e a barbárie.

Como depois da II Guerra Mundial, o que hoje se joga na Europa e nos Estados Unidos é a afirmação da segurança humana como princípio de organização social contra a barbárie. E isso tem um nome: Estado social.

Para os advogados como para toda a gente, é nas decisões que tomarmos nestes dias de nuvem que se desenha o futuro depois dela perder espessura.