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A direita portuguesa é igual às outras

Em Portugal como em França, em Espanha, na Itália, na Áustria ou nos países nórdicos, a direita tradicional está a incorporar o essencial do programa da extrema direita.

A recomposição da direita portuguesa é tudo menos original relativamente às suas congéneres europeias. Em Portugal como em França, em Espanha, na Itália, na Áustria ou nos países nórdicos, a direita tradicional está a incorporar o essencial do programa da extrema direita. A pretexto de a combater, está a dar-lhe vitória. Dois exemplos dos últimos dias mostram que assim é.

O CDS quis fazer prova de vida no parlamento. E agendou um debate sobre "Autoridade do Estado e Segurança dos Cidadãos". O que é que propôs? O agravamento das penas para crimes praticados contra agentes policiais. Num país com índices de criminalidade baixos, o CDS veio proclamar que é pela masmorra que se cultiva o respeito pelas polícias. E isto é evidentemente a expressão de um campeonato entre o CDS e o Chega a ver quem defende com mais vigor retórico que a autoridade do Estado e o respeito pelas polícias se mede pela dimensão das penas. Um campeonato da extrema direita que passa ao lado do que é realmente importante para respeitar quem trabalha nas polícias.

Conhecemos o contributo da direita para o crescimento da extrema direita na Europa: fazer sua, sem o assumir, a agenda populista. Em Portugal, a direita está a revelar-se intérprete desse mesmo caminho

Segundo exemplo. Ao mesmo tempo que seduz o PS para acabar com os debates quinzenais com o Primeiro Ministro, momento essencial de exercício democrático da função fiscalizadora do parlamento, o PSD vem propor a extinção da Comissão parlamentar da Transparência e a sua substituição por um órgão presidido por “uma personalidade de reconhecido mérito” e por uma maioria de membros não deputados, “cidadãos de reconhecida idoneidade” eleitos pela maioria de deputados. O PSD faz assim sua a retórica do Chega sobre a podridão do “sistema” e, tal como o Chega, faz dos deputados em geral gente suspeita por natureza. Nem esta generalização serve para disfarçar os casos em que a transparência democrática foi maculada por deputados do PSD. Mas o que é verdadeiramente importante é que Rui Rio vá assim ao encontro do populismo da extrema direita e desista de vincular o parlamento a ser ele próprio o primeiro garante da transparência que a democracia exige.

Conhecemos o contributo da direita para o crescimento da extrema direita na Europa: fazer sua, sem o assumir, a agenda populista, com a fantasia de que isso seria travão e não acelerador dos partidos extremistas. Em Portugal, a direita está a revelar-se intérprete desse mesmo caminho. E isso, combinado com a persistente inimizade da direita com o Estado Social, são excelentes notícias para André Ventura.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 4 de julho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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