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O vulcão e as placas tectónicas

Lá como cá ninguém se diz racista. Mas há um racismo instalado que se exprime numa inferiorização de facto em função da cor da pele nos traços mais correntes da vida social.

O grande James Baldwin, nome maior da literatura norte-americana e lutador pelos direitos civis, escreveu que “o racismo não é apenas uma má ideia; é uma ideia vergonhosa porque as atitudes e crenças dos racistas provam a sua desumanidade e não a inferioridade da sua vítima.” E Francisco, o Papa, tirou daí, nos últimos dias, uma consequência inequívoca: “o racismo é pecado.”

A qualificação do racismo como desumano e como pecado diz que ele é História e não frivolidade momentânea, mostra como ele é estrutura e não só atitude, evidencia como ele é conformador de hierarquias e de políticas de exclusão e não apenas estupidez de uns quantos.

Esse racismo profundo, estrutural, entranhado explode, como um vulcão que irrompe, em momentos determinados. Mas dizer que o racismo é esse momento de violência espetacular é o mesmo que reduzir o movimento das placas tectónicas à irrupção vulcânica que ele provoca.

A discriminação racial tem um avesso e esse é o de um contrato social amplo que inclua, pelas políticas concretas, quem dele tem estado excluído pelo preconceito

A morte por asfixia de George Floyd por um polícia branco foi um vulcão de enorme intensidade. Tudo foi brutal, grotesco. Mas importa que a natural comoção não perca de vista que o assassinato de Floyd é muito mais que a brutalidade momentânea de um polícia frio e desapiedado. Não, o “I can’t breath” de Floyd foi a voz do sufoco a que gerações sucessivas de afrodescendentes norte-americanas foram sendo sujeitas no dia a dia do emprego, do hospital, da escola, do tribunal, da prisão, do espaço público. O sufoco em que cor da pele e pobreza se combinam e potenciam culturas enraizadas de exclusão e de humilhação. E isso é tanto em Minneapolis como em Lisboa, é tanto em Nova Iorque como numa qualquer das cidades portuguesas. Lá como cá ninguém se diz racista. Mas há um racismo instalado que se exprime numa inferiorização de facto em função da cor da pele nos traços mais correntes da vida social.

Passada a turbulência do vulcão, sobrará sempre o desafio de responder ao movimento profundo do racismo tectónico. Com leis e com educação, claro. E sempre com emprego, com serviços de saúde, com escola e universidade, com salário, com direitos. Combinando reparação histórica com perspetiva de futuro. Combinando universalidade de princípio com a desigualdade momentânea que a acelere. A discriminação racial tem um avesso e esse é o de um contrato social amplo que inclua, pelas políticas concretas, quem dele tem estado excluído pelo preconceito.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 6 de junho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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